3.1.09

 

Poesia popular

POETA DE PADERNE

PUBLICA SEGUNDA OBRA DE POESIA

No passado dia 21 de Dezembro, a poeta popular de Paderne Albertina Coelho Rodrigues lançou a sua segunda obra de poesia intitulada «Nasce o sol a cada dia e do meu peito a poesia». A sessão teve lugar no salão da Sociedade Musical e Recreio Popular de Paderne, que contou com casa cheia para ouvir os poemas e as quadras da autora e os apresentadores da obra: Arménio Aleluia Martins, director do jornal local «A Avezinha», Ana Vidigal, antiga vereadora da cultura da Câmara Municipal de Albufeira e Helder Raimundo, investigador da Universidade do Algarve, coordenador do livro e autor do prefácio do mesmo, o qual transcrevemos de seguida com a devida vénia:

PREFÁCIO

Em Setembro de 2005, a Câmara Municipal de Albufeira deu à estampa o livro «Do Sonho à Realidade», uma obra de poesia de Albertina Coelho Rodrigues. Foi a sua primeira obra, 134 páginas de poemas em quadras, quintilhas e sextilhas e muitas quadras soltas. A concretização deste sonho em livro, plasmou o labor de vários anos da autora a escrever e reescrever poesia nascida das suas vivências no campo, dos seus olhares umas vezes ingénuos, outras vezes críticos sobre o mundo, sobretudo aquele que nos traz os “media” a toda a hora e de todo o lado. No prefácio do livro, Amália Cabrita mostra como a poesia de Albertina é ao mesmo tempo popular e feminina, na linha da crítica social das cantigas de amigo, mas uma voz de mulher; e eu acrescentaria de mãe, nas suas mais diversas formas.

Esta não foi a primeira incursão de Albertina na poesia publicada. Nas colectâneas «Poeta é o Povo», editadas pela Associação dos Poetas Populares do Alentejo e Algarve (APPA), em 1989/1990, já a autora tinha publicado alguns poemas. Antes, a sua poesia circulou ainda nos programas de Edmundo Falé, no Rádio Lagoa, nos anos 80, e nos vários encontros de poetas organizados nalguns locais do Algarve e Alentejo. Nesses encontros, chegou mesmo a ganhar o 1º prémio do concurso de quadras sujeitas a mote de António Aleixo e o 2º prémio de quadra, nos Jogos Florais da UATI (Universidade de Apoio à Terceira Idade).

Albertina Coelho Rodrigues nasceu em 15 de Janeiro de 1934, na Fonte de Paderne, onde sempre viveu. Casou nova e criou três filhos e três netos. Em criança ajudava os pais nas sementeiras do campo, na horta e nos terrenos de sequeiro. Frequentou a escola apenas no período de dois meses e quando adoeceu, aos sete anos, nunca mais lá voltou. Regressou assim ao trabalho na casa familiar e mais tarde a mãe decidiu a sua aprendizagem na costura. Mas sempre achou que o que gostaria era de costurar frases: palavras que saem do coração e chegam à cabeça como que a ordenar que tomem a forma de poesia. Poemas para serem lidos em voz alta. Como afirma Albertina: “Se a gente não sente também não se faz sentir quem a lê”. Começou por escrever poemas com a sua nora, ainda antes da sua neta nascer. Experimentou enviar para ser lida na rádio e gostou do que ouviu. E nunca mais parou. Há cerca de 15 anos, quando o seu marido feneceu, aprendeu verdadeiramente a ler e escrever, como adulta preocupada, e consciente, com a sua aprendizagem de vida.

De 2005 até hoje Albertina acumulou muitos outros textos. Já os tinha na altura do primeiro livro, mas decidiu preservá-los, para os costurar e cerzir mais tarde. A sua infatigável dedicação a cada palavra, a cada rima ou a cada poema no seu corpus técnico e estético, leva-a a trabalhar os poemas quase perenemente. Escreve, apaga, substitui, deixa repousar e volta mais tarde com uma ideia mais definitiva na cabeça. Muitas vezes o tema de um poema sugere-lhe imediatamente outro, como uma poeta repentista que estivesse na praça pública a ser ouvida e a escutar os outros. A sua leitura de poetas populares ou consagrados, como Aleixo ou Pessoa, também é crítica e não esconde a sua opinião, afirmativa, mesmo que ainda iniciática. Indiscutivelmente, o poeta popular algarvio é uma sua influência clara. Ou talvez dito de outro modo: há uma similitude entre ambas as escritas, conforme é notório noutros poetas da região, como Clementino Baeta, por exemplo. É claro que as fontes de conhecimento e aprendizagem na escrita de Albertina continuam a ser a oralidade popular (mais forte quando a iliteracia é evidente) e o quotidiano rural e comunitário de grande parte das vivências portuguesas da primeira metade do século XX. Uma seiva que provém da alimentação do cancioneiro popular de raiz tradicional e romântica, dos séculos XVIII e XIX.

Na presente obra Albertina Coelho Rodrigues acentua o uso da redondilha maior (verso de sete sílabas), que trabalha até quase à exaustão, e o poema enversado em conjuntos de cinco quadras. Só muito excepcionalmente utiliza seis ou mesmo sete quadras quando a narrativa se justifica no poema. Também a quadra solta, muito ao gosto popular, tem uma função social importante na sua poesia. É nelas que transparece a sua microficção, adivinha ou anedota, conto ou máxima, rápida e certeira e, muitas vezes, mote para novos poemas.

A leitura da obra sugere uma audição musical, se lida em voz alta e recitada, como se antes da escrita fosse pensada em voz alta para os animais e as flores do campo ouvirem em silêncio. Ouçamo-la também da mesma forma.

Neste livro Albertina desenvolve o seu campo temático. Continuamos a sentir o campo e também o mar, no fundo a Terra como mundo no qual vive. Também os comportamentos, atitudes e valores das pessoas são esmiuçados com exemplos vividos ou mediatizados. E há ainda o peso de um reino espiritual de luz e transcendência que evoca sempre e nunca esquece. Quase todo este labor é veiculado pelas suas memórias, pessoais ou sociais, que revela de forma interpretativa e circular. Muitas vezes lapidar, condição que o seu estatuto poético lhe permite. Muitos dos poemas são ainda sobre o seu trabalho de poeta. Ela explicita de forma clara como o faz e porquê. Não sendo nós detentores destes segredos, resta-nos ler, ouvir e descobrir. O que é muito mais do que a autora é obrigada.

Helder Faustino Raimundo

Mestre em Ciências da Educação/Educação e Formação de Adultos.

Professor da Universidade do Algarve.

***

Nota:

O livro pode ser pedido a Albertina Coelho Rodrigues, Fonte de Paderne, 8200-476 Paderne [telefone 960361801] ou adquirido na sede deste jornal (preço de capa = 5 euros)


6.12.06

 

O “Prisma de Cristal” e Casimiro de Brito em «A Voz de Loulé»

Quando, em 2004, pensei lançar uma página cultural neste jornal o amigo José Batista deu-me a conhecer um antigo suplemento, ou página literária que, em tempos, teria sido publicado em «A Voz de Loulé». Lancei-me na pesquisa desta fonte e no Arquivo Histórico da Câmara Municipal de Loulé acabei por encontrar, no ano de 1956, o “Prisma de Cristal”. Lá estava, na página 2 de «A Voz de Loulé» nº 94, de 16 de Outubro de 1956, uma denominada ‘página cultural’ organizada por Casimiro de Brito [ver, na página ao lado, a sua reprodução digital]. Casimiro Cavaco Correia de Brito tinha nascido em Loulé em 1938 e tinha, na altura, apenas 18 anos.

Neste primeiro número, na secção ‘Caderno de apontamentos’, o seu organizador agradece ao director do jornal da altura, Dr. Jaime Guerreiro Rua. Para além destas notas, a página inclui: uma antologia com o poema “Pátria” de João de Deus; uma quadra de Cavaco Correia (pseudónimo de Casimiro de Brito); a colaboração de um leitor de Loulé, João Francisco Manjua Leal; um pórtico sobre o “Prisma”; e um apelo à colaboração e crítica dos leitores.

