<?xml version='1.0' encoding='UTF-8'?><?xml-stylesheet href="http://www.blogger.com/styles/atom.css" type="text/css"?><feed xmlns='http://www.w3.org/2005/Atom' xmlns:openSearch='http://a9.com/-/spec/opensearchrss/1.0/' xmlns:georss='http://www.georss.org/georss' xmlns:gd='http://schemas.google.com/g/2005' xmlns:thr='http://purl.org/syndication/thread/1.0'><id>tag:blogger.com,1999:blog-10766389</id><updated>2011-04-21T19:33:37.087+01:00</updated><title type='text'>O LOBO DAS ESTEPES</title><subtitle type='html'>Arquivo de textos de Helder F. Raimundo:
coluna "Contrasenso" em «A Voz de Loulé»; crónicas no «barlavento; ensaios e entrevistas dispersas.</subtitle><link rel='http://schemas.google.com/g/2005#feed' type='application/atom+xml' href='http://helderfraimundo.blogspot.com/feeds/posts/default'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/10766389/posts/default?max-results=100'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://helderfraimundo.blogspot.com/'/><link rel='hub' href='http://pubsubhubbub.appspot.com/'/><author><name>HFR</name><uri>http://www.blogger.com/profile/10958773275348751832</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><generator version='7.00' uri='http://www.blogger.com'>Blogger</generator><openSearch:totalResults>29</openSearch:totalResults><openSearch:startIndex>1</openSearch:startIndex><openSearch:itemsPerPage>100</openSearch:itemsPerPage><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-10766389.post-8397891011065836602</id><published>2009-01-03T19:13:00.000Z</published><updated>2009-01-03T19:16:28.123Z</updated><title type='text'>Poesia popular</title><content type='html'>&lt;p class="MsoNormal" style="text-align: center;" align="center"&gt;&lt;b style=""&gt;&lt;span style="font-size: 16pt; font-family: Garamond;"&gt;POETA DE PADERNE &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: center;" align="center"&gt;&lt;b style=""&gt;&lt;span style="font-size: 16pt; font-family: Garamond;"&gt;PUBLICA SEGUNDA OBRA DE POESIA&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;b style=""&gt;&lt;span style="font-size: 11pt; font-family: Garamond;"&gt;&lt;o:p&gt; &lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;b style=""&gt;&lt;span style="font-size: 11pt; font-family: Garamond;"&gt;&lt;span style=""&gt; &lt;/span&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;No passado dia 21 de Dezembro, a poeta popular de Paderne Albertina Coelho Rodrigues lançou a sua segunda obra de poesia intitulada «Nasce o sol a cada dia e do meu peito a poesia». A sessão teve lugar no salão da Sociedade Musical e Recreio Popular de Paderne, que contou com casa cheia para ouvir os poemas e as quadras da autora e os apresentadores da obra: Arménio Aleluia Martins, director do jornal local «A Avezinha», Ana Vidigal, antiga vereadora da cultura da Câmara Municipal de Albufeira e Helder Raimundo, investigador da Universidade do Algarve, coordenador do livro e autor do prefácio do mesmo, o qual transcrevemos de seguida com a devida vénia:&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;b style=""&gt;&lt;span style="font-size: 11pt; font-family: Garamond;"&gt;&lt;o:p&gt; &lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;b style=""&gt;&lt;span style="font-size: 11pt; font-family: Garamond;"&gt;PREFÁCIO&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: 11pt;"&gt;&lt;o:p&gt; &lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: 11pt; font-family: Garamond;"&gt;Em Setembro de &lt;st1:metricconverter productid="2005, a" st="on"&gt;2005, a&lt;/st1:metricconverter&gt; Câmara Municipal de Albufeira deu à estampa o livro «Do Sonho à Realidade», uma obra de poesia de Albertina Coelho Rodrigues. Foi a sua primeira obra, 134 páginas de poemas em quadras, quintilhas e sextilhas e muitas quadras soltas. A concretização deste sonho em livro, plasmou o labor de vários anos da autora a escrever e reescrever poesia nascida das suas vivências no campo, dos seus olhares umas vezes ingénuos, outras vezes críticos sobre o mundo, sobretudo aquele que nos traz os “media” a toda a hora e de todo o lado. No prefácio do livro, Amália Cabrita mostra como a poesia de Albertina é ao mesmo tempo popular e feminina, na linha da crítica social das cantigas de amigo, mas uma voz de mulher; e eu acrescentaria de mãe, nas suas mais diversas formas. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: 11pt; font-family: Garamond;"&gt;Esta não foi a primeira incursão de Albertina na poesia publicada. Nas colectâneas «Poeta é o Povo», editadas pela Associação dos Poetas Populares do Alentejo e Algarve (APPA), em 1989/1990, já a autora tinha publicado alguns poemas. Antes, a sua poesia circulou ainda nos programas de Edmundo Falé, no Rádio Lagoa, nos anos 80, e nos vários encontros de poetas organizados nalguns locais do Algarve e Alentejo. Nesses encontros, chegou mesmo a ganhar o 1º prémio do concurso de quadras sujeitas a mote de António Aleixo e o 2º prémio de quadra, nos Jogos Florais da UATI (Universidade de Apoio à Terceira Idade). &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: 11pt; font-family: Garamond;"&gt;Albertina Coelho Rodrigues nasceu em 15 de Janeiro de 1934, na Fonte de Paderne, onde sempre viveu. Casou nova e criou três filhos e três netos. Em criança ajudava os pais nas sementeiras do campo, na horta e nos terrenos de sequeiro. Frequentou a escola apenas no período de dois meses e quando adoeceu, aos sete anos, nunca mais lá voltou. Regressou assim ao trabalho na casa familiar e mais tarde a mãe decidiu a sua aprendizagem na costura. Mas sempre achou que o que gostaria era de costurar frases: palavras que saem do coração e chegam à cabeça como que a ordenar que tomem a forma de poesia. Poemas para serem lidos em voz alta. Como afirma Albertina: “Se a gente não sente também não se faz sentir quem a lê”. Começou por escrever poemas com a sua nora, ainda antes da sua neta nascer. Experimentou enviar para ser lida na rádio e gostou do que ouviu. E nunca mais parou. Há cerca de 15 anos, quando o seu marido feneceu, aprendeu verdadeiramente a ler e escrever, como adulta preocupada, e consciente, com a sua aprendizagem de vida. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: 11pt; font-family: Garamond;"&gt;De 2005 até hoje Albertina acumulou muitos outros textos. Já os tinha na altura do primeiro livro, mas decidiu preservá-los, para os costurar e cerzir mais tarde. A sua infatigável dedicação a cada palavra, a cada rima ou a cada poema no seu corpus técnico e estético, leva-a a trabalhar os poemas quase perenemente. Escreve, apaga, substitui, deixa repousar e volta mais tarde com uma ideia mais definitiva na cabeça. Muitas vezes o tema de um poema sugere-lhe imediatamente outro, como uma poeta repentista que estivesse na praça pública a ser ouvida e a escutar os outros. A sua leitura de poetas populares ou consagrados, como Aleixo ou Pessoa, também é crítica e não esconde a sua opinião, afirmativa, mesmo que ainda iniciática. Indiscutivelmente, o poeta popular algarvio é uma sua influência clara. Ou talvez dito de outro modo: há uma similitude entre ambas as escritas, conforme é notório noutros poetas da região, como Clementino Baeta, por exemplo. É claro que as fontes de conhecimento e aprendizagem na escrita de Albertina continuam a ser a oralidade popular (mais forte quando a iliteracia é evidente) e o quotidiano rural e comunitário de grande parte das vivências portuguesas da primeira metade do século XX. Uma seiva que provém da alimentação do cancioneiro popular de raiz tradicional e romântica, dos séculos XVIII e XIX.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: 11pt; font-family: Garamond;"&gt;Na presente obra Albertina Coelho Rodrigues acentua o uso da redondilha maior (verso de sete sílabas), que trabalha até quase à exaustão, e o poema enversado em conjuntos de cinco quadras. Só muito excepcionalmente utiliza seis ou mesmo sete quadras quando a narrativa se justifica no poema. Também a quadra solta, muito ao gosto popular, tem uma função social importante na sua poesia. É nelas que transparece a sua microficção, adivinha ou anedota, conto ou máxima, rápida e certeira e, muitas vezes, mote para novos poemas. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: 11pt; font-family: Garamond;"&gt;A leitura da obra sugere uma audição musical, se lida em voz alta e recitada, como se antes da escrita fosse pensada em voz alta para os animais e as flores do campo ouvirem &lt;st1:personname productid="em sil￪ncio. Ou￧amo-la" st="on"&gt;em silêncio. Ouçamo-la&lt;/st1:PersonName&gt; também da mesma forma.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: 11pt; font-family: Garamond;"&gt;Neste livro Albertina desenvolve o seu campo temático. Continuamos a sentir o campo e também o mar, no fundo a Terra como mundo no qual vive. Também os comportamentos, atitudes e valores das pessoas são esmiuçados com exemplos vividos ou mediatizados. E há ainda o peso de um reino espiritual de luz e transcendência que evoca sempre e nunca esquece. Quase todo este labor é veiculado pelas suas memórias, pessoais ou sociais, que revela de forma interpretativa e circular. Muitas vezes lapidar, condição que o seu estatuto poético lhe permite. Muitos dos poemas são ainda sobre o seu trabalho de poeta. Ela explicita de forma clara como o faz e porquê. Não sendo nós detentores destes segredos, resta-nos ler, ouvir e descobrir. O que é muito mais do que a autora é obrigada.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: 11pt; font-family: Garamond;"&gt;&lt;o:p&gt; &lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;b style=""&gt;&lt;span style="font-size: 11pt; font-family: Garamond;"&gt;Helder Faustino Raimundo&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: 11pt; font-family: Garamond;"&gt;Mestre em Ciências da Educação/Educação e Formação de Adultos.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: 11pt; font-family: Garamond;"&gt;Professor da Universidade do Algarve. