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Conto Trinta Anos Depois

TRINTA ANOS DEPOIS [conto publicado na revista bestiário , no Brasil, hoje apenas editora]   Fim da tarde. Regressava, com os meus colegas de escola, da cidade de Silves onde estudava num ano comercial para o acesso ao liceu. Um ano obrigatório que o ensino fascista criou para obrigar os filhos dos pobres a mostrar que tinham competências para passar da Escola Técnica para o Liceu. Em Portimão, onde tinha nascido e onde morava, a Escola Técnica terminava no 5º ano e por esse motivo deslocava-me, a pé, do bairro operário onde morava até à estação dos comboios, para ir até à cidade dos poetas árabes. Naquele dia vinha preocupado, apesar das conversas brejeiras dos meus 17 anos e 7 meses, percorrendo a automotora de bancos de madeira de um lado para o outro, falando para me ouvirem sobre a guerra e sobre o 1º de Maio que se aproximava. Na altura andava a ler “O Processo” de Kafka, algo que os meus colegas, da equipa de futebol de juvenis da cidade onde estudava, muito es...

Um Chalé na Praia da Rocha

UM CHALÉ NA PRAIA DA ROCHA Um conto de natal de Helder Faustino Raimundo [Publicado na Letrário editora , hoje desativada. Lida no podcast HistóriaDevida de Miguel Guilherme e Inês Fonseca Santos, em 9/4/2008] O campeonato do mundo de futebol, em Inglaterra, já lá ia há muito. Todos se lembravam do jogo contra a Coreia, que Portugal tinha ganho por cinco a três, depois de estar a perder por três bolas a zero. E do Eusébio, que marcava os golos e imediatamente retirava a bola do fundo das redes. A televisão era a preto e branco nessa altura. E o país também, muito mais preto do que branco. Para eles, que eram todos jovens, brancura, só mesmo no Natal: nas geadas da manhã, quando acordavam, nas neves de que ouviam falar aos seus amigos serrenhos de Monchique e nos algodões alvos, das decorações do presépio. Sim, neste tempo o Pai Natal não existia, ainda não tinha sido inventado pelo comércio das bugigangas dos centros comerciais. Só o Menino Jesus tinha o direito de vagu...

Conto infantil

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  O gato azul e o gato cor de laranja Era uma vez dois gatos. Um era azul e o outro era cor de laranja. Naquele dia encontraram-se e ficaram muito espantados, por se descobrirem de cores diferentes. Pensavam que todos os gatos eram pretos, ou brancos, ou cinzentos, ou castanhos, mas nunca da cor de cada um deles. Ou mesmo de cor diferente. Quando se encontraram ficaram amigos, por serem diferentes de todos os outros gatos. E assim combinaram ir para sítios onde pudessem mostrar a todos a sua cor. O gato azul subiu para cima de um telhado muito alto, tão alto que a sua cor se projectava contra o azul do céu, lá ao longe. O gato cor de laranja foi deitar-se sobre uma frondosa laranjeira, carregada de laranjas. As pessoas que passavam nas ruas e olhavam para o céu azul bem no alto não viam gato nenhum. Às vezes confundiam o gato azul com uma estrela gorda, velha e sem brilho, ou mesmo um estranho planeta de forma muito esquisita. No pomar de laranjeiras, as mulheres q...

Microcontos não publicados

Microcontos A caixa Como criminosos que escondem as ignaras provas do crime, trouxemos a caixa de sapatos, imaculada de branco. Tínhamo-la encontrado junto ao convento, num caminho de terra estreito entre moitas marítimas, ali no chão. Como se alguém a deixasse fechada e arrumada depois de calçar os sapatos mágicos que ela conteria. Eu e o Caló não a compartilharíamos com ninguém, pois o achado era tão estranho quanto desejoso. No caminho até à praia (não fomos para casa, local impróprio para segredos adolescentes) fomos abrindo e fechando a caixa branca, enquanto os comíamos um a um, doces e suculentos bolinhos de amêndoa e fios de ovos frescos. Quem os terá escondido na caixa de sapatos? Madame A professora primária obrigava-nos a vender uns selos de apoio aos caranguejos. Lá formávamos grupos de dois, para correr de uma ponta a outra a estância balnear dos aristocratas do Agosto azul. Nesse dia fiz parelha com o Caló, um campónio que tinha vindo não s...

Microcontos publicados na revista "minguante"

Calçada à portuguesa No dia em que fez 100 anos, Oscar Niemeyer acabou de ler pela centésima vez o romance “Os Maias”. Depois de pousar cuidadosamente o livro sobre a maquete do novo aeroporto de Lisboa, desceu do seu ateliê na cobertura do prédio da Avenida Atlântico, no Rio. Ao mesmo tempo, na aula de Filosofia do escritório do décimo andar, a rapaziada discutia sobre literatura portátil . Quando entrou no local Oscar ouviu, do alto da sua sabedoria, uma das aspirantes a arquitecta perguntar à amiga se conhecia Eça de Queiroz, o embaixador da língua de Camões na pátria de Shakespeare. Que não, a outra mocinha só conhecia a Raquel de Queiroz. Talvez esse gajo fosse irmão dela, não? O arquitecto sentiu um calafrio em todos os pilares do corpo, e um peso de muitas letras sobre os ombros. E disse, lacónico, pós-moderno e avesso a estatísticas do Eurostat: ‘Você, garota ignorante, não pode trabalhar mais aqui. Vá polir calçada!’. Júlia Correspondi ao desejo dela, quand...