Em Loulé, Casimiro de Brito, então com apenas 18 anos, fazia já eco e participava em diversas tertúlias e criações poéticas. Na sua terra dá expressão ao chamado Movimento Prisma, fundando uma página literária no jornal local «A Voz de Loulé», nesse período sob a direcção de Jaime Guerreiro Rua. Em torno desta página o poeta agregou à sua volta amigos e conhecidos e publicou conteúdos culturais de muitos jovens, mais tarde consagrados nomes das letras e das artes, como Ramos Rosa, Gastão Cruz, Eduardo Olímpio, Afonso Cautela e Maria Rosa Colaço, entre outros. Para além da mancha de textos, a página era ilustrada com pequenos linóleos da autoria de Manuel Cavaco Guerreiro.

O “Prisma de Cristal” edita 26 números, durante cerca de 28 meses, terminando a sua vida cultural nestas páginas, no jornal nº 175, de 15 de Fevereiro de 1959. Durante a sua edição Casimiro de Brito saiu de Loulé para estudar em Faro, seguindo mais tarde para Lisboa. A partir do nº 2 [VL nº 95, de 1 de Novembro de 1956] o “Prisma” passa a chamar-se “página literária”. Percebe-se porquê. A grande maioria dos seus conteúdos seria composta de poesia, poemas de jovens e de consagrados lado a lado, oriundos dos vários quadrantes poéticos do Algarve, do país, de Espanha, do Brasil, de África. Nas suas páginas publicaram 45 poetas (melhor 44, se considerarmos as quadras de Casimiro, assinadas com pseudónimo) muitos deles traduzidos, do espanhol e do inglês, por Casimiro de Brito. De entre os nomes hoje mais conhecidos poderemos referir, para além do organizador da página, Ramos Rosa, Vicente Campinas, Emiliano da Costa, Afonso Cautela, Fernando Midões, Eduardo Olímpio, Maria Rosa Colaço e António Cabral. Repetiram poemas, para além do próprio Casimiro, Vicente Campinas, José Guerreiro, Costa Mendes, Orlando Neves, Carlos Alberto Jordão, Lita Fernandes Ferreira, José Carlos Gonzalez, Eduardo Olímpio e Rui Mendes.

Com o poeta Eduardo Olímpio, natural de Santiago do Cacém, Casimiro de Brito criou e divulgou os Cadernos de Poesia «Encontro», vendidos pelo “Prisma” a 4 escudos cada. Na área da criação e divulgação poética o “Prisma de Cristal” dá conta das diversas iniciativas editoriais de Casimiro, designadamente do «Caderno Zero» (como redactor), do «Convívio» (como director) e dos mais célebres «Cadernos do Meio-Dia», dirigidos por António Ramos Rosa, na altura em que Casimiro de Brito já habitava na Rua do Bocage, em Faro.

Foi nas páginas do “Prisma de Cristal” que Casimiro de Brito publicou os seus primeiros poemas de juventude, tendo escrito ainda sobre arte, cultura, poesia, cinema, filosofia. Foi nessas páginas que dissertou sobre os movimentos poéticos, que lançou o seu Movimento Prisma, que apontou o seu gume crítico ao conservadorismo cultural. Foi nelas que formou e treinou o seu espírito progressista, a sua veia crítica, a sua busca de liberdade.

O “Prisma de Cristal” é, ainda, o suporte estético daquilo a que Casimiro chamou o Movimento Prisma, espaço de criação, fomento e organização de uma jovem poesia que nascia nos anos 50, fora dos movimentos conhecidos da poesia contemporânea. A sua importância, no Algarve, está ainda por apurar. A esse movimento Casimiro de Brito refere-se várias vezes no “Prisma de Cristal”, abordando temas fora da poesia, como a estética, a filosofia ou a cultura, exercendo crítica literária e discorrendo sobre muitos outros temas. No corpo de colaboradores do “Prisma”, informalmente organizados no Movimento, destaque para o poeta Gastão Cruz, natural de Faro, que publicou o seu primeiro texto na página com apenas 16 anos. Trata-se de uma crítica literária ao livro “Dispersão” de Mário de Sá-Carneiro, inserta no “Prisma” nº 23 [16 de março de 1958].

Durante o período de publicação o “Prisma” contou com um total de 18 colaboradores, de entre os quais saliento Manjua Leal, José Guerreiro, Vicente Campinas, Maria Rosa Colaço, Afonso Cautela, Francisco de Sousa Inês, João de Leal, Eduardo Olímpio, Carlos Porto e o artista plástico Manuel Cavaco Guerreiro, autor dos linóleos publicados e do frontispício da página.

Para além de organizador Casimiro de Brito foi um participante compulsivo em várias áreas da cultura e da literatura. No campo da poesia, participou com 11 poemas em nove dos 26 números do “Prisma”. Os seus primeiros poemas publicados surgem no nº 3 [16 de Novembro de 1956], com o título “Diário dum jovem poeta” e assinados como Casimiro de Brito.

A produção poética de Casimiro de Brito não se limita às páginas do “Prisma”. Publicou alguns poemas fora da página literária, de que é exemplo o poema “Desprendimento”, que surge na primeira página de «A Voz de Loulé», de 20 de Janeiro de 1957, na qual figura o “Prisma de Cristal” nº 7.

Em artigo assinado pelo colaborador do “Prisma” João de Leal, de Faro, ficamos também a saber que Casimiro de Brito publica o seu primeiro livro de poemas, em edição de autor, impresso na Tipografia Cácima. Na nota publicada em «A Voz de Loulé», de 19 de Janeiro de 1958, Leal refere o livro “Poemas da Solidão Imperfeita”, editado em Faro em 1958, que hoje figura como a primeira obra do autor.

O que é curioso notar é que Casimiro de Brito não cedeu à tentação (eventualmente ingénua e simplista) de utilizar, no seu primeiro livro publicado, os poemas que havia editado no “Prisma de Cristal”. O que quer dizer que todos os poemas do autor insertos em «A Voz de Loulé» nunca foram publicados em livro, iniciativa que me parece justa e interessante levar a cabo por este jornal, com a concordância do autor.

Devo referir que a experiência do “Prisma de Cristal” em «A Voz de Loulé» é completa e inexplicavelmente ignorada por Mário Lyster Franco na sua conhecida obra “Algarviana”, de 1982 [ver páginas 380-385]. Nesta obra Lyster Franco refere a colaboração “permanente ou eventual” de Casimiro de Brito nos semanários regionais «Jornal do Algarve», «Folha de Domingo» e «Correio do Sul», nos quais, segundo ele, Casimiro “talvez se tenha estreado”.

No passado mês de Outubro passaram 50 anos do aparecimento do “Prisma de Cristal”, página literária de «A Voz de Loulé», organizada pelo poeta louletano Casimiro de Brito. Tempo para encontrar formas de comemorar condignamente o evento. Casimiro de Brito merece-o. E Loulé também.


Nota: este artigo é um resumo de um pequeno ensaio que em breve sairá na revista Al-‘Uliã, nº 11, do Museu Municipal de Loulé.


19.10.06

 

Pólo Museológico dos Frutos Secos

O PLANO MUSEOLÓGICO DO CONCELHO DE LOULÉ.
O EXEMPLO DO PÓLO MUSEOLÓGICO DOS FRUTOS SECOS

Hélder Raimundo (2004). Revista al~ulyã, 10 (pp. 437-447). Loulé: Arquivo Histórico Municipal de Loulé.

1. INTRODUÇÃO
Em 1991 é estabelecido o Plano Museológico do concelho de Loulé, a partir de uma proposta discutida em reunião aberta com associações locais, investigadores e outros interessados. Desde aí, o Museu Municipal de Loulé tem desenvolvido esforços concertados com muitos actores locais, públicos ou privados no sentido de concretizar a instalação de uma rede de pólos museológicos diversificados – mas complementares – que permitam uma interpretação cultural do rico património do concelho. Nesse âmbito, abordamos neste texto o exemplo do Pólo Museológico dos Frutos Secos, instalado na cidade de Loulé, em Dezembro de 1998, e que caracteriza o paradigma dos objectivos da museologia participativa que enforma os princípios do Plano Museológico do concelho.
O Pólo Museológico dos Frutos Secos é um espaço museal que assenta numa antiga unidade fabril dedicada à indústria dos frutos secos, designadamente ao tratamento da amêndoa e da alfarroba.