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;o:p&gt; &lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;***&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;b style=""&gt;Nota:&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/b&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;b style=""&gt;O livro pode ser pedido a Albertina Coelho Rodrigues, Fonte de Paderne, 8200-476 Paderne [telefone &lt;/b&gt;&lt;b style=""&gt;&lt;span style=""&gt;960361801]&lt;/span&gt; ou adquirido na sede deste jornal (preço de capa = 5 euros)&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/b&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;o:p&gt; &lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;o:p&gt; &lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;o:p&gt; &lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/10766389-8397891011065836602?l=helderfraimundo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/10766389/posts/default/8397891011065836602'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/10766389/posts/default/8397891011065836602'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://helderfraimundo.blogspot.com/2009/01/poesia-popular.html' title='Poesia popular'/><author><name>HFR</name><uri>http://www.blogger.com/profile/10958773275348751832</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-10766389.post-116543408961516773</id><published>2006-12-06T19:34:00.000Z</published><updated>2006-12-06T19:41:29.640Z</updated><title type='text'>O “Prisma de Cristal” e Casimiro de Brito em «A Voz de Loulé»</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;  &lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;  &lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;  &lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;  &lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;  &lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;  &lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;  &lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;  &lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;  &lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;  &lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;  &lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;  &lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;  &lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;  &lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;  &lt;/div&gt;&lt;p class="MsoNormal" style="background: white none repeat scroll 0%; text-indent: 35.4pt; -moz-background-clip: -moz-initial; -moz-background-origin: -moz-initial; -moz-background-inline-policy: -moz-initial; text-align: justify;"&gt;Quando, em 2004, pensei lançar uma página cultural neste jornal o amigo José Batista deu-me a conhecer um antigo suplemento, ou página literária que, em tempos, teria sido publicado em «A Voz de Loulé». Lancei-me na pesquisa desta fonte e no Arquivo Histórico da Câmara Municipal de Loulé acabei por encontrar, no ano de 1956, o “Prisma de Cristal”. Lá estava, na página 2 de «A Voz de Loulé» nº 94, de 16 de Outubro de 1956, uma denominada ‘página cultural’ organizada por Casimiro de Brito [ver, na página ao lado, a sua reprodução digital]. Casimiro Cavaco Correia de Brito tinha nascido em Loulé em 1938 e tinha, na altura, apenas 18 anos.&lt;br /&gt;&lt;/p&gt;&lt;p class="MsoNormal" style="background: white none repeat scroll 0%; text-indent: 35.4pt; -moz-background-clip: -moz-initial; -moz-background-origin: -moz-initial; -moz-background-inline-policy: -moz-initial; text-align: justify;"&gt;Neste primeiro número, na secção ‘Caderno de apontamentos’, o seu organizador agradece ao director do jornal da altura, Dr. Jaime Guerreiro Rua. Para além destas notas, a página inclui: uma antologia com o poema “Pátria” de João de Deus; uma quadra de Cavaco Correia (pseudónimo de Casimiro de Brito); a colaboração de um leitor de Loulé, João Francisco Manjua Leal; um pórtico sobre o “Prisma”; e um apelo à colaboração e crítica dos leitores.&lt;br /&gt;&lt;/p&gt;&lt;p class="MsoNormal" style="background: white none repeat scroll 0%; text-indent: 35.4pt; -moz-background-clip: -moz-initial; -moz-background-origin: -moz-initial; -moz-background-inline-policy: -moz-initial; text-align: justify;"&gt;Em Loulé, Casimiro de Brito, então com apenas 18 anos, fazia já eco e participava em diversas tertúlias e criações poéticas. Na sua terra dá expressão ao chamado &lt;i style=""&gt;Movimento Prisma&lt;/i&gt;, fundando uma página literária no jornal local «A Voz de Loulé», nesse período sob a direcção de Jaime Guerreiro Rua. Em torno desta página o poeta agregou à sua volta amigos e conhecidos e publicou conteúdos culturais de muitos jovens, mais tarde consagrados nomes das letras e das artes, como Ramos Rosa, Gastão Cruz, Eduardo Olímpio, Afonso Cautela e Maria Rosa Colaço, entre outros. Para além da mancha de textos, a página era ilustrada com pequenos linóleos da autoria de Manuel Cavaco Guerreiro.&lt;br /&gt;&lt;/p&gt;&lt;p class="MsoNormal" style="background: white none repeat scroll 0%; text-indent: 35.4pt; -moz-background-clip: -moz-initial; -moz-background-origin: -moz-initial; -moz-background-inline-policy: -moz-initial; text-align: justify;"&gt;O “Prisma de Cristal” edita 26 números, durante cerca de 28 meses, terminando a sua vida cultural nestas páginas, no jornal nº 175, de 15 de Fevereiro de 1959. Durante a sua edição Casimiro de Brito saiu de Loulé para estudar em Faro, seguindo mais tarde para Lisboa. A partir do nº 2 [VL nº 95, de 1 de Novembro de 1956] o “Prisma” passa a chamar-se “página literária”. Percebe-se porquê. A grande maioria dos seus conteúdos seria composta de poesia, poemas de jovens e de consagrados lado a lado, oriundos dos vários quadrantes poéticos do Algarve, do país, de Espanha, do Brasil, de África. Nas suas páginas publicaram 45 poetas (melhor 44, se considerarmos as quadras de Casimiro, assinadas com pseudónimo) muitos deles traduzidos, do espanhol e do inglês, por Casimiro de Brito. De entre os nomes hoje mais conhecidos poderemos referir, para além do organizador da página, Ramos Rosa, Vicente Campinas, Emiliano da Costa, Afonso Cautela, Fernando Midões, Eduardo Olímpio, Maria Rosa Colaço e António Cabral. Repetiram poemas, para além do próprio Casimiro, Vicente Campinas, José Guerreiro, Costa Mendes, Orlando Neves, Carlos Alberto Jordão, Lita Fernandes Ferreira, José Carlos Gonzalez, Eduardo Olímpio e Rui Mendes.&lt;br /&gt;&lt;/p&gt;&lt;p class="MsoNormal" style="background: white none repeat scroll 0%; text-indent: 35.4pt; -moz-background-clip: -moz-initial; -moz-background-origin: -moz-initial; -moz-background-inline-policy: -moz-initial; text-align: justify;"&gt;Com o poeta Eduardo Olímpio, natural de Santiago do Cacém, Casimiro de Brito criou e divulgou os Cadernos de Poesia «Encontro», vendidos pelo “Prisma” a 4 escudos cada. Na área da criação e divulgação poética o “Prisma de Cristal” dá conta das diversas iniciativas editoriais de Casimiro, designadamente do «Caderno Zero» (como redactor), do «Convívio» (como director) e dos mais célebres «Cadernos do Meio-Dia», dirigidos por António Ramos Rosa, na altura &lt;st1:personname productid="em que Casimiro" st="on"&gt;em que Casimiro&lt;/st1:PersonName&gt; de Brito já habitava na Rua do Bocage, em Faro.&lt;br /&gt;&lt;/p&gt;&lt;p class="MsoNormal" style="background: white none repeat scroll 0%; text-indent: 35.4pt; -moz-background-clip: -moz-initial; -moz-background-origin: -moz-initial; -moz-background-inline-policy: -moz-initial; text-align: justify;"&gt;Foi nas páginas do “Prisma de Cristal” que Casimiro de Brito publicou os seus primeiros poemas de juventude, tendo escrito ainda sobre arte, cultura, poesia, cinema, filosofia. Foi nessas páginas que dissertou sobre os movimentos poéticos, que lançou o seu &lt;i style=""&gt;Movimento Prisma,&lt;/i&gt; que apontou o seu gume crítico ao conservadorismo cultural. Foi nelas que formou e treinou o seu espírito progressista, a sua veia crítica, a sua busca de liberdade.&lt;br /&gt;&lt;/p&gt;&lt;p class="MsoNormal" style="background: white none repeat scroll 0%; text-indent: 35.4pt; -moz-background-clip: -moz-initial; -moz-background-origin: -moz-initial; -moz-background-inline-policy: -moz-initial; text-align: justify;"&gt;O “Prisma de Cristal” é, ainda, o suporte estético daquilo a que Casimiro chamou o &lt;i style=""&gt;Movimento Prisma&lt;/i&gt;, espaço de criação, fomento e organização de uma jovem poesia que nascia nos anos 50, fora dos movimentos conhecidos da poesia contemporânea. A sua importância, no Algarve, está ainda por apurar. A esse movimento Casimiro de Brito refere-se várias vezes no “Prisma de Cristal”, abordando &lt;span style=""&gt; &lt;/span&gt;temas fora da poesia, como a estética, a filosofia ou a cultura, exercendo crítica literária e discorrendo sobre muitos outros temas. No corpo de colaboradores do “Prisma”, informalmente organizados no &lt;i style=""&gt;Movimento&lt;/i&gt;, destaque para o poeta Gastão Cruz, natural de Faro, que publicou o seu primeiro texto na página com apenas 16 anos. Trata-se de uma crítica literária ao livro “&lt;i style=""&gt;Dispersão&lt;/i&gt;” de Mário de Sá-Carneiro, inserta no “Prisma” nº 23 [16 de março de 1958].&lt;br /&gt;&lt;/p&gt;&lt;p class="MsoNormal" style="background: white none repeat scroll 0%; text-indent: 35.4pt; -moz-background-clip: -moz-initial; -moz-background-origin: -moz-initial; -moz-background-inline-policy: -moz-initial; text-align: justify;"&gt;Durante o período de publicação o “Prisma” contou com um total de 18 colaboradores, de entre os quais saliento Manjua Leal, José Guerreiro, Vicente Campinas, Maria Rosa Colaço, Afonso Cautela, Francisco de Sousa Inês, João de Leal, Eduardo Olímpio, Carlos Porto e o artista plástico Manuel Cavaco Guerreiro, autor dos linóleos publicados e do frontispício da página.&lt;br /&gt;&lt;/p&gt;&lt;p class="MsoNormal" style="background: white none repeat scroll 0%; text-indent: 35.4pt; -moz-background-clip: -moz-initial; -moz-background-origin: -moz-initial; -moz-background-inline-policy: -moz-initial; text-align: justify;"&gt;Para além de organizador Casimiro de Brito foi um participante compulsivo em várias áreas da cultura e da literatura. No campo da poesia, participou com 11 poemas em nove dos 26 números do “Prisma”. Os seus primeiros poemas publicados surgem no nº 3 [16 de Novembro de 1956], com o título “Diário dum jovem poeta” e assinados como Casimiro de Brito.&lt;br /&gt;&lt;/p&gt;&lt;p class="MsoNormal" style="background: white none repeat scroll 0%; text-indent: 35.4pt; -moz-background-clip: -moz-initial; -moz-background-origin: -moz-initial; -moz-background-inline-policy: -moz-initial; text-align: justify;"&gt;A produção poética de Casimiro de Brito não se limita às páginas do “Prisma”. Publicou alguns poemas fora da página literária, de que é exemplo o poema “Desprendimento”, que surge na primeira página de «A Voz de Loulé», de 20 de Janeiro de 1957, na qual figura o “Prisma de Cristal” nº 7.&lt;br /&gt;&lt;/p&gt;&lt;p class="MsoNormal" style="background: white none repeat scroll 0%; text-indent: 35.4pt; -moz-background-clip: -moz-initial; -moz-background-origin: -moz-initial; -moz-background-inline-policy: -moz-initial; text-align: justify;"&gt;Em artigo assinado pelo colaborador do “Prisma” João de Leal, de Faro, ficamos também a saber que Casimiro de Brito publica o seu primeiro livro de poemas, em edição de autor, impresso na Tipografia Cácima. Na nota publicada em «A Voz de Loulé», de 19 de Janeiro de 1958, Leal refere o livro “&lt;i style=""&gt;Poemas da Solidão Imperfeita&lt;/i&gt;”, editado em Faro em 1958, que hoje figura como a primeira obra do autor.