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Eugénio de Andrade: uma solaridade perfeita

A «Fólio Edições», acabou de editar uma obra de homenagem ao poeta Eugénio de Andrade. E o livro tem exactamente este título «A Jeito de Homenagem a Eugénio de Andrade». Um livro sobre este autor é sempre um contentamento contente, ao contrário do que dizia o outro poeta, Camões. Quando não é um livro sobre Eugénio é um livro de Eugénio. E isso só valoriza a nossa cultura e quem o lê. Já o dissemos aqui. Eugénio de Andrade é um dos nossos poetas vivos mais importantes. É de todos o que mais gosto, apesar da frase ser tão óbvia quanto blasfema, quando temos Ramos Rosa, Casimiro de Brito, Herberto Hélder. Mas ninguém como Eugénio trata o âmago da palavra simples, dá à rosa a sua verdadeira tonalidade, revela a ternura malévola do gato, com toda a delicatessen, de aristocrata da palavra. É talvez por isso que Mário Cláudio escreve – a páginas 23 do livro – num bilhete: “Não lhe trago rosas Eugénio, só palavras.». Palavras e rosas, rosas e palavras, um mundo feio tornado belo por Eugénio. ...

Casimiro de Brito, um poeta abandonado

Há muitos dias que ando com este poeta na cabeça. Não porque o tivesse encontrado agora, mas sobretudo pela ausência de referências, a si e à sua obra, na cidade de Loulé, que o viu nascer. Conheci a poesia de Casimiro de Brito, em Portimão, pouco antes do 25 de Abril de 74, ao ouvir as declamações clandestinas de outro grande poeta de Portimão, companheiro de Casimiro, Candeias Nunes. Na época falava-se da plêiade poética algarvia, dos anos 50-60, onde pontificavam ainda, para além dos dois referidos, Gastão Cruz e Nuno Júdice, sob a influência do seu mentor poético António Ramos Rosa. Estes poetas organizavam-se em movimentos informais poético-artísticos, dando a conhecer as suas ideias e obras poéticas, através de cadernos editados e vendidos pelos próprios, dos quais os mais importantes foram talvez os Cadernos do Meio-Dia, de Faro. Em Loulé, Casimiro de Brito, então com apenas 18 anos, já participava nestas tertúlias e criações poét...

A política, o futebol e a violência

No ano de 2004, o futebol dominará a política nacional. Em contrapartida e como moeda de troca social, a política tem dominado o futebol. Há muitas épocas - para usar a terminologia do futebol - em que o dirigismo no futebol é tirocínio obrigatório para quem quer ascender a cargos políticos de referência. Em qualquer currículo que se preste a provas eleitorais, lá vai a referência à gestão da direcção do clube da aldeola, ou à prática desta ou daquela actividade amadora. Em tempos, era raro o presidente de Câmara que não tivesse lugar cativo na presidência de uma qualquer assembleia geral de um qualquer clube. Do anonimato para a associação, desta para o clube de futebol da terra e deste para o cargo político, este era o caminho certo para o poder. Ora, precisamente, este caminho constrói-se a partir de uma rede de favores e benevolências minúsculas e invisíveis que estruturam a fidelidade de apaniguados, empregados, funcionários e autoridades. Só assim é possível, a quem detém o poder...

A Liberdade no Masculino

Éramos todos muito jovens, entre os 15 e os 20 anos, para além dos mais velhos, operários e ainda professores, presentes connosco na reunião. Mesmo jovens sentíamos os apelos do empenhamento cívico e da participação plena, num Portugal que se queria totalmente democrático, que respeitasse os direitos dos espoliados. Éramos estudantes envolvidos nas lutas diárias, na escola, nas fábricas, nos barcos de pesca. Quase todos de nós vivíamos em bairros operários, ou de pescadores, filhos de operários das conservas, de pequenos agricultores, de pescadores. Nos últimos dias tínhamos comparecido na escola muito pouco tempo, pois as noites eram longas, passadas ao frio e ao vento à porta das fábricas de conservas da cidade, junto das operárias conserveiras, que depois de um dia muito árduo de trabalho resgatavam, ainda, forças para evitar que as caixas de conservas saíssem da fábrica. Era a contrapartida do seu trabalho e dos salários que não recebiam havia algum tempo. Naquela noite concentrámo...

O Entrudo e o Carnaval

O Carnaval de Loulé costuma ser separado entre o carnaval dito “civilizado” e o outro que não o seria. São pouco conhecidos os epítetos sob os quais seriam designadas as práticas dos carnavais anteriores a 1906 - data em que a comissão de festejos, decide fazer do carnaval um recurso financeiro para a Misericórdia local – mas Freitas (1991: 166, 176) dá-nos muitas respostas. Expressões como “a brutalidade do velho carnaval”; “a machadada de morte no velho «Momo»”; “se jogava agressiva e grosseiramente ao indecoroso Entrudo”, são exemplos da transformação do Entrudo no chamado Carnaval civilizado. Esse mecanismo de transformação, assumiu desde sempre a ideologia da normalidade, da hierarquia, da disciplina, da contenção, como princípios da monarquia e, mais tarde, do Estado Novo. A própria expressão de carnaval, é de origem erudita e importada dos festejos urbanos de países centrais da Europa. Aqui a civilidade matou o Entrudo, enquanto expressão da manifestação cíclica do mundo agrário...