2. PLANO MUSEOLÓGICO DO CONCELHO DE LOULÉ
O Plano Museológico do concelho de Loulé é um projecto da Divisão de Cultura e Património Histórico da Câmara Municipal de Loulé. Ele é o resultado de uma ampla discussão, investigação e experiência, acumulada desde 1991, no âmbito da intervenção relativa à defesa, conservação e reabilitação do património cultural.
Pretende-se com este Plano, dotar o espaço concelhio de uma estrutura museal, assente num conjunto de pólos museológicos, que funcionem como pequenos centros de interpretação do concelho, nas suas várias componentes sociais, económicas e culturais.
A partir do núcleo central, designado por Museu Municipal, sedeado em Loulé e em permanente processo de consolidação, deve ser possível estabelecer um conjunto de percursos disseminado pelo território, privilegiando-se, assim, a descentralização cultural e o processo de desenvolvimento local.
Trata-se de um novo conceito e de uma nova forma de encarar o património e a museologia, do qual podemos destacar algumas características:

i) Museu como percurso histórico-geográfico;
ii) Museu vivo, com público participante;
iii) Museu interpretativo de um território, de uma população e de um património;
iv) Museu como pólo de desenvolvimento.
Estes novos conceitos de museologia assentam num trinómio, o qual contraria a velha visão dos museus que conhecemos:
1. Em oposição a um Edifício, elegemos um Território;
2. Em vez de uma Colecção, propomos um Património;
3. Ao contrário de um Público, pretendemos uma População.
Esta nova concepção abre caminho a uma metodologia de trabalho que irá consagrar o espaço edificado do museu, em sintonia complementar com o seu território envolvente, como se este fosse o seu prolongamento. Em segundo sentido, o museu irá constituir-se em torno de um património cultural próprio, proveniente do contexto social e económico da comunidade onde se insere, que o deve assumir como um espaço social de identidade. Em terceiro lugar, o que o museu irá privilegiar não é um público amorfo e distante, mas uma população interessada no seu usufruto, à qual ele se devolve, numa visão interpretativa.
Dentro desta perspectiva, a Divisão de Cultura e Património Histórico procedeu já à instalação, na alcaidaria do castelo de Loulé, do Museu Municipal de Arqueologia – representativo do povoamento histórico no território do concelho –, bem como à abertura do Pólo Museológico da Cozinha Tradicional. E ainda, à abertura do Pólo Museológico do Esparto, integrado na Casa Memória de Alte, espaço polivalente com funções de Museu, Posto de Turismo e Mostra de Artesanato. Nesta aldeia decorre, ainda, o processo de instalação do Pólo Museológico do Traje, Música e Dança.
Para breve prevê-se a instalação, em Querença, do Pólo Museológico da Água, representativo de um traço característico de uma freguesia, que assenta ainda grande parte da sua actividade económica e social, em torno da utilização deste recurso precioso. Em Salir, projecta-se a implantação do Centro Interpretativo do Castelo, a partir do espólio exumado nas escavações arqueológicas efectuadas, que demonstram a antiga presença islâmica no local.
Outros pólos se seguirão nas restantes freguesias, respeitando sempre o princípio da diversidade temática e da consequente complementaridade.

3. PÓLO MUSEOLÓGICO DOS FRUTOS SECOS

O Pólo Museológico dos Frutos Secos insere-se na linha de implantação do Plano Museológico do concelho de Loulé, o qual privilegia a instalação, por todo o território concelhio, de pequenos núcleos temáticos e diversificados, adequados aos contextos locais, do ponto de vista social e cultural. Esta perspectiva possibilita uma interpretação do território, comum a uma população específica, sendo essa leitura realizada, a partir de um património que se reconhece na memória dos seus promotores.
A instalação de pólos pelo concelho descentraliza a actividade cultural e serve de atractivo aos visitantes, que dessa forma podem percorrer o concelho numa rede de interesses culturais, valorizando assim outras áreas, como a gastronomia e o artesanato e em particular, rendibilizando a actividade turística.
O Pólo Museológico dos Frutos Secos, está instalado num edifício fabril de pequena dimensão, localizado na rua Gil Vicente, nº 14, num núcleo antigo da cidade de Loulé, propriedade do Sr. José Bota e que a Câmara de Loulé arrendou com esse objectivo.
O edifício, foi alvo de pequenas obras de recuperação e consolidação, do telhado, paredes e aberturas, para permitir albergar os equipamentos originais das duas moagens: uma máquina de partir amêndoa e uma máquina de triturar alfarroba.
A musealização do espaço foi realizada em torno destes dois equipamentos principais, à volta dos quais, se desenrolarão os restantes materiais de trabalho e outros acessórios, enquadrados por textos, fotografias, desenhos, cenografias contextuais e outros materiais. Um terceiro sector será dedicado ao historial da pequena empresa da família Bota tendo-se utilizado, para o efeito, elementos visuais como mapas, cópias de documentos, fotografias, etc.
O Pólo Museológico é encarado de forma a servir didacticamente os visitantes. Dessa forma, as duas maquinetas estão preparadas para funcionar em determinadas situações, sobretudo aquando de visitas de escolas. É importante dar a conhecer, elementos importantes do nosso património arqueológico industrial, de forma rentável, se possível. Com isto, queremos dizer que a amêndoa partida pode servir para provas e vendas no local, tal como a alfarroba triturada, servirá para utilização na confecção de pão e bolos, a comercializar no local. Esta componente complementará o ciclo funcional do Pólo e permitirá a promoção dos produtos locais, atraindo alguns benefícios económicos.
Finalmente, a instalação deste espaço permitiu a formação de uma auxiliar de museografia que possibilita aos visitantes, em geral e às escolas, em particular usufruir devidamente das informações e animações culturais proporcionadas por este recurso educativo.

4. A INDÚSTRIA DOS FRUTOS SECOS

O pomar misto de sequeiro tradicional algarvio, constituído por alfarrobeiras, figueiras, amendoeiras e oliveiras, sempre se afirmou como uma área de grande riqueza, na economia rural do Algarve, em especial no concelho de Loulé.
Desde há muito tempo que se conhecem registos da actividade comercial, relacionada com a produção e exportação de frutos secos, primeiramente com o figo, posteriormente com a amêndoa e mais recentemente com a alfarroba e seus derivados.
Esta actividade permitiu o aparecimento de uma classe de grandes negociantes, especializados na compra e exportação para o estrangeiro e apoiados em intermediários, que se reuniam regularmente em Faro e Loulé para definir os preços dos produtos.
Em 1971, o concelho de Loulé possuía 77 comerciantes armazenistas registados na Junta Nacional das Frutas, em Faro, detendo o primeiro lugar, seguido do concelho de Silves. Muito antes, em 1905, Ataíde Oliveira, dá notícia de três industriais de “frutas secas”, no concelho de Loulé.
Um dos industriais referidos é provavelmente Francisco Joaquim Bota, que desde os finais do século passado negociava cortiça no Alentejo e no Ribatejo e figo no Algarve. Tratava-se de uma empresa informal instalada na Estação de Loulé, que ocupava meia centena de mulheres nas actividades de tratamento, embalamento e enceiramento do figo e partição da amêndoa. Só por volta dos anos 30 é que a actividade se instala em Loulé.
Em 1 de Julho de 1943, Francisco Joaquim Bota e os seus filhos José Francisco Bota e António Francisco Bota, constituem uma sociedade por quotas de comércio e exportação de frutos secos, que adopta a designação “Francisco Joaquim Bota & Filhos, Lda.”, com sede em Loulé, na Rua Serpa Pinto nºs 1 a 13 e Rua Nova de Quarteira nºs 4 e 6.
Inscrita na Repartição do Comércio, a nova empresa estava claramente vocacionada para a transformação e comercialização de frutos secos.
Os figos, amêndoas e alfarrobas eram comprados no barrocal do Algarve directamente aos produtores, ou ainda na empresa, onde eram vendidos por intermediários ou por produtores. A sua transformação era efectuada pela empresa de forma manual, tendo os equipamentos mecânicos sido introduzidos apenas nos anos 60. A máquina de partir amêndoa (que no museu se expõe), tem patente de um fabricante de Loulé, Zeferino Clara Viegas. Os frutos secos eram depois exportados para diversos mercados nacionais e estrangeiros, sendo de destacar o Norte da Europa.
Após o falecimento do fundador da empresa, a gestão dos negócios é feita, formalmente a partir de 1961, em conjunto pelos seus dois filhos e mais tarde por um dos seus netos, José Viegas Bota, que mantém viva, ainda hoje, a memória desta actividade económica.
Ao Sr. José Viegas Bota se agradece a disponibilidade manifestada, para a montagem do Pólo Museológico dos Frutos Secos, na cidade de Loulé.