&lt;br /&gt;&lt;/p&gt;&lt;p class="MsoNormal" style="background: white none repeat scroll 0%; text-indent: 35.4pt; -moz-background-clip: -moz-initial; -moz-background-origin: -moz-initial; -moz-background-inline-policy: -moz-initial; text-align: justify;"&gt;O que é curioso notar é que Casimiro de Brito não cedeu à tentação (eventualmente ingénua e simplista) de utilizar, no seu primeiro livro publicado, os poemas que havia editado no “Prisma de Cristal”. O que quer dizer que todos os poemas do autor insertos em «A Voz de Loulé» nunca foram publicados em livro, iniciativa que me parece justa e interessante levar a cabo por este jornal, com a concordância do autor.&lt;br /&gt;&lt;/p&gt;&lt;p class="MsoNormal" style="background: white none repeat scroll 0%; text-indent: 35.4pt; -moz-background-clip: -moz-initial; -moz-background-origin: -moz-initial; -moz-background-inline-policy: -moz-initial; text-align: justify;"&gt;Devo referir que a experiência do “Prisma de Cristal” em «A Voz de Loulé» é completa e inexplicavelmente ignorada por Mário Lyster Franco na sua conhecida obra “&lt;i style=""&gt;Algarviana&lt;/i&gt;”, de 1982 [ver páginas 380-385]. Nesta obra Lyster Franco refere a colaboração “permanente ou eventual” de Casimiro de Brito nos semanários regionais «Jornal do Algarve», «Folha de Domingo» e «Correio do Sul», nos quais, segundo ele, Casimiro “talvez se tenha estreado”.&lt;br /&gt;&lt;span style="color: black;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p class="MsoNormal" style="background: white none repeat scroll 0%; text-indent: 35.4pt; -moz-background-clip: -moz-initial; -moz-background-origin: -moz-initial; -moz-background-inline-policy: -moz-initial; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="color: black;"&gt;No passado mês de Outubro passaram 50 anos do aparecimento do “Prisma de Cristal”, página literária de «A Voz de Loulé», organizada pelo poeta louletano Casimiro de Brito. Tempo para encontrar formas de comemorar condignamente o evento. Casimiro de Brito merece-o. E Loulé também.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p class="MsoNormal" style="background: white none repeat scroll 0%; text-indent: 35.4pt; -moz-background-clip: -moz-initial; -moz-background-origin: -moz-initial; -moz-background-inline-policy: -moz-initial; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="color: black;"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;b style=""&gt;&lt;span style="color: black;"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color: rgb(51, 51, 255);font-size:85%;" &gt;Nota: este artigo é um resumo de um pequeno ensaio que em breve sairá na revista Al-‘Uliã, nº 11, do Museu Municipal de Loulé.&lt;/span&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/10766389-116543408961516773?l=helderfraimundo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/10766389/posts/default/116543408961516773'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/10766389/posts/default/116543408961516773'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://helderfraimundo.blogspot.com/2006/12/o-prisma-de-cristal-e-casimiro-de.html' title='O “Prisma de Cristal” e Casimiro de Brito em «A Voz de Loulé»'/><author><name>HFR</name><uri>http://www.blogger.com/profile/10958773275348751832</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-10766389.post-116121522062423022</id><published>2006-10-19T00:27:00.000+01:00</published><updated>2006-10-19T00:58:26.466+01:00</updated><title type='text'>Pólo Museológico dos Frutos Secos</title><content type='html'>&lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;&lt;b style=""&gt;&lt;span style="font-size:12;"&gt;O PLANO MUSEOLÓGICO DO CONCELHO DE LOULÉ.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;br /&gt;O EXEMPLO DO PÓLO MUSEOLÓGICO DOS FRUTOS SECOS&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size:11;"&gt;Hélder Raimundo&lt;b style=""&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/b&gt; (2004). Revista &lt;i style=""&gt;al~ulyã&lt;/i&gt;, 10 (pp. 437-447). Loulé: Arquivo Histórico Municipal de Loulé.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;      &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;&lt;span style="font-size:11;"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;b style=""&gt;&lt;span style="font-size:11;"&gt;1. INTRODUÇÃO&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;span style=""&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;span style="font-size:11;"&gt;Em 1991 é estabelecido o Plano Museológico do concelho de Loulé, a partir de uma proposta discutida em reunião aberta com associações locais, investigadores e outros interessados. Desde aí, o Museu Municipal de Loulé tem desenvolvido esforços concertados com muitos actores locais, públicos ou privados no sentido de concretizar a instalação de uma rede de pólos museológicos diversificados – mas complementares – que permitam uma interpretação cultural do rico património do concelho. Nesse âmbito, abordamos neste texto o exemplo do Pólo Museológico dos Frutos Secos, instalado na cidade de Loulé, em Dezembro de 1998, e que caracteriza o paradigma dos objectivos da museologia participativa que enforma os princípios do Plano Museológico do concelho.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style=""&gt;&lt;/span&gt;O Pólo Museológico dos Frutos Secos é um espaço museal que assenta numa antiga unidade fabril dedicada à indústria dos frutos secos, designadamente ao tratamento da amêndoa e da alfarroba.&lt;span style=""&gt;  &lt;/span&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;              &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;&lt;span style="font-size:11;"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;b style=""&gt;&lt;span style="font-size:11;"&gt;2. PLANO MUSEOLÓGICO DO CONCELHO DE LOULÉ&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size:11;"&gt;&lt;span style=""&gt;&lt;/span&gt;O Plano Museológico do concelho de Loulé é um projecto da Divisão de Cultura e Património Histórico da Câmara Municipal de Loulé. Ele é o resultado de uma ampla discussão, investigação e experiência, acumulada desde 1991, no âmbito da intervenção relativa à defesa, conservação e reabilitação do património cultural.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style=""&gt;&lt;/span&gt;Pretende-se com este Plano, dotar o espaço concelhio de uma estrutura museal, assente num conjunto de pólos museológicos, que funcionem como pequenos centros de interpretação do concelho, nas suas várias componentes sociais, económicas e culturais.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;span style=""&gt; &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;A partir do núcleo central, designado por Museu Municipal, sedeado em Loulé e em permanente processo de consolidação, deve ser possível estabelecer um conjunto de percursos disseminado pelo território, privilegiando-se, assim, a descentralização cultural e o processo de desenvolvimento local.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;span style=""&gt;           &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;Trata-se de um novo conceito e de uma nova forma de encarar o património e a museologia, do qual podemos destacar algumas características:&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;                            &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;&lt;span style="font-size:11;"&gt;&lt;span style=""&gt;&lt;/span&gt;i) Museu como percurso histórico-geográfico;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style=""&gt;&lt;/span&gt;ii) Museu vivo, com público participante;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style=""&gt;&lt;/span&gt;iii) Museu interpretativo de um território, de uma população e de um património;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style=""&gt;&lt;/span&gt;iv) Museu como pólo de desenvolvimento.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style=""&gt;&lt;/span&gt;Estes novos conceitos de museologia assentam num trinómio, o qual contraria a velha visão dos museus que conhecemos:&lt;span style=""&gt;                            &lt;/span&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style=""&gt;&lt;/span&gt;1. Em oposição a um Edifício, &lt;i style=""&gt;elegemos um Território;&lt;/i&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style=""&gt;&lt;/span&gt;2. Em vez de uma Colecção, &lt;i style=""&gt;propomos um Património;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/i&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style=""&gt;&lt;/span&gt;3. Ao contrário de um Público, &lt;i style=""&gt;pretendemos uma População.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/i&gt;&lt;span style=""&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;Esta nova concepção abre caminho a uma metodologia de trabalho que irá consagrar o espaço edificado do museu, em sintonia complementar com o seu território envolvente, como se este fosse o seu prolongamento. Em segundo sentido, o museu irá constituir-se em torno de um património cultural próprio, proveniente do contexto social e económico da comunidade onde se insere, que o deve assumir como um espaço social de identidade. Em terceiro lugar, o que o museu irá privilegiar não é um público amorfo e distante, mas uma população interessada no seu usufruto, à qual ele se devolve, numa visão interpretativa.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;span style=""&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;Dentro desta perspectiva, a Divisão de Cultura e Património Histórico procedeu já à instalação, na alcaidaria do castelo de Loulé, do Museu Municipal de Arqueologia – representativo do povoamento histórico no território do concelho –, bem como à abertura do Pólo Museológico da Cozinha Tradicional. E ainda, à abertura do Pólo Museológico do Esparto, integrado na Casa Memória de Alte, espaço polivalente com funções de Museu, Posto de Turismo e Mostra de Artesanato. Nesta aldeia decorre, ainda, o processo de instalação do Pólo Museológico do Traje, Música e Dança.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style=""&gt;&lt;/span&gt;Para breve prevê-se a instalação, em Querença, do Pólo Museológico da Água, representativo de um traço característico de uma freguesia, que assenta ainda grande parte da sua actividade económica e social, em torno da utilização deste recurso precioso. Em Salir, projecta-se a implantação do Centro Interpretativo do Castelo, a partir do espólio exumado nas escavações arqueológicas efectuadas, que demonstram a antiga presença islâmica no local.