5. A AMENDOEIRA (Prunus dulcis)

A amendoeira é uma pequena árvore, de copa arredondada e folha caduca, originária da Ásia e do Norte de África que se tem propagado ao longo de várias áreas. Em Portugal, introduzida pelos árabes, surge em Trás-os-Montes, mas sobretudo no Algarve, onde floresce ainda nos dias frescos mas soalheiros de Inverno. As suas flores brancas e cor-de-rosa dão um alegre colorido aos campos molhados do barrocal algarvio, lembrando mantos de neve, em terras longínquas e recordando a lenda das amendoeiras em flor.
Para além da sua beleza visual, a amendoeira propagou-se devido ao valor económico do seu fruto, a amêndoa. No início, parecem pêssegos ou alperces verdes, mas a parte carnuda mantém-se dura e não é comestível. Quando amadurece, no final do Verão, o pericarpo abre e solta-se, deixando ver a casca rija da amêndoa. Só o seu miolo é comestível.
A riqueza da amêndoa é conhecida e explorada desde há muito tempo. A sua utilização na alimentação e em particular na doçaria, misturada ou não com o figo, é descrita já no século XVI. Nesta altura, a amêndoa era comercializada entre o Algarve e Lisboa e mais tarde com o Alentejo, transportada pelos almocreves através das serras algarvias. A exportação para o estrangeiro, por via marítima, sobretudo para França e Bélgica, é conhecida neste mesmo século.
Mais tarde, os mercados alargar-se-ão para os países do Norte e Noroeste da Europa.
No Algarve os amendoais espalham-se por todo o barrocal, sendo o concelho de Loulé um dos mais representativos desta cultura.
Apesar do declínio desta produção, nos pomares de sequeiro, a sua comercialização contribui, ainda, para a parca economia rural algarvia.


6. A ALFARROBEIRA (Ceratonia siliqua, L.)

A alfarrobeira é uma árvore da família das leguminosas, de copa arredondada e folhagem densa e persistente, originária da Síria e introduzida em Portugal pelos árabes.
Aparece um pouco dispersa por todo o país, mas é no Algarve que tem a sua principal expressão ecológica e económica, nos terrenos do litoral, na serra xistosa nordestina e sobretudo nos terrenos calcários do barrocal.
As suas variedades ou cultivares, estendem-se desde Lagos a Tavira, assumindo o concelho de Loulé o predomínio, em número de explorações e produção. Por isso é considerado o “solar” da alfarrobeira.
A colheita dos seus frutos, a alfarroba, ocorre antes das chuvas entre Agosto a Outubro, pelo simples sistema do varejo, devendo aqueles ser armazenados em sacos, em condições de humidade aceitáveis, por um período de um ou dois anos. Só posteriormente a alfarroba é vendida para uma primeira transformação, a armazenistas ou industriais de trituração.
Desde há séculos que se conhece e explora comercialmente a riqueza económica da alfarrobeira. No século XVI, a alfarroba era um dos produtos vendidos na feira de Tavira, e no concelho de Loulé os seus oficiais multavam quem colhesse “farrobas” em herdades ou terras de pão.
Nos séculos seguintes cresce a produção de alfarroba, estimulada primeiro pela sua reputação como alimento para o gado, em Portugal e no estrangeiro e a partir de finais dos anos 40 do nosso século, pela sua transformação para as indústrias alimentar, farmacêutica, cosmética e têxtil, entre outras.
A industrialização da alfarroba permite a obtenção de diversos produtos.
A polpa, em triturado fino, destina-se ao consumo de ruminantes; do triturado grosso pode fazer-se extracção de xarope ou obter-se farinha torrada.
A semente, que corresponde apenas a 10% do peso do fruto, constitui a sua parte mais nobre, pois dela se originam as gomas de alfarroba e o germe de alto valor proteico, donde se fabrica a farinha que integra a rica doçaria tradicional algarvia.
Nos últimos anos a alfarroba, no conjunto dos seus derivados, tem participado com cerca de 50% no valor total da exportação de frutos, destinada sobretudo aos mercados do Japão, EUA e Holanda, o que mostra o seu crescente valor económico para Portugal e em especial para os produtores do Algarve.

Pólo Museológico dos Frutos Secos – Museu Municipal de Loulé
Rua Gil Vicente, nº 14, 8100-697 Loulé / Telefone: 289 400689
Horário: Segunda a Sexta, das 9 às 12 e das 13.30 às 17.30 horas / Sábado, das 10 às 14 horas.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
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CAVACO, Carminda (1976) O Algarve Oriental. As Vilas, o Campo e o Mar. Faro: Gabinete do Planeamento da Região do Algarve, volume I.
FREITAS, Miguel (1991) Loulé, um Espaço Rural em Mudança: Utilização do Solo in Actas do I Congresso do Concelho de Loulé. Loulé: Casa da Cultura de Loulé, pp. 263-272.
GRAÇA, José (1989) A Alfarrobeira no Algarve in O Algarve na Perspectiva da Antropologia Ecológica. Lisboa: INIC e UAL, pp. 423-434.
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ABSTRACT
The Dried Fruits’ Industry

On the 1st July 1943, Francisco Joaquim Bota and his sons José Francisco Bota and António Francisco Bota created a joint-stock company to the commerce and exportation of dried fruits, with its head-office in Loulé, in Serpa Pinto Street. The new company, that adapted the denomination “Francisco Joaquim Bota & Filhos Ld”, was clearly adequate to the transformation and to the commercialisation of figs, almonds and carob. Nowadays, the founder’s grandchild, José Viegas Bota, keeps alive the memory of this economical activity.

The Almond tree

The almond tree was introduced in Portugal by the Moors and it appears mostly in the Algarve, where it flowers in the fresh but sunny days of winter. Its white and pink flowers recall snow-drifts and recall the legend of the almond trees in flower. The richness of the almond has been exploited since a long time ago, mostly by its use in the traditional confectioner, contributing also to the rural economy of the Algarve’s “Barrocal” (area composed by clay and lime).

The Carob tree

The carob tree is originated from Syria and it was introduced in Portugal by the Moors. It can be found spreaded all over the country, but it is in the Algarve where it has its main ecological and economical expression, mostly in Loulé’s Municipality. Since 1940, its richness becomes clearer by its use in several industries. Nowadays, the carob, with its set of by-products, composes one of the main exported products, assuming an important economical role, in the economy of the Algarve.
(Tradução / Translation: Deanna Raimundo)


29.11.05

 

Casimiro de Brito, "poeta do pleno e do vazio"?

Em Loulé, realizou-se (18 de Novembro passado) uma Conferência sobre Casimiro de Brito, no âmbito de Faro, Capital Nacional da Cultura 2005. Álvaro Manuel Machado, conferencista convidado, traçou um excelente perfil da obra poética e literária do poeta, em torno da ideia central de pleno e de vazio, que considera serem as marcas filosóficas de Casimiro. Aproveitei essa deixa, no final da conferência, para metaforicamente sublinhar o contraste entre a vasta e qualitativa obra do poeta e o número de pessoas na sala (seis ouvintes e mais três pessoas da organização).
Casimiro, sendo louletano, não é conhecido em Loulé. Ou melhor, é conhecido por uma minoria pouco significativa de gente ligada à cultura. Aliás, entre a terra e ele há ainda muita coisa por esclarecer. E, notoriamente, estamos perante um fenómeno de rejeição recíproca, muito mais por obra da terra do que pela obra do poeta. Digo eu. Sobre este assunto, aliás, já tive oportunidade de o referir e escrever bastas vezes. É o poeta que nos esclarece, quando a certa altura num poema refere:
(...)
e eu um louletano com milhões de sonhos
tão longe e tão perto na escala do tempo
Loulé minha terra natal
tão longe e tão perto de mim
como és grande e pequena Loulé assim.

Perceberá o leitor, se for procurar os muitos livros editados de Casimiro, nas livrarias (ou na única livraria com esse nome) da cidade ou pesquisar o seu nome na Biblioteca Municipal Sophia de Melo Breyner Andresen, em Loulé. No primeiro caso nada se encontra. No segundo não sei se já está disponível ao leitor alguma obra. Há um ano atrás nada estava.
Por ter sido desde sempre aceite e acolhido em Faro, o poeta assume um relacionamento mais directo com a capital, onde os seus livros se encontram nas prateleiras de poesia da Biblioteca Municipal António Ramos Rosa, poeta farense e seu companheiro de lides poéticas. O próprio Casimiro de Brito dirigiu colecções de poesia em Faro, nos anos 60 e mais recentemente nos anos 90 (desta vez a convite da Câmara de Faro, no âmbito da promoção da biblioteca local).
Mas a conferência teve outro dado esperado. Álvaro M. Machado assentou o ponto de partida poética do autor no movimento da Poesia 61, em Faro (anos 60), em torno dos célebres «Cadernos do Meio Dia». Percebe-se que se mantem, ainda, muito pouco conhecida, portanto, a experiência de Casimiro de Brito em Loulé. Foi na sua terra natal que, em 1956, lançou a página literária “Prisma de Cristal” na Voz de Loulé, em torno da qual se juntaram Ramos Rosa, Gastão Cruz, Maria Rosa Colaço e muitos outros.
Entre 1956 e 1959 Casimiro de Brito deu corpo ao chamado Movimento Prisma, publicando textos e poemas de Afonso Cautela, Eduardo Olímpio, Emiliano da Costa, Vicente Campinas, poetas africanos, brasileiros e espanhóis, para além dos nomes referidos atrás. E foi no seio desta experiência pioneira e primacial que Casimiro de Brito escreveu e publicou também os seus primeiros poemas: 12 poemas em nove números do Prisma, para além de duas quadras premiadas em Jogos Florais, estas assinadas como Cavaco Correia – os seus dois outros nomes. Este período foi, ainda, fértil no lançamento de vários cadernos de poesia, como o «Encontro», o «Convívio» e o «Caderno Zero». No corolário deste processo de construção poética Casimiro de Brito publica o seu primeiro livro, em 1958, «Poemas da Solidão Imperfeita», com poemas escritos entre 1955 e 1958.
No próximo ano, 2006, passam 50 anos do aparecimento do “Prisma de Cristal”. Tempo para encontrar formas de comemorar condignamente o evento. Casimiro de Brito merece-o. E Loulé tem essa dívida!
*
[publicado no barlavento online, em 24-11-05]

20.11.05

 

O Movimento “Prisma” em Loulé

O Prisma de Cristal
Em 16 de Outubro de 1956 surgia, no jornal local «A Voz de Loulé» nº 94, uma denominada “página cultural” intitulada “Prisma de Cristal”. Estava colocada na página 2, onde se manteve quase sempre e era organizada por Casimiro de Brito. Casimiro Cavaco Correia de Brito, tinha nascido em Loulé em 1938 e tinha na altura 18 anos. O “Prisma de Cristal” publicou-se durante 26 números, de 16 de Outubro de 1956 até 15 de Fevereiro de 1959, tendo a página, desde o nº 2, passado a chamar-se “página literária”. Percebe-se porquê. A grande maioria dos seus conteúdos seria composta de poesia, poemas de jovens e consagrados lado a lado, oriundos dos vários quadrantes poéticos do Algarve, do país, de Espanha, do Brasil, de África. Nas suas páginas publicaram cerca de 45 poetas, muitos deles traduzidos do espanhol e do inglês, por Casimiro de Brito. De entre os nomes hoje mais conhecidos poderemos referir, para além do organizador da página, Ramos Rosa, Vicente Campinas, Emiliano da Costa, Afonso Cautela, Fernando Midões, Eduardo Olímpio, Maria Rosa Colaço e António Cabral. Com o poeta Eduardo Olímpio, natural de Santiago do Cacém, Casimiro de Brito criou e divulgou os Cadernos de Poesia “Encontro”, vendidos pelo “Prisma” a 4 escudos cada. Na área da criação e divulgação poética o “Prisma de Cristal” dá conta das diversas iniciativas editoriais de Casimiro, designadamente do “Caderno Zero” (como redactor), do “Convívio” (como director) e dos mais célebres “Cadernos do Meio-Dia”, dirigidos por António Ramos Rosa, na altura em que Casimiro de Brito já habitava na Rua do Bocage em Faro. Nos anos 60, Casimiro de Brito viria a dirigir, em Faro, a importante colecção de poesia organizada em “A Palavra”.

O Movimento Prisma
O “Prisma de Cristal” é, ainda, o suporte estético daquilo a que Casimiro chamou o Movimento Prisma, espaço de criação, fomento e organização de uma jovem poesia que nascia nos anos 50, fora dos movimentos conhecidos da poesia contemporânea. A sua importância, no Algarve, está ainda por apurar. A esse movimento Casimiro de Brito refere-se várias vezes no “Prisma de Cristal”, abordando ainda temas fora da poesia, como a estética, a filosofia ou a cultura, exercendo crítica literária e discorrendo sobre muitos outros temas. No corpo de colaboradores do “Prisma”, informalmente organizados no Movimento, destaque para o poeta Gastão Cruz, de Faro, que publicou o seu primeiro texto na página, com apenas 16 anos, uma crítica literária ao livro «Dispersão» de Mário de Sá-Carneiro. Durante o período de publicação, o “Prisma” contou com um total de 18 colaboradores, de entre os quais saliento Ramos Rosa, Manjua Leal, José Guerreiro, Vicente Campinas, Maria Rosa Colaço, Afonso Cautela, Francisco de Sousa Inês, João de Leal, Eduardo Olímpio, Carlos Porto e o artista plástico Manuel Cavaco Guerreiro, autor dos linóleos publicados e do frontispício da página.

Os Poemas Publicados
Para além de organizador, Casimiro de Brito foi um participante compulsivo em várias áreas da cultura e da literatura. No campo da poesia, participou com 12 poemas em 9 números do “Prisma”. Os seus primeiros poemas publicados, surgem no nº 3 [de 16 de Novembro de 1956], com o título “Diário dum jovem poeta” e assinados como Casimiro de Brito:

Fuga Suave

Um homem deitou-se no chão
De qualquer maneira,
E sentiu satisfação
Pela vez primeira...
As horas passaram,
O sono ficou.
Só os bichos notaram
Que esse homem acabou!...
Tinha adormecido sem sentir,
E a morte levou-o a sorrir...

Imaginação

Tenho-a no meu colo
a mulher que vai além
na rua...
Tenho-a no meu colo
apertada em meus braços
bela e nua...
19/10/56 [Faro]

No entanto, o autor tinha já publicado nos dois números anteriores [1 e 2], duas quadras de sua autoria mas assinadas com os seus dois nomes menos usados, Cavaco Correia:

Quadra

Ai, se os teus olhos falassem
Que belas coisas diriam
Quem sabe, talvez cantassem
Quem sabe se chorariam...
3º prémio do Concurso de quadras populares,realizado no Bairro do Bom João, em 24/6/56, Faro. Publicada no “Prisma de Cristal”, nº1, de 16 de Outubro de 1956.

Uma Quadra

A vida são só dois dias...
(Lá diz o ditado antigo)
Pois a minha é só o tempo,
Que passo a brincar contigo...