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style=""&gt;&lt;/span&gt;Outros pólos se seguirão nas restantes freguesias, respeitando sempre o princípio da diversidade temática e da consequente complementaridade.&lt;span style=""&gt;  &lt;/span&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;&lt;span style="font-size:11;"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;b style=""&gt;&lt;span style="font-size:11;"&gt;3. PÓLO MUSEOLÓGICO DOS FRUTOS SECOS&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;                                                                                      &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-indent: 36pt;"&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;&lt;span style="font-size:11;"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;O Pólo Museológico dos Frutos Secos insere-se na linha de implantação do Plano Museológico do concelho de Loulé, o qual privilegia a instalação, por todo o território concelhio, de pequenos núcleos temáticos e diversificados, adequados aos contextos locais, do ponto de vista social e cultural. Esta perspectiva possibilita uma interpretação do território, comum a uma população específica, sendo essa leitura realizada, a partir de um património que se reconhece na memória dos seus promotores.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style=""&gt;&lt;/span&gt;A instalação de pólos pelo concelho descentraliza a actividade cultural e serve de atractivo aos visitantes, que dessa forma podem percorrer o concelho numa rede de interesses culturais, valorizando assim outras áreas, como a gastronomia e o artesanato e em particular, rendibilizando a actividade turística.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style=""&gt;&lt;/span&gt;O Pólo Museológico dos Frutos Secos, está instalado num edifício fabril de pequena dimensão, localizado na rua Gil Vicente, nº 14, num núcleo antigo da cidade de Loulé, propriedade do Sr. José Bota e que a Câmara de Loulé arrendou com esse objectivo.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style=""&gt;&lt;/span&gt;O edifício, foi alvo de pequenas obras de recuperação e consolidação, do telhado, paredes e aberturas, para permitir albergar os equipamentos originais das duas moagens: uma máquina de partir amêndoa e uma máquina de triturar alfarroba.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style=""&gt;&lt;/span&gt;A musealização do espaço foi realizada em torno destes dois equipamentos principais, à volta dos quais, se desenrolarão os restantes materiais de trabalho e outros acessórios, enquadrados por textos, fotografias, desenhos, cenografias contextuais e outros materiais. Um terceiro sector será dedicado ao historial da pequena empresa da família Bota tendo-se utilizado, para o efeito, elementos visuais como mapas, cópias de documentos, fotografias, etc.&lt;span style=""&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;O Pólo Museológico é encarado de forma a servir didacticamente os visitantes. Dessa forma, as duas maquinetas estão preparadas para funcionar em determinadas situações, sobretudo aquando de visitas de escolas. É importante dar a conhecer, elementos importantes do nosso património arqueológico industrial, de forma rentável, se possível. Com isto, queremos dizer que a amêndoa partida pode servir para provas e vendas no local, tal como a alfarroba triturada, servirá para utilização na confecção de pão e bolos, a comercializar no local. Esta componente complementará o ciclo funcional do Pólo e permitirá a promoção dos produtos locais, atraindo alguns benefícios económicos.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;span style=""&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;Finalmente, a instalação deste espaço permitiu a formação de uma auxiliar de museografia que possibilita aos visitantes, em geral e às escolas, em particular usufruir devidamente das informações e animações culturais proporcionadas por este recurso educativo.&lt;o:p&gt;&lt;br /&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;b style=""&gt;&lt;span style="font-size:11;"&gt;&lt;br /&gt;4. A INDÚSTRIA DOS FRUTOS SECOS&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;span style="font-size:11;"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;br /&gt;O pomar misto de sequeiro tradicional algarvio, constituído por alfarrobeiras, figueiras, amendoeiras e oliveiras, sempre se afirmou como uma área de grande riqueza, na economia rural do Algarve, em especial no concelho de Loulé.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;br /&gt;Desde há muito tempo que se conhecem registos da actividade comercial, relacionada com a produção e exportação de frutos secos, primeiramente com o figo, posteriormente com a amêndoa e mais recentemente com a alfarroba e seus derivados.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;br /&gt;Esta actividade permitiu o aparecimento de uma classe de grandes negociantes, especializados na compra e exportação para o estrangeiro e apoiados em intermediários, que se reuniam regularmente em Faro e Loulé para definir os preços dos produtos. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;br /&gt;Em 1971, o concelho de Loulé possuía 77 comerciantes armazenistas registados na Junta Nacional das Frutas, em Faro, detendo o primeiro lugar, seguido do concelho de Silves. Muito antes, em 1905, Ataíde Oliveira, dá notícia de três industriais &lt;i style=""&gt;de “frutas secas”,&lt;/i&gt; no concelho de Loulé.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;br /&gt;Um dos industriais referidos é provavelmente Francisco Joaquim Bota, que desde os finais do século passado negociava cortiça no Alentejo e no Ribatejo e figo no Algarve. Tratava-se de uma empresa informal instalada na Estação de Loulé, que ocupava meia centena de mulheres nas actividades de tratamento, embalamento e enceiramento do figo e partição da amêndoa. Só por volta dos anos 30 é que a actividade se instala em Loulé.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;br /&gt;Em 1 de Julho de 1943, Francisco Joaquim Bota e os seus filhos José Francisco Bota e António Francisco Bota, constituem uma sociedade por quotas de comércio e exportação de frutos secos, que adopta a designação “Francisco Joaquim Bota &amp; Filhos, Lda.”, com sede em Loulé, na Rua Serpa Pinto nºs 1 a 13 e Rua Nova de Quarteira nºs 4 e 6.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;br /&gt;Inscrita na Repartição do Comércio, a nova empresa estava claramente vocacionada para a transformação e comercialização de frutos secos. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;br /&gt;Os figos, amêndoas e alfarrobas eram comprados no barrocal do Algarve directamente aos produtores, ou ainda na empresa, onde eram vendidos por intermediários ou por produtores. A sua transformação era efectuada pela empresa de forma manual, tendo os equipamentos mecânicos sido introduzidos apenas nos anos 60. A máquina de partir amêndoa (que no museu se expõe), tem patente de um fabricante de Loulé, Zeferino Clara Viegas. Os frutos secos eram depois exportados para diversos mercados nacionais e estrangeiros, sendo de destacar o Norte da Europa.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;br /&gt;Após o falecimento do fundador da empresa, a gestão dos negócios é feita, formalmente a partir de 1961, em conjunto pelos seus dois filhos e mais tarde por um dos seus netos, José Viegas Bota, que mantém viva, ainda hoje, a memória desta actividade económica. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;br /&gt;Ao Sr. José Viegas Bota se agradece a disponibilidade manifestada, para a montagem do Pólo Museológico dos Frutos Secos, na cidade de Loulé.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;b style=""&gt;&lt;span style="font-size:11;"&gt;&lt;br /&gt;5. A AMENDOEIRA (&lt;i style=""&gt;Prunus dulcis&lt;/i&gt;)&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;span style="font-size:11;"&gt;&lt;br /&gt;A amendoeira é uma pequena árvore, de copa arredondada e folha caduca, originária da Ásia e do Norte de África que se tem propagado ao longo de várias áreas. Em Portugal, introduzida pelos árabes, surge em Trás-os-Montes, mas sobretudo no Algarve, onde floresce ainda nos dias frescos mas soalheiros de Inverno. As suas flores brancas e cor-de-rosa dão um alegre colorido aos campos molhados do barrocal algarvio, lembrando mantos de neve, em terras longínquas e recordando a &lt;i style=""&gt;lenda das amendoeiras em flor.&lt;/i&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;br /&gt;Para além da sua beleza visual, a amendoeira propagou-se devido ao valor económico do seu fruto, a amêndoa. No início, parecem pêssegos ou alperces verdes, mas a parte carnuda mantém-se dura e não é comestível. Quando amadurece, no final do Verão, o pericarpo abre e solta-se, deixando ver a casca rija da amêndoa. Só o seu miolo é comestível.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style=""&gt;&lt;/span&gt;A riqueza da amêndoa é conhecida e explorada desde há muito tempo. A sua utilização na alimentação e em particular na doçaria, misturada ou não com o figo, é descrita já no século XVI. Nesta altura, a amêndoa era comercializada entre o Algarve e Lisboa e mais tarde com o Alentejo, transportada pelos almocreves através das serras algarvias. A exportação para o estrangeiro, por via marítima, sobretudo para França e Bélgica, é conhecida neste mesmo século. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;br /&gt;Mais tarde, os mercados alargar-se-ão para os países do Norte e Noroeste da Europa.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;br /&gt;No Algarve os amendoais espalham-se por todo o barrocal, sendo o concelho de Loulé um dos mais representativos desta cultura. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;br /&gt;Apesar do declínio desta produção, nos pomares de sequeiro, a sua comercialização contribui, ainda, para a parca economia rural algarvia.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;b style=""&gt;&lt;span style="font-size:11;"&gt;&lt;br /&gt;6. A ALFARROBEIRA (&lt;i style=""&gt;Ceratonia siliqua, &lt;/i&gt;L.)&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size:11;"&gt;A alfarrobeira é uma árvore da família das leguminosas, de copa arredondada e folhagem densa e persistente, originária da Síria e introduzida em Portugal pelos árabes.