Menção Honrosa dos Jogos Florais de Albufeira. Publicada no “Prisma de Cristal”, nº2, de 1 de Novembro de 1956.

O seu último poema publicado no “Prisma de Cristal” aparece no nº 20 [29 de Setembro de 1957], quando tinha 19 anos:

Irrealidade
(para a Bia Rosa)

Dia a dia me encontro
Menos meu menos livre
Dia a dia me procuro
Na ânsia de encontrar-me
Carne e verbo comungando
Vida e morte combatendo
Eu comigo a lutar

Dia a dia menos meu
Dia a dia menos livre
Procurando-me e fugindo
De mim, cheiinho de medo

Dia a dia me procuro
Dia a dia não me encontro
Dia a dia não sou eu
Dia a dia sendo meu

O Primeiro Livro
A produção poética de Casimiro de Brito não se limita às páginas do “Prisma”. Publicou alguns poemas fora da página literária, de que é exemplo o poema “Desprendimento”, que surge na primeira página de «A Voz de Loulé», de 20 de Janeiro de 1957, na qual figura o Prisma de Cristal” nº 7. Em artigo assinado pelo colaborador do “Prisma”, João de Leal, de Faro, ficamos também a saber que Casimiro de Brito edita o seu primeiro livro de poemas, em edição de autor. Na nota publicada em «A Voz de Loulé», de 19 de Janeiro de 1958, Leal refere o livro «Poemas da Solidão Imperfeita», editado em Faro em 1958, que hoje figura como a primeira obra do autor, e que este viria a reeditar na célebre compilação dos seus poemas publicados entre 1955 e 1984, no livro «Ode e Ceia», edição da D. Quixote, de 1985. O que é curioso notar é que Casimiro de Brito, não cedeu à tentação [eventualmente simples e adequada] de utilizar no seu primeiro livro publicado, os poemas que havia editado no “Prisma de Cristal”. O que quer dizer que todos os poemas do autor insertos em «A Voz de Loulé», nunca foram publicados em livro, iniciativa que me parece justa e interessante levar a cabo pelo jornal, com a concordância do autor.
Devo referir que a experiência do “Prisma de Cristal” em «A Voz de Loulé» é completa e inexplicavelmente ignorada por Mário Lyster Franco na sua obra «Algarviana», de 1982 [ver páginas 380-385].
Depois da experiência do “Prisma de Cristal” aí temos, tantas vidas e tantas obras do escritor e poeta louletano Casimiro de Brito, um dos nossos maiores poetas contemporâneos.

[publicado em A Voz de Loulé-a cultura, em 15 de Outubro de 2004]

7.10.05

 

LEMBRANDO MARIA ROSA COLAÇO

A PEDAGOGA DE «A CRIANÇA E A VIDA»
(antiga colaboradora d’ A Voz de Loulé faleceu no dia 13 de Outubro)

A notícia apanhou-me de surpresa. Foi através de um mail de um leitor que fiquei a saber da morte da Maria Rosa Colaço (MRC), uma pedagoga, professora e escritora que marcou gerações de alunos e leitores. A escritora faleceu no passado dia 13 de Outubro e dela, apenas, uma simples nota de rodapé nas televisões. A imprensa, publica pequenas referências e notas biográficas da autora. Uma ignorância e uma tristeza que chocou muitos dos seus antigos alunos. É o caso deste nosso amigo leitor [António Matos Rodrigues] que, triste com a morte da sua antiga professora primária e mais triste ainda pelo cerco de silêncio que se fez à volta dela, decidiu criar
um blogue em sua homenagem, com o seu nome, abrindo-o a quem queira testemunhar as suas vivências.
Maria Rosa Colaço publicou vários livros, recebeu alguns prémios, escreveu crónicas jornalísticas e guiões de teatro. Mas o seu trabalho mais conhecido é o livro «A Criança e a Vida», que teve direito a mais de 40 edições, escrito a partir de notas guardadas de redacções dos seus alunos de Cacilhas, nos finais dos anos 50. Desse livro disse Urbano Tavares Rodrigues, ser “um milagre de pedagogia poética”.
Já conhecia o livro havia tempo. O trabalho de Maria Rosa Colaço, professora do ensino primário, era uma lufada de ar fresco no ensino tonto e saloio dos anos 60 e nas escolas tristes e salazarentas da época. Os textos que recolheu, poesias e histórias ferventes e imagéticas, de meninos das ruas e dos bairros de lata da margem sul de Lisboa, eram flores anunciando o Abril futuro. Poderiam ter sido escritos por qualquer um de nós que, entre 1960 e 1969, se sentaram irrequietos nos bancos velhos das escolas, aprendendo as letras com que, hoje, nos ajudam a pensar sobre elas próprias.
Lembro de ter lido o poema da contra-capa do livro e ter pensado no quotidiano do Vitor Barroca Moreira, que o escreveu aos nove anos: “O amor é um pássaro verde, num campo azul, no alto da madrugada”. Lembro ainda de ter visto a minha infância neste poema, de liberdade, de aventura, de protesto. Mas havia outros, muitos mais, cheios de flores, amizades e zangas, como o do Inácio da Silva Cruz, de 10 anos: “O amor é como duas borboletas que estivessem sobre uma rosa, a mais linda de todas do jardim. O amor tem que haver. Se não houvesse amor não havia nada bonito. O amor são duas estrelas a brilhar, a brilhar. A rosa e o sol são o amor. O amor é a poesia. O amor são dois passarinhos a construir a sua casinha. O amor é não haver polícias”.
De Maria Rosa Colaço, disse Casimiro de Brito, poeta louletano: “Educadora, escritora vigilante e aberta: aberta à soterrada voz do seu povo, aos longos silêncios que rodeiam a corrupção, à deslumbrada visitação do sol pelas crianças, à quotidiana construção do amor”. Estas são palavras de poeta, de gente que nega a morte, não negando o poema ou as palavras com que se fazem os Homens.
É como a viagem à lua do Manuel Miranda, de 8 anos: “Despedia-me do meu pai e da minha mãe. Preparava as malas e ia para a lua. Quando lá chegasse falava com Deus e os anjos. Ficava lá com os meus companheiros e nunca mais voltava porque encontrava os anjos a cantar e as estrelas ali mesmo ao pé. Porque lá não havia guerra e lá estava muito sossegadinho e não havia misérias, nem morria ninguém”. Assim, o Manuel viajou à lua, antes de outros, como o principezinho da história.
Maria Rosa Colaço diz-nos que estas crianças “não eram génios, nem poetas, nem meninos prodígios. Eram filhos de pescadores, de varinas, de ladrões de coisas...essenciais ao dia-a-dia. Moravam em casas com buracos e dormiam nos barcos, no vão das portas, nos degraus da doca, em qualquer sítio” [ver caixa “Poesia de «A Criança e a Vida»”]
Esta missão de quase evangelizar a criança, a partir da descoberta e da criação poética, permitiu à escritora algarvia Lídia Jorge referir-se-lhe como se estivesse a “tentar atingir a alma do mundo”.
Comprei o livro em Coimbra, em Novembro de 1992 – depois de o ter lido nos finais de 70 -, para voltar a sentir o eco fundo dos seus apelos de criança. E agora, ao pegar nele e olhar as datas dos poemas, posso dizer mais uma coisa: a sua autora, Maria Rosa Colaço, enquanto ensinava a olhar a vida na velha escola de Cacilhas, ainda escrevia para «A Voz de Loulé». São conhecidos os seus 20 anos de crónicas para o jornal «A Capital», mas «A Voz de Loulé» deve ter sido o primeiro jornal em que publicou. Na altura tinha 21 anos, quando surge em 1 de Janeiro de 1957 no nº 6 do “Prisma de Cristal”, página literária de «A Voz de Loulé», coordenada por Casimiro de Brito. Nesse número publica um texto intitulado “Remoendo”, no qual questiona o papel da religião no mundo. A sua presença torna-se regular, publicando em 13 dos 26 números do “Prisma”, publicando textos de reflexão filosófica sobre política, educação e poesia, fazendo análise e crítica literária a vários poetas, realizando entrevistas, etc. No nº 16, de 7 de Julho de 1957, publica um poema, “Inconformidade”, um dos poucos conhecidos de sua autoria [ver caixa “Maria Rosa Colaço no “Prisma de Cristal”].
Maria Rosa Colaço foi uma das colaboradoras mais activas desta página literária e uma das mais estimulantes presenças do chamado Movimento Prisma (ver o meu artigo “O Movimento Prisma em Loule” em [a cultura], «A Voz de Loulé», do passado 15 de Outubro, páginas 15-16).
Na dedicatória que redigiu num dos exemplares de «A Criança e a Vida», disse: “Com pombas e sonho, escrevi (orientei) esta antologia para que, ao menos pela voz clara da infância, os adultos se apercebessem dos abismos e da noite que contorna o mundo. Porque, como F. Pessoa, também digo: "O melhor de tudo, são as crianças"”.
É também ela que diz no prefácio do mesmo livro: “Companheira do sol e das raízes, cheguei à grande cidade”. Agora que partiu para outra grande cidade, nós acompanhamo-la! Na divulgação do seu nome e da pedagogia comprometida e libertária que desenvolveu.
*
Notas:
1. O “Prisma de Cristal” está inserto no jornal «A Voz de Loulé», entre os números 94, de 16 de Outubro de 1956 e 175, de 15 de Fevereiro de 1959 e pode ser consultado no Arquivo Histórico Municipal de Loulé.
2. Na Biblioteca Municipal de Loulé estão disponíveis várias das obras de Maria Rosa Colaço.
3. Um dos mais prolíficos alunos de MRC [António Joaquim de Matos Rodrigues] criou um blogue em sua homenagem:
http://www.mariarosacolaco.blogspot.com
*
[publicado em A Voz de Loulé de 1 de Novembro de 2004]

 

AS MULHERES NO SISTEMA POLÍTICO

O processo de constituição das listas para as eleições é, habitualmente, uma representação plena de qual o papel feminino na vida social e política. Os arranjos das últimas listas para as eleições de 20 de Fevereiro mostraram, mais uma vez, a hegemonia masculina dos partidos políticos e em especial dos seus aparelhos nacionais e regionais. A conversa veio à baila com a lista do PS em Coimbra e sobretudo com a decisão de colocar Matilde Sousa Franco (MSF) no primeiro lugar da lista. Muita coisa se escreveu sobre o assunto. Destaco apenas uma opinião:
«Parece-me uma péssima escolha. Não retirando os méritos da Sr.ª, que são muitos, continuando a considerá-la, como considero, uma mulher de fibra e de elevado sentido de estado, não posso deixar de achar que a sua candidatura, para mais como cabeça de lista (aceitaria com mais facilidade um local elegível mas de menor visibilidade), soa demais a uma vontade bacoca de "surfar" a onda de popularidade que ela, pelo braço do falecido Prof. Sousa Franco, seu marido, foi angariando. Ora eu sou contra explorar vivos e muito mais contra explorar mortos que mereciam outro respeito. É o caso».
As razões aduzidas no texto podem ter sido os pressupostos para o PS escolher MSF para o lugar referido, mas isso só penaliza a visão do PS. Aliás, só neste sentido se entende que Helena Roseta, bastonária da Ordem dos Arquitectos tenha sido preterida e Sónia Fertuzinhos, presidente das Mulheres Socialistas, tenha sido relegada para 12º lugar em Braga. Terá sido por esta militante ser a cara socialista da luta pela descriminalização do aborto? Parece que sim, porque o PS de Sócrates impôs, em sua troca - mas no 3º lugar e assim potencialmente elegível -, uma tal de Teresa Venda do Movimento Humanismo e Democracia, nem mais, uma militante defensora das penalizações a mulheres que abortaram. Também no Algarve o PS, bem como o PSD, não deixam as mulheres acima das fronteiras do elegível. Bem diferente do nosso país vizinho em que o governo de Zapatero conta com oito ministras, o mesmo número de homens da equipa, num país assumido como “a nação do machismo e a reserva católica do Ocidente” como refere Lola Galán. Mas aqui ao lado é outra loiça, até porque as medidas paradigmáticas do PSOE no governo, foram a proposta de legalização dos casamentos homossexuais e o combate à violência de género. Esta matéria, aliás, foi motivo para a criação de uma disciplina obrigatória no secundárioo dedicada à igualdade entre os sexos. Em Portugal, como se sabe, a educação sexual nas escolas é letra morta há muito tempo nas práticas dos últimos governos. Na verdade, as matrizes operárias e trabalhistas do PSOE têm permitido a assunção de medidas verdadeiramente inovadoras na governação moderna, enquanto que em Portugal apenas se espera a permanência do status quo, num PS ainda marcado pela sua formação tecnocrática, sem raízes populares.
Mas as razões do texto citado acima (e que expressam o ponto de vista do autor) não deixam de ser puramente machistas. Considerar que uma mulher cavalga a “onda de popularidade” do marido, significa duas coisas: uma, que o autor não conhece o percurso de Matilde Sousa Franco; duas, que ele considera que nos papéis sociais de género, quem constrói a onda é sempre o homem, não percebendo o papel de suporte colectivo que a mulher representa, uma rectaguarda decisiva para o percurso de qualquer homem, tal como no caso referido. Situação que o próprio Sousa Franco reconhecia. Como muito bem afirma Anna Farré «Os homens têm podido ocupar espaços de poder porque têm disposto do apoio de uma estrutura familiar de afecto, cuidado e estabilidade, que actua como um descanso do guerreiro, potenciadora e tranquilizante, que lhes permite dedicar toda a sua energia e entusiasmo à tarefa a que se aplicam».
Mas alguns dados em Portugal vêm trazendo novidades: somos o país europeu com mais mulheres na investigação científica e só somos utrapassados pela Itália em número de mulheres doutoradas na Europa. Estas dinâmicas poderão permitir um crescente papel das mulheres nas esferas profissional e social e empurrar para o sistema político uma dinâmica de escolha baseada na competência e afirmação de género. Nessa altura não será preciso propagandear as quotas de mulheres nas listas, mantendo a hegemonia masculina nos lugares de poder e usando o feminino apenas para compôr o ramalhete, como muito bem salienta Elisabete Rodrigues no jornal «barlavento».
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[publicado em A Voz de Loulé de 15 de Janeiro de 2005]

 

A DEMOCRACIA, O FUTEBOL E O “APITO DOURADO”