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;br /&gt;Aparece um pouco dispersa por todo o país, mas é no Algarve que tem a sua principal expressão ecológica e económica, nos terrenos do litoral, na serra xistosa nordestina e sobretudo nos terrenos calcários do barrocal. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;br /&gt;As suas variedades ou cultivares, estendem-se desde Lagos a Tavira, assumindo o concelho de Loulé o predomínio, em número de explorações e produção. Por isso é considerado o “solar” da alfarrobeira.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;br /&gt;A colheita dos seus frutos, a alfarroba, ocorre antes das chuvas entre Agosto a Outubro, pelo simples sistema do varejo, devendo aqueles ser armazenados em sacos, em condições de humidade aceitáveis, por um período de um ou dois anos. Só posteriormente a alfarroba é vendida para uma primeira transformação, a armazenistas ou industriais de trituração.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;br /&gt;Desde há séculos que se conhece e explora comercialmente a riqueza económica da alfarrobeira. No século XVI, a alfarroba era um dos produtos vendidos na feira de Tavira, e no concelho de Loulé os seus oficiais multavam quem colhesse &lt;i style=""&gt;“farrobas”&lt;/i&gt; em herdades ou terras de pão.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;br /&gt;Nos séculos seguintes cresce a produção de alfarroba, estimulada primeiro pela sua reputação como alimento para o gado, em Portugal e no estrangeiro e a partir de finais dos anos 40 do nosso século, pela sua transformação para as indústrias alimentar, farmacêutica, cosmética e têxtil, entre outras.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;br /&gt;A industrialização da alfarroba permite a obtenção de diversos produtos. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;br /&gt;A&lt;b style=""&gt; &lt;/b&gt;polpa, em triturado fino, destina-se ao consumo de ruminantes; do triturado grosso pode fazer-se extracção de xarope ou obter-se farinha torrada. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;br /&gt;A&lt;b style=""&gt; &lt;/b&gt;semente, que corresponde apenas a 10% do peso do fruto, constitui a sua parte mais nobre, pois dela se originam as gomas de alfarroba e o germe de alto valor proteico, donde se fabrica a farinha que integra a rica doçaria tradicional algarvia.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;br /&gt;Nos últimos anos a alfarroba, no conjunto dos seus derivados, tem participado com cerca de 50% no valor total da exportação de frutos, destinada sobretudo aos mercados do Japão, EUA e Holanda, o que mostra o seu crescente valor económico para Portugal e em especial para os produtores do Algarve.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;        &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;&lt;span style="font-size:11;"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="font-size:78%;"&gt;&lt;span style="font-size:78%;"&gt;&lt;span style="font-size:11;"&gt;Pólo Museológico dos Frutos Secos – Museu Municipal de Loulé&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="font-size:11;"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;br /&gt;Rua Gil Vicente, nº 14, 8100-697 Loulé / Telefone: 289 400689&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;br /&gt;Horário: Segunda a Sexta, das 9 às 12 e das 13.30 às 17.30 horas / Sábado, das 10 às 14 horas.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;                                      &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;&lt;b style=""&gt;&lt;span style="font-size:11;"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS&lt;o:p&gt;&lt;br /&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;span style="font-size:11;"&gt;ADRAGÃO, José (1985) &lt;i style=""&gt;Algarve, &lt;/i&gt;Novos Guias de Portugal. Lisboa: Presença.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;br /&gt;ALVES, Fernando &lt;i style=""&gt;et all &lt;/i&gt;(1992) Amendoeira (Prunus Dulcis) in &lt;i style=""&gt;Público Magazine. &lt;/i&gt;Lisboa: Público, p. 48.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;br /&gt;CARVALHO, José (1989) Os Sistemas Agro-Florestais do Algarve e a Competição Hídrica Estival da Vegetação in &lt;i style=""&gt;O Algarve na Perspectiva da Antropologia Ecológica. &lt;/i&gt;Lisboa: INIC e UAL, pp. 435-446.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;br /&gt;CAVACO, Carminda (1976) &lt;i style=""&gt;O Algarve Oriental. As Vilas, o Campo e o Mar. &lt;/i&gt;Faro: Gabinete do Planeamento da Região do Algarve, volume I.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;br /&gt;FREITAS, Miguel (1991) Loulé, um Espaço Rural em Mudança: Utilização do Solo in &lt;i style=""&gt;Actas do I Congresso do Concelho de Loulé. &lt;/i&gt;Loulé: Casa da Cultura de Loulé, pp. 263-272.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;br /&gt;GRAÇA, José (1989) A Alfarrobeira no Algarve in &lt;i style=""&gt;O Algarve na Perspectiva da Antropologia Ecológica. &lt;/i&gt;Lisboa: INIC e UAL, pp. 423-434.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;br /&gt;LOPES, João (1988) &lt;i style=""&gt;Corografia ou Memória Económica, Estatística e Topográfica do Reino do Algarve. &lt;/i&gt;Faro: Algarve em Foco Editora, 1º volume.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;br /&gt;MAGALHÃES, Joaquim (1970) &lt;i style=""&gt;Para o Estudo do Algarve Económico Durante o Século XVI. &lt;/i&gt;Lisboa: Cosmos.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;br /&gt;MAGALHÃES, Joaquim (1988) &lt;i style=""&gt;O Algarve Económico – 1600-1773. &lt;/i&gt;Lisboa: Editorial Estampa.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;br /&gt;MORENO, Humberto (1984) &lt;i style=""&gt;Actas das Vereações de Loulé. &lt;/i&gt;Porto: Câmara Municipal de Loulé.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;br /&gt;RAIMUNDO, Hélder e SERRA, Pedro (1998) &lt;i style=""&gt;Pólo Museológico dos Frutos Secos – Museu Municipal de Loulé. &lt;/i&gt;Loulé: Câmara Municipal de Loulé.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;br /&gt;REBELO, Maria e PITA, João (1990) A Goma de Alfarroba em Medicamentos de Uso dermatológico in &lt;i style=""&gt;Actas do 6º Congresso do Algarve. &lt;/i&gt;Silves: Racal Clube de Silves, volume II, pp. 545-553.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;br /&gt;SERRA, Manuel e RAIMUNDO, Hélder (1998) Património Histórico do Concelho de Loulé – Exemplo da Área Urbana in &lt;i style=""&gt;Encontros Locais Sobre Ambiente. &lt;/i&gt;Loulé: Associação Almargem (documento policopiado). &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;br /&gt;S. JOSÉ, Frei João (1983) Corografia do Reino do Algarve in &lt;i style=""&gt;Duas Descrições do Algarve do Século XVI, &lt;/i&gt;Cadernos da Revista de História Económica e Social, nº 3. Lisboa: Sá da Costa Editora, pp. 21-132 [1577].&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;    &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;&lt;span style="font-size:11;"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;b style=""&gt;&lt;span style="font-size:11;"&gt;ABSTRACT&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size:11;"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;b style=""&gt;&lt;i style=""&gt;&lt;span style="font-size:11;"&gt;The Dried Fruits’ Industry&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;/b&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;    &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;&lt;b style=""&gt;&lt;span style="font-size:11;"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;span style="font-size:11;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;span lang="EN-GB"  style="font-size:11;"&gt;On the 1&lt;sup&gt;st&lt;/sup&gt; July 1943, Francisco Joaquim Bota and his sons José Francisco Bota and António Francisco Bota created a joint-stock company to the commerce and exportation of dried fruits, with its head-office in Loulé, in &lt;st1:street st="on"&gt;&lt;st1:address st="on"&gt;Serpa   Pinto Street&lt;/st1:address&gt;&lt;/st1:street&gt;. The new company, that adapted the denomination “Francisco Joaquim Bota &amp; Filhos Ld”, was clearly adequate to the transformation and to the commercialisation of figs, almonds and carob. Nowadays, the founder’s grandchild, José Viegas Bota, keeps alive the memory of this economical activity.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;    &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;&lt;span lang="EN-GB"  style="font-size:11;"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;b style=""&gt;&lt;i style=""&gt;&lt;span lang="EN-GB"  style="font-size:11;"&gt;The Almond tree&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;/b&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;    &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;&lt;b style=""&gt;&lt;span lang="EN-GB"  style="font-size:11;"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;span lang="EN-GB"  style="font-size:11;"&gt;&lt;span style=""&gt;&lt;/span&gt;The almond tree was introduced in &lt;st1:country-region st="on"&gt;Portugal&lt;/st1:country-region&gt; by the Moors and it appears mostly in the &lt;st1:country-region st="on"&gt;&lt;st1:place st="on"&gt;Algarve&lt;/st1:place&gt;&lt;/st1:country-region&gt;, where it flowers in the fresh but sunny days of winter. Its white and pink flowers recall snow-drifts and recall the legend of the almond trees in flower. The richness of the almond has been exploited since a long time ago, mostly by its use in the traditional confectioner, contributing also to the rural economy of the &lt;st1:country-region st="on"&gt;&lt;st1:place st="on"&gt;Algarve&lt;/st1:place&gt;&lt;/st1:country-region&gt;’s “Barrocal” (area composed by clay and lime).&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;    &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;&lt;span lang="EN-GB"  style="font-size:11;"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;b style=""&gt;&lt;i style=""&gt;&lt;span lang="EN-GB"  style="font-size:11;"&gt;The Carob tree&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;/b&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;        &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;&lt;b style=""&gt;&lt;span lang="EN-GB"  style="font-size:11;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;span style="font-size:11;"&gt;The carob tree is originated from &lt;st1:country-region st="on"&gt;Syria&lt;/st1:country-region&gt; and it was introduced in &lt;st1:country-region st="on"&gt;&lt;st1:place st="on"&gt;Portugal&lt;/st1:place&gt;&lt;/st1:country-region&gt; by the Moors. It can be found spreaded all over the country, but it is in the &lt;st1:country-region st="on"&gt;&lt;st1:place st="on"&gt;Algarve&lt;/st1:place&gt;&lt;/st1:country-region&gt; where it has its main ecological and economical expression, mostly in Loulé’s Municipality. Since 1940, its richness becomes clearer by its use in several industries. Nowadays, the carob, with its set of by-products, composes one of the main exported products, assuming an important economical role, in the economy of the &lt;st1:country-region st="on"&gt;&lt;st1:place st="on"&gt;Algarve&lt;/st1:place&gt;&lt;/st1:country-region&gt;.&lt;o:p&gt;&lt;br /&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;span style="font-size:78%;"&gt;(Tradução / Translation: Deanna Raimundo)&lt;/span&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;   &lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/10766389-116121522062423022?l=helderfraimundo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/10766389/posts/default/116121522062423022'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/10766389/posts/default/116121522062423022'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://helderfraimundo.blogspot.com/2006/10/plo-museolgico-dos-frutos-secos.html' title='Pólo Museológico dos Frutos Secos'/><author><name>HFR</name><uri>http://www.blogger.com/profile/10958773275348751832</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-10766389.post-113326738822184059</id><published>2005-11-29T12:22:00.000Z</published><updated>2005-11-29T12:29:48.233Z</updated><title type='text'>Casimiro de Brito, "poeta do pleno e do vazio"?</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;Em Loulé, realizou-se (18 de Novembro passado) uma Conferência sobre Casimiro de Brito, no âmbito de Faro, Capital Nacional da Cultura 2005. Álvaro Manuel Machado, conferencista convidado, traçou um excelente perfil da obra poética e literária do poeta, em torno da ideia central de pleno e de vazio, que considera serem as marcas filosóficas de Casimiro. Aproveitei essa deixa, no final da conferência, para metaforicamente sublinhar o contraste entre a vasta e qualitativa obra do poeta e o número de pessoas na sala (seis ouvintes e mais três pessoas da organização).&lt;br /&gt;Casimiro, sendo louletano, não é conhecido em Loulé. Ou melhor, é conhecido por uma minoria pouco significativa de gente ligada à cultura. Aliás, entre a terra e ele há ainda muita coisa por esclarecer. E, notoriamente, estamos perante um fenómeno de rejeição recíproca, muito mais por obra da terra do que pela obra do poeta. Digo eu. Sobre este assunto, aliás, já tive oportunidade de o referir e escrever bastas vezes. É o poeta que nos esclarece, quando a certa altura num poema refere:&lt;br /&gt;(...)&lt;br /&gt;e eu um louletano com milhões de sonhos&lt;br /&gt;tão longe e tão perto na escala do tempo&lt;br /&gt;Loulé minha terra natal&lt;br /&gt;tão longe e tão perto de mim&lt;br /&gt;como és grande e pequena Loulé assim.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Perceberá o leitor, se for procurar os muitos livros editados de Casimiro, nas livrarias (ou na única livraria com esse nome) da cidade ou pesquisar o seu nome na Biblioteca Municipal Sophia de Melo Breyner Andresen, em Loulé. No primeiro caso nada se encontra. No segundo não sei se já está disponível ao leitor alguma obra. Há um ano atrás nada estava.&lt;br /&gt;Por ter sido desde sempre aceite e acolhido em Faro, o poeta assume um relacionamento mais directo com a capital, onde os seus livros se encontram nas prateleiras de poesia da Biblioteca Municipal António Ramos Rosa, poeta farense e seu companheiro de lides poéticas. O próprio Casimiro de Brito dirigiu colecções de poesia em Faro, nos anos 60 e mais recentemente nos anos 90 (desta vez a convite da Câmara de Faro, no âmbito da promoção da biblioteca local).&lt;br /&gt;Mas a conferência teve outro dado esperado. Álvaro M. Machado assentou o ponto de partida poética do autor no movimento da Poesia 61, em Faro (anos 60), em torno dos célebres «Cadernos do Meio Dia». Percebe-se que se mantem, ainda, muito pouco conhecida, portanto, a experiência de Casimiro de Brito em Loulé. Foi na sua terra natal que, em 1956, lançou a página literária “Prisma de Cristal” na Voz de Loulé, em torno da qual se juntaram Ramos Rosa, Gastão Cruz, Maria Rosa Colaço e muitos outros.&lt;br /&gt;Entre 1956 e 1959 Casimiro de Brito deu corpo ao chamado Movimento Prisma, publicando textos e poemas de Afonso Cautela, Eduardo Olímpio, Emiliano da Costa, Vicente Campinas, poetas africanos, brasileiros e espanhóis, para além dos nomes referidos atrás. E foi no seio desta experiência pioneira e primacial que Casimiro de Brito escreveu e publicou também os seus primeiros poemas: 12 poemas em nove números do Prisma, para além de duas quadras premiadas em Jogos Florais, estas assinadas como Cavaco Correia – os seus dois outros nomes. Este período foi, ainda, fértil no lançamento de vários cadernos de poesia, como o «Encontro», o «Convívio» e o «Caderno Zero». No corolário deste processo de construção poética Casimiro de Brito publica o seu primeiro livro, em 1958, «Poemas da Solidão Imperfeita», com poemas escritos entre 1955 e 1958.&lt;br /&gt;No próximo ano, 2006, passam 50 anos do aparecimento do “Prisma de Cristal”. Tempo para encontrar formas de comemorar condignamente o evento. Casimiro de Brito merece-o. E Loulé tem essa dívida!&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;*&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-size:78%;"&gt;[publicado no &lt;a href="http://www.barlavento.online.pt/index.php/noticia?id=2986"&gt;barlavento online&lt;/a&gt;, em 24-11-05]&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/10766389-113326738822184059?l=helderfraimundo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/10766389/posts/default/113326738822184059'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/10766389/posts/default/113326738822184059'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://helderfraimundo.blogspot.com/2005/11/casimiro-de-brito-poeta-do-pleno-e-do.html' title='Casimiro de Brito, &quot;poeta do pleno e do vazio&quot;?'/><author><name>HFR</name><uri>http://www.blogger.com/profile/10958773275348751832</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-10766389.post-113244743538817556</id><published>2005-11-20T00:36:00.000Z</published><updated>2005-11-20T00:43:55.413Z</updated><title type='text'>O Movimento “Prisma” em Loulé</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;O Prisma de Cristal&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;strong&gt;&lt;/strong&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;Em 16 de Outubro de 1956 surgia, no jornal local «A Voz de Loulé» nº 94, uma denominada “página cultural” intitulada “Prisma de Cristal”. Estava colocada na página 2, onde se manteve quase sempre e era organizada por Casimiro de Brito. Casimiro Cavaco Correia de Brito, tinha nascido em Loulé em 1938 e tinha na altura 18 anos. O “Prisma de Cristal” publicou-se durante 26 números, de 16 de Outubro de 1956 até 15 de Fevereiro de 1959, tendo a página, desde o nº 2, passado a chamar-se “página literária”. Percebe-se porquê. A grande maioria dos seus conteúdos seria composta de poesia, poemas de jovens e consagrados lado a lado, oriundos dos vários quadrantes poéticos do Algarve, do país, de Espanha, do Brasil, de África. Nas suas páginas publicaram cerca de 45 poetas, muitos deles traduzidos do espanhol e do inglês, por Casimiro de Brito. De entre os nomes hoje mais conhecidos poderemos referir, para além do organizador da página, Ramos Rosa, Vicente Campinas, Emiliano da Costa, Afonso Cautela, Fernando Midões, Eduardo Olímpio, Maria Rosa Colaço e António Cabral. Com o poeta Eduardo Olímpio, natural de Santiago do Cacém, Casimiro de Brito criou e divulgou os Cadernos de Poesia “Encontro”, vendidos pelo “Prisma” a 4 escudos cada. Na área da criação e divulgação poética o “Prisma de Cristal” dá conta das diversas iniciativas editoriais de Casimiro, designadamente do “Caderno Zero” (como redactor), do “Convívio” (como director) e dos mais célebres “Cadernos do Meio-Dia”, dirigidos por António Ramos Rosa, na altura em que Casimiro de Brito já habitava na Rua do Bocage em Faro. Nos anos 60, Casimiro de Brito viria a dirigir, em Faro, a importante colecção de poesia organizada em “A Palavra”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;O Movimento Prisma&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;strong&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/strong&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;O “Prisma de Cristal” é, ainda, o suporte estético daquilo a que Casimiro chamou o Movimento Prisma, espaço de criação, fomento e organização de uma jovem poesia que nascia nos anos 50, fora dos movimentos conhecidos da poesia contemporânea. A sua importância, no Algarve, está ainda por apurar. A esse movimento Casimiro de Brito refere-se várias vezes no “Prisma de Cristal”, abordando ainda temas fora da poesia, como a estética, a filosofia ou a cultura, exercendo crítica literária e discorrendo sobre muitos outros temas. No corpo de colaboradores do “Prisma”, informalmente organizados no Movimento, destaque para o poeta Gastão Cruz, de Faro, que publicou o seu primeiro texto na página, com apenas 16 anos, uma crítica literária ao livro «Dispersão» de Mário de Sá-Carneiro. Durante o período de publicação, o “Prisma” contou com um total de 18 colaboradores, de entre os quais saliento Ramos Rosa, Manjua Leal, José Guerreiro, Vicente Campinas, Maria Rosa Colaço, Afonso Cautela, Francisco de Sousa Inês, João de Leal, Eduardo Olímpio, Carlos Porto e o artista plástico Manuel Cavaco Guerreiro, autor dos linóleos publicados e do frontispício da página.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Os Poemas Publicados&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;Para além de organizador, Casimiro de Brito foi um participante compulsivo em várias áreas da cultura e da literatura. No campo da poesia, participou com 12 poemas em 9 números do “Prisma”. Os seus primeiros poemas publicados, surgem no nº 3 [de 16 de Novembro de 1956], com o título “Diário dum jovem poeta” e assinados como Casimiro de Brito:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fuga Suave&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um homem deitou-se no chão&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;De qualquer maneira, &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;E sentiu satisfação &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;Pela vez primeira...&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;As horas passaram,&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;O sono ficou.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;Só os bichos notaram&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;Que esse homem acabou!...&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;Tinha adormecido sem sentir,&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;E a morte levou-o a sorrir...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Imaginação&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tenho-a no meu colo&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;a mulher que vai além&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;na rua...&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;Tenho-a no meu colo&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;apertada em meus braços&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;bela e nua...&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size:78%;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;&lt;span style="font-size:78%;"&gt;19/10/56 [Faro]&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;No entanto, o autor tinha já publicado nos dois números anteriores [1 e 2], duas quadras de sua autoria mas assinadas com os seus dois nomes menos usados, Cavaco Correia:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quadra&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ai, se os teus olhos falassem&lt;br /&gt;Que belas coisas diriam&lt;br /&gt;Quem sabe, talvez cantassem&lt;br /&gt;Quem sabe se chorariam...&lt;br /&gt; &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;&lt;span style="font-size:78%;"&gt;3º prémio do Concurso de quadras populares,realizado no Bairro do Bom João, em 24/6/56, Faro. Publicada no “Prisma de Cristal”, nº1, de 16 de Outubro de 1956.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;Uma Quadra&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A vida são só dois dias...&lt;br /&gt;(Lá diz o ditado antigo)&lt;br /&gt;Pois a minha é só o tempo,&lt;br /&gt;Que passo a brincar contigo...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size:78%;"&gt;Menção Honrosa dos Jogos Florais de Albufeira. Publicada no “Prisma de Cristal”, nº2, de 1 de Novembro de 1956.&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;O seu último poema publicado no “Prisma de Cristal” aparece no nº 20 [29 de Setembro de 1957], quando tinha 19 anos:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Irrealidade&lt;br /&gt;(para a Bia Rosa)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Dia a dia me encontro&lt;br /&gt;Menos meu menos livre&lt;br /&gt;Dia a dia me procuro&lt;br /&gt;Na ânsia de encontrar-me&lt;br /&gt;Carne e verbo comungando&lt;br /&gt;Vida e morte combatendo&lt;br /&gt;Eu comigo a lutar&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Dia a dia menos meu&lt;br /&gt;Dia a dia menos livre&lt;br /&gt;Procurando-me e fugindo&lt;br /&gt;De mim, cheiinho de medo&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Dia a dia me procuro&lt;br /&gt;Dia a dia não me encontro&lt;br /&gt;Dia a dia não sou eu&lt;br /&gt;Dia a dia sendo meu&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;&lt;strong&gt;O Primeiro Livro&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;A produção poética de Casimiro de Brito não se limita às páginas do “Prisma”. Publicou alguns poemas fora da página literária, de que é exemplo o poema “Desprendimento”, que surge na primeira página de «A Voz de Loulé», de 20 de Janeiro de 1957, na qual figura o Prisma de Cristal” nº 7. Em artigo assinado pelo colaborador do “Prisma”, João de Leal, de Faro, ficamos também a saber que Casimiro de Brito edita o seu primeiro livro de poemas, em edição de autor. Na nota publicada em «A Voz de Loulé», de 19 de Janeiro de 1958, Leal refere o livro «Poemas da Solidão Imperfeita», editado em Faro em 1958, que hoje figura como a primeira obra do autor, e que este viria a reeditar na célebre compilação dos seus poemas publicados entre 1955 e 1984, no livro «Ode e Ceia», edição da D. Quixote, de 1985. O que é curioso notar é que Casimiro de Brito, não cedeu à tentação [eventualmente simples e adequada] de utilizar no seu primeiro livro publicado, os poemas que havia editado no “Prisma de Cristal”. O que quer dizer que todos os poemas do autor insertos em «A Voz de Loulé», nunca foram publicados em livro, iniciativa que me parece justa e interessante levar a cabo pelo jornal, com a concordância do autor.&lt;br /&gt;Devo referir que a experiência do “Prisma de Cristal” em «A Voz de Loulé» é completa e inexplicavelmente ignorada por Mário Lyster Franco na sua obra «Algarviana», de 1982 [ver páginas 380-385].&lt;br /&gt;Depois da experiência do “Prisma de Cristal” aí temos, tantas vidas e tantas obras do escritor e poeta louletano Casimiro de Brito, um dos nossos maiores poetas contemporâneos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;[publicado em &lt;strong&gt;A Voz de Loulé-a cultura&lt;/strong&gt;, em 15 de Outubro de 2004]&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/10766389-113244743538817556?l=helderfraimundo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/10766389/posts/default/113244743538817556'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/10766389/posts/default/113244743538817556'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://helderfraimundo.blogspot.com/2005/11/o-movimento-prisma-em-loul.html' title='O Movimento “Prisma” em Loulé'/><author><name>HFR</name><uri>http://www.blogger.com/profile/10958773275348751832</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-10766389.post-112870214033218603</id><published>2005-10-07T17:18:00.000+01:00</published><updated>2005-10-07T17:22:20.336+01:00</updated><title type='text'>LEMBRANDO MARIA ROSA COLAÇO</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;A PEDAGOGA DE «A CRIANÇA E A VIDA»&lt;br /&gt;(antiga colaboradora d’ &lt;strong&gt;&lt;em&gt;A Voz de Loulé&lt;/em&gt;&lt;/strong&gt; faleceu no dia 13 de Outubro)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A notícia apanhou-me de surpresa. Foi através de um mail de um leitor que fiquei a saber da morte da Maria Rosa Colaço (MRC), uma pedagoga, professora e escritora que marcou gerações de alunos e leitores. A escritora faleceu no passado dia 13 de Outubro e dela, apenas, uma simples nota de rodapé nas televisões. A imprensa, publica pequenas referências e notas biográficas da autora. Uma ignorância e uma tristeza que chocou muitos dos seus antigos alunos. É o caso deste nosso amigo leitor [António Matos Rodrigues] que, triste com a morte da sua antiga professora primária e mais triste ainda pelo cerco de silêncio que se fez à volta dela, decidiu criar &lt;/span&gt;&lt;a href="http://www.mariarosacolaco.blogspot.com/"&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;um blogue em sua homenagem&lt;/span&gt;&lt;/a&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;, com o seu nome, abrindo-o a quem queira testemunhar as suas vivências.&lt;br /&gt;Maria Rosa Colaço publicou vários livros, recebeu alguns prémios, escreveu crónicas jornalísticas e guiões de teatro. Mas o seu trabalho mais conhecido é o livro «A Criança e a Vida», que teve direito a mais de 40 edições, escrito a partir de notas guardadas de redacções dos seus alunos de Cacilhas, nos finais dos anos 50. Desse livro disse Urbano Tavares Rodrigues, ser “um milagre de pedagogia poética”.&lt;br /&gt;Já conhecia o livro havia tempo. O trabalho de Maria Rosa Colaço, professora do ensino primário, era uma lufada de ar fresco no ensino tonto e saloio dos anos 60 e nas escolas tristes e salazarentas da época. Os textos que recolheu, poesias e histórias ferventes e imagéticas, de meninos das ruas e dos bairros de lata da margem sul de Lisboa, eram flores anunciando o Abril futuro. Poderiam ter sido escritos por qualquer um de nós que, entre 1960 e 1969, se sentaram irrequietos nos bancos velhos das escolas, aprendendo as letras com que, hoje, nos ajudam a pensar sobre elas próprias.&lt;br /&gt;Lembro de ter lido o poema da contra-capa do livro e ter pensado no quotidiano do Vitor Barroca Moreira, que o escreveu aos nove anos: “O amor é um pássaro verde, num campo azul, no alto da madrugada”. Lembro ainda de ter visto a minha infância neste poema, de liberdade, de aventura, de protesto. Mas havia outros, muitos mais, cheios de flores, amizades e zangas, como o do Inácio da Silva Cruz, de 10 anos: “O amor é como duas borboletas que estivessem sobre uma rosa, a mais linda de todas do jardim. O amor tem que haver. Se não houvesse amor não havia nada bonito. O amor são duas estrelas a brilhar, a brilhar. A rosa e o sol são o amor. O amor é a poesia. O amor são dois passarinhos a construir a sua casinha. O amor é não haver polícias”.&lt;br /&gt;De Maria Rosa Colaço, disse Casimiro de Brito, poeta louletano: “Educadora, escritora vigilante e aberta: aberta à soterrada voz do seu povo, aos longos silêncios que rodeiam a corrupção, à deslumbrada visitação do sol pelas crianças, à quotidiana construção do amor”. Estas são palavras de poeta,  de gente que nega a morte, não negando o poema ou as palavras com que se fazem os Homens.&lt;br /&gt;É como a viagem à lua do Manuel Miranda, de 8 anos: “Despedia-me do meu pai e da minha mãe. Preparava as malas e ia para a lua. Quando lá chegasse falava com Deus e os anjos. Ficava lá com os meus companheiros e nunca mais voltava porque encontrava os anjos a cantar e as estrelas ali mesmo ao pé. Porque lá não havia guerra e lá estava muito sossegadinho e não havia misérias, nem morria ninguém”. Assim, o Manuel viajou à lua, antes de outros, como o principezinho da história.&lt;br /&gt;Maria Rosa Colaço diz-nos que estas crianças “não eram génios, nem poetas, nem meninos prodígios. Eram filhos de pescadores, de varinas, de ladrões de coisas...essenciais ao dia-a-dia. Moravam em casas com buracos e dormiam nos barcos, no vão das portas, nos degraus da doca, em qualquer sítio” [ver caixa “Poesia de «A Criança e a Vida»”]&lt;br /&gt;Esta missão de quase evangelizar a criança, a partir da descoberta e da criação poética, permitiu à escritora algarvia Lídia Jorge referir-se-lhe como se estivesse a “tentar atingir a alma do mundo”.&lt;br /&gt;Comprei o livro em Coimbra, em Novembro de 1992 – depois de o ter lido nos finais de 70 -, para voltar a sentir o eco fundo dos seus apelos de criança. E agora, ao pegar nele e olhar as datas dos poemas, posso dizer mais uma coisa: a sua autora, Maria Rosa Colaço, enquanto ensinava a olhar a vida na velha escola de Cacilhas, ainda escrevia para «A Voz de Loulé». São conhecidos os seus 20 anos de crónicas para o jornal «A Capital», mas «A Voz de Loulé» deve ter sido o primeiro jornal em que publicou. Na altura tinha 21 anos, quando surge em 1 de Janeiro de 1957 no nº 6 do “Prisma de Cristal”, página literária de «A Voz de Loulé», coordenada por Casimiro de Brito. Nesse número publica um texto intitulado “Remoendo”, no qual questiona o papel da religião no mundo. A sua presença torna-se regular, publicando em 13 dos 26 números do “Prisma”, publicando textos de reflexão filosófica sobre política, educação e poesia, fazendo análise e crítica literária a vários poetas, realizando entrevistas, etc. No nº 16, de 7 de Julho de 1957, publica um poema, “Inconformidade”, um dos poucos conhecidos de sua autoria [ver caixa “Maria Rosa Colaço no “Prisma de Cristal”].&lt;br /&gt;Maria Rosa Colaço foi uma das colaboradoras mais activas desta página literária e uma das mais estimulantes presenças do chamado Movimento Prisma (ver o meu artigo “O Movimento Prisma em Loule” em [a cultura], «A Voz de Loulé», do passado 15 de Outubro, páginas 15-16).&lt;br /&gt;Na dedicatória que redigiu num dos exemplares de «A Criança e a Vida», disse: “Com pombas e sonho, escrevi (orientei) esta antologia para que, ao menos pela voz clara da infância, os adultos se apercebessem dos abismos e da noite que contorna o mundo. Porque, como F. Pessoa, também digo: "O melhor de tudo, são as crianças"”.&lt;br /&gt;É também ela que diz no prefácio do mesmo livro: “Companheira do sol e das raízes, cheguei à grande cidade”. Agora que partiu para outra grande cidade, nós acompanhamo-la! Na divulgação do seu nome e da pedagogia comprometida e libertária que desenvolveu.&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;*&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-size:78%;"&gt;Notas:&lt;br /&gt;1. O “Prisma de Cristal” está inserto no jornal «A Voz de Loulé», entre os números 94, de 16 de Outubro de 1956 e 175, de 15 de Fevereiro de 1959 e pode ser consultado no Arquivo Histórico Municipal de Loulé.&lt;br /&gt;2. Na Biblioteca Municipal de Loulé estão disponíveis várias das obras de Maria Rosa Colaço.&lt;br /&gt;3. Um dos mais prolíficos alunos de MRC [António Joaquim de Matos Rodrigues] criou um blogue em sua homenagem: &lt;/span&gt;&lt;a href="http://www.mariarosacolaco.blogspot.com"&gt;&lt;span style="font-size:78%;"&gt;http://www.mariarosacolaco.blogspot.com&lt;/span&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;*&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;[publicado em &lt;em&gt;&lt;strong&gt;A Voz de Loulé&lt;/strong&gt;&lt;/em&gt; de 1 de Novembro de 2004]&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/10766389-112870214033218603?l=helderfraimundo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/10766389/posts/default/112870214033218603'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/10766389/posts/default/112870214033218603'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://helderfraimundo.blogspot.com/2005/10/lembrando-maria-rosa-colao.html' title='LEMBRANDO MARIA ROSA COLAÇO'/><author><name>HFR</name><uri>http://www.blogger.com/profile/10958773275348751832</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-10766389.post-112870185808928369</id><published>2005-10-07T17:16:00.000+01:00</published><updated>2005-10-07T17:17:38.093+01:00</updated><title type='text'>AS MULHERES NO SISTEMA POLÍTICO</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;O processo de constituição das listas para as eleições é, habitualmente, uma representação plena de qual o papel feminino na vida social e política. Os arranjos das últimas listas para as eleições de 20 de Fevereiro mostraram, mais uma vez, a hegemonia masculina dos partidos políticos e em especial dos seus aparelhos nacionais e regionais. A conversa veio à baila com a lista do PS em Coimbra e sobretudo com a decisão de colocar Matilde Sousa Franco (MSF) no primeiro lugar da lista. Muita coisa se escreveu sobre o assunto. Destaco apenas uma opinião:&lt;br /&gt;«Parece-me uma péssima escolha. Não retirando os méritos da Sr.ª, que são muitos, continuando a considerá-la, como considero, uma mulher de fibra e de elevado sentido de estado, não posso deixar de achar que a sua candidatura, para mais como cabeça de lista (aceitaria com mais facilidade um local elegível mas de menor visibilidade), soa demais a uma vontade bacoca de "surfar" a onda de popularidade que ela, pelo braço do falecido Prof. Sousa Franco, seu marido, foi angariando. Ora eu sou contra explorar vivos e muito mais contra explorar mortos que mereciam outro respeito. É o caso».&lt;br /&gt;As razões aduzidas no texto podem ter sido os pressupostos para o PS escolher MSF para o lugar referido, mas isso só penaliza a visão do PS. Aliás, só neste sentido se entende que Helena Roseta, bastonária da Ordem dos Arquitectos tenha sido preterida e Sónia Fertuzinhos, presidente das Mulheres Socialistas, tenha sido relegada para 12º lugar em Braga. Terá sido por esta militante ser a cara socialista da luta pela descriminalização do aborto? Parece que sim, porque o PS de Sócrates impôs, em sua troca - mas no 3º lugar e assim potencialmente elegível -, uma tal de Teresa Venda do Movimento Humanismo e Democracia, nem mais, uma militante defensora das penalizações a mulheres que abortaram. Também no Algarve o PS, bem como o PSD, não deixam as mulheres acima das fronteiras do elegível. Bem diferente do nosso país vizinho em que o governo de Zapatero conta com oito ministras, o mesmo número de homens da equipa, num país assumido como “a nação do machismo e a reserva católica do Ocidente” como refere Lola Galán. Mas aqui ao lado é outra loiça, até porque as medidas paradigmáticas do PSOE no governo, foram a proposta de legalização dos casamentos homossexuais e o combate à violência de género. Esta matéria, aliás, foi motivo para a criação de uma disciplina obrigatória no secundárioo dedicada à igualdade entre os sexos. Em Portugal, como se sabe, a educação sexual nas escolas é letra morta há muito tempo nas práticas dos últimos governos. Na verdade, as matrizes operárias e trabalhistas do PSOE têm permitido a assunção de medidas verdadeiramente inovadoras na governação moderna, enquanto que em Portugal apenas se espera a permanência do status quo, num PS ainda marcado pela sua formação tecnocrática, sem raízes populares.&lt;br /&gt;Mas as razões do texto citado acima (e que expressam o ponto de vista do autor) não deixam de ser puramente machistas. Considerar que uma mulher cavalga a “onda de popularidade” do marido, significa duas coisas: uma, que o autor não conhece o percurso de Matilde Sousa Franco; duas, que ele considera que nos papéis sociais de género, quem constrói a onda é sempre o homem, não percebendo o papel de suporte colectivo que a mulher representa, uma rectaguarda decisiva para o percurso de qualquer homem, tal como no caso referido. Situação que o próprio Sousa Franco reconhecia. Como muito bem afirma Anna Farré «Os homens têm podido ocupar espaços de poder porque têm disposto do apoio de uma estrutura familiar de afecto, cuidado e estabilidade, que actua como um descanso do guerreiro, potenciadora e tranquilizante, que lhes permite dedicar toda a sua energia e entusiasmo à tarefa a que se aplicam».&lt;br /&gt;Mas alguns dados em Portugal vêm trazendo novidades: somos o país europeu com mais mulheres na investigação científica e só somos utrapassados pela Itália em número de mulheres doutoradas na Europa. Estas dinâmicas poderão permitir um crescente papel das mulheres nas esferas profissional e social e empurrar para o sistema político uma dinâmica de escolha baseada na competência e afirmação de género. Nessa altura não será preciso propagandear as quotas de mulheres nas listas, mantendo a hegemonia masculina nos lugares de poder e usando o feminino apenas para compôr o ramalhete, como muito bem salienta Elisabete Rodrigues no jornal «barlavento».&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;*&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;[publicado em &lt;em&gt;&lt;strong&gt;A Voz de Loulé&lt;/strong&gt;&lt;/em&gt; de 15 de Janeiro de 2005]&lt;br /&gt;&lt;/span&gt; &lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/10766389-112870185808928369?l=helderfraimundo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/10766389/posts/default/112870185808928369'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/10766389/posts/default/112870185808928369'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://helderfraimundo.blogspot.com/2005/10/as-mulheres-no-sistema-poltico.html' title='AS MULHERES NO SISTEMA POLÍTICO'/><author><name>HFR</name><uri>http://www.blogger.com/profile/10958773275348751832</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-10766389.post-112870148597364613</id><published>2005-10-07T17:04:00.000+01:00</published><updated>2005-10-07T17:11:25.983+01:00</updated><title type='text'>A DEMOCRACIA, O FUTEBOL E O “APITO DOURADO”</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;Duas razões me levam a escrever esta crónica. A primeira é o facto de ter escrito aqui, em crónica de 15 de Março passado, um texto sobre “a política e o futebol”; a segunda, como é compreensível, pelo conjunto de factos que hoje dominam a actualidade mediática e designado como “apito dourado”.&lt;br /&gt;Posto isto, recordo que na referida crónica salientava o peso desmedido do futebol na portugalidade contemporânea e dizia: “no ano de 2004, o futebol dominará a política nacional. Em contrapartida e como moeda de troca social, a política tem dominado o futebol. Há muitas épocas – para usar a terminologia do futebol – em que o dirigismo no futebol é tirocínio obrigatório para quem quer ascender a cargos políticos de referência”. Ora esta promiscuidade tem destas coisas. Quando cai o Carmo, cai também a Trindade. Neste caso, cai o futebol e com ele se arrasta a política que se faz, assim, de compadrios e de uma rede de dependências insolúveis. Voltando à crónica de 15/3, dizia eu que “precisamente, este caminho constrói-se a partir de uma rede de favores e benevolências minúsculas e invisíveis que estruturam a fidelidade de apaniguados, empregados, funcionários e autoridades. Só assim é possível, a quem detém o poder, mobilizar em sua defesa todos aqueles que dependem dessa rede diáfana da solidariedade corrupta”. Como se tem visto, não faltam manifestações e choradinhos em torno dos líderes populistas, quer sejam autarcas, políticos ou gente do futebol.&lt;br /&gt;Na verdade, que longe está este futebol do futebol do meu tempo. Quando jogava futebol nos juvenis do Silves Futebol Clube, lembro-me de calçar botas já usadas por outros, antes de mim, tiritar de frio nos bancos ou nos treinos, sem roupa adequada, tomar banhos frios