Duas razões me levam a escrever esta crónica. A primeira é o facto de ter escrito aqui, em crónica de 15 de Março passado, um texto sobre “a política e o futebol”; a segunda, como é compreensível, pelo conjunto de factos que hoje dominam a actualidade mediática e designado como “apito dourado”.
Posto isto, recordo que na referida crónica salientava o peso desmedido do futebol na portugalidade contemporânea e dizia: “no ano de 2004, o futebol dominará a política nacional. Em contrapartida e como moeda de troca social, a política tem dominado o futebol. Há muitas épocas – para usar a terminologia do futebol – em que o dirigismo no futebol é tirocínio obrigatório para quem quer ascender a cargos políticos de referência”. Ora esta promiscuidade tem destas coisas. Quando cai o Carmo, cai também a Trindade. Neste caso, cai o futebol e com ele se arrasta a política que se faz, assim, de compadrios e de uma rede de dependências insolúveis. Voltando à crónica de 15/3, dizia eu que “precisamente, este caminho constrói-se a partir de uma rede de favores e benevolências minúsculas e invisíveis que estruturam a fidelidade de apaniguados, empregados, funcionários e autoridades. Só assim é possível, a quem detém o poder, mobilizar em sua defesa todos aqueles que dependem dessa rede diáfana da solidariedade corrupta”. Como se tem visto, não faltam manifestações e choradinhos em torno dos líderes populistas, quer sejam autarcas, políticos ou gente do futebol.
Na verdade, que longe está este futebol do futebol do meu tempo. Quando jogava futebol nos juvenis do Silves Futebol Clube, lembro-me de calçar botas já usadas por outros, antes de mim, tiritar de frio nos bancos ou nos treinos, sem roupa adequada, tomar banhos frios no fim gélido das tardes. Tudo isto quando o futebol lançava solidariedades e socializações a preceito, passava os testemunhos educativos, do esforço, da cooperação e da amizade. Quando o prémio de jogo era apenas um galão e uma sandes mista. Mas, entretanto estudava, lia Kafka e Gorky, convivia e descobria mundos, outros. Durante algum tempo ainda vi futebol, até que as marcas, os prémios, os ordenados chorudos, lá entraram. Quando o futebol se transforma numa arte manietada por construtores e políticos desconhecidos, deixei de o olhar.
Diz o sociólogo Augusto Santos Silva, no «Público» de 24 de Abril que “o futebol não tem lepra [e que] o seu potencial simbólico e económico não pode ser esquecido”; mas, de facto, estas afirmações dão uma no cravo e outra na ferradura. É evidente que o sentido de escape psicológico do futebol, tem explicado muitas das afirmações em sua defesa, mas não podemos deixar de ver, e não podemos esquecer, que a sua gestão é pautada pela busca permanente do seu trampolim, na ascensão social de gente ambiciosa. Gente que vem, como disse antes, “do anonimato para a associação, desta para o clube de futebol da terra e deste para o cargo político”. E foi este consenso, doentio, em torno de um desiderato nacional, – que apenas interessava ao poder (instituído, como se pressupõe) – que tem permitido, como afirma José Manuel Fernandes, em Editorial do «Público» de 21 de Abril, que “ser dirigente desportivo era uma espécie de salvo-conduto, já que as polícias, a justiça e as investigações ficavam à porta dos clubes”.
Ora é isso mesmo que agora se desmorona. E o estado não sabe o que fazer. Em primeiro lugar o governo anda à toa, a meses da expansão milenar que representa o Euro 2004, mostrando um mundo caótico, corrupto, de compadrios e favores medievais. Por isso A. S. Silva apela a que se tire a limpo as ligações promíscuas entre política e futebol. E a jornalista Ana Sá Lopes, também no jornal «Público» de 24 de Abril, refere que “a suspeita permanente, não sendo investigada, torna-se ‘a verdade’”. O mesmo tinha eu dito. E quando estes acontecimentos se precipitaram, tendo sido arrolados 16 arguidos, verifiquei que tinha razão em ter escrito o que escrevi. A propósito, um amigo meu, da comunidade dos blogues, foi lesto e metafórico a concluir que se podia chamar ao texto “a crónica de uma detenção anunciada”, lembrando a célebre novela de Garcia Marquez. Eu respondi-lhe, dando o seu a seu dono, que já a actual Procuradora Adjunta, Maria José Morgado tinha expressado essa motivação de investigar as relações entre a política e o futebol. Na altura, dessa entrevista à «Pública» de Setembro de 2002, muitos ficaram escandalizados com este descaramento, ou esta coragem, como queiram. Lembram-se, com certeza de Valentim Loureiro a esbracejar, pedindo provas. Aí têm, pois, as acusações, por enquanto, enquanto a procissão vai no adro. E enquanto a procissão vai no adro e as demissões de cargos se sucedem, resta saber que responsabilidades pessoais e políticas, os visados extraem disto. Da minha parte, se não o fizerem, fazem a prova provada de que ninguém aqui presta qualquer serviço público, mas apenas se servem dos cargos para exorbitar os poderes para os quais são eleitos pelos cidadãos. E são estes, somos nós, que de forma livre, mas consciente, deveremos agir, para que a cidadania seja participativa e a democracia dessa forme se reforce.

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Nota: A crónica referida neste texto e intitulada “A Política, o Futebol e a Violência”, pode ser lida neste jornal, no número de 15 de Março de 2004
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[publicado em A Voz de Loulé de 1 de Maio de 2004]

5.9.05

 

GOLFES E CASAS ILEGAIS NA RIA FORMOSA:UMA CRISE DE CIVILIZAÇÃO NO ALGARVE

Não vos tinha dito que a propalada crise do turismo no Algarve é uma panaceia para um muro de lamentações e pedinchices dos principais interessados: os empresários do turismo e os autarcas responsáveis pela crescente betonização do litoral? Claro que, agora, a conivência de governantes faz parte deste cartel.
Desabafo a propósito de mais um campo de golfe que se anuncia, desta vez para os terrenos cobiçados e classificados do Ludo, ali entre a Praia de Faro e a Quinta do Lago. Ali mesmo a dois passos da casa da vice-presidente da Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional do Algarve, o que é apenas coincidência. Uma dupla coincidência. Primeiro porque Valentina Calixto foi durante muito tempo a responsável pela gestão do Ambiente no Algarve e segundo porque a área em causa é classificada por várias normas e directivas. Até está integrada num Parque Natural, veja-se só. Mas como o ICN (Instituto de Conservação da Natureza) não é mais do que um verbo de encher, ou melhor, um verbo vazio de orçamento, de técnicos, de fiscalização ou de outro qualquer sinal de vida, o campo de golfe tem muitas probabilidades de se estender. Sinal de que a seca, os incêndios, a constante salinização das águas, a defesa da fauna selvagem, os estudos científicos sobre a flora, são mesmo para pôr de salga nas marinhas do Ludo. Esqueçam a galinha sultana - que recuperou ali da sua mais que provável extinção nestas paragens -, a garça cinzenta ou a cegonha negra e todas as aves constantes da Directiva de Ramsar. Queixem-se, mais uma vez, da associação Almargem que anda sempre a chatear os autarcas, que por sua vez a acusam despudoradamente de fundamentalista, mas não digam que o turismo está em crise e o Algarve em colapso!
Há dias Vital Moreira, no «Público», mostrava o Algarve da incúria da fiscalização, dos esquecimentos dos governantes, dos compromissos dos autarcas. Nada que os algarvios não conheçam. Como tive oportunidade de dizer, logo após o anúncio das medidas ambientais ligadas à aprovação do POOC (Plano de Ordenamento da Orla Costeira) do perímetro Vilamoura/Vila Real de Santo António, o derrube das casas ilegais no perímetro dunar das ilhas barreira, na Ria Formosa, seria para esquecer alguns meses depois. Isto, porque muitos dos interessados nos “direitos adquiridos” das casas ilegais são ou foram responsáveis de organismos da administração a vários níveis. Aliás, para corroborar esta minha ideia, o actual governador civil, questionado pelo «Jornal de Notícias», veio logo a terreiro afirmar que não se oporia se a sua casa tivesse que ir abaixo. Mas tratou de acrescentar que os seus antecedentes foram sempre cumprindo obrigações legais relativas à implantação da casa. Muitos seguir-lhe-iam o exemplo, claro. Quem é que não segue qualquer governador civil?
Como era de esperar, os fogos aqueceram os matos e por consequência, arrefeceram as casas ilegais da Ria Formosa. O governo esqueceu o Plano e nenhumas medidas se conhecem sobre o derrube das casas ilegais. Por isso o melhor é continuar a construí-las. Para as ver basta percorrer as margens da Ria na Praia de Faro e verificar que todos os dias nascem ou se reconstroem habitações. Na maré vaza, olho-as em aglomerado de madeira, mas quando regresso na maré cheia já é a alvenaria que suporta as águas e os “direitos adquiridos”. Mais rápidas e prolíficas que os cogumelos que lhes deram o mote.
Mas nós é que estamos errados. Nós, que não temos o descaramento de pegar em meia dúzia de tábuas velhas e uma caixa de pregos para armar uma cabana de madeira sobre a duna da Barrinha, só para guardarmos a nossa caninha de pesca. Nós, que parecemos uns parolos, por que queremos o Ludo para passearmos com os nossos filhos, de binóculos em punho, a olhar as cegonhas e os pernalongas junto dos ninhos. Nós, que escrevemos estas coisas em vez de estarmos a preparar as nossas bandeirinhas rosa-laranja para os comícios da rentrée no Pontal ou na Pontinha. Nós, sim, somos uns incivilizados e por isso só nos resta mudar de civilização.
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[publicado no jornal barlavento de 1 de setembro de 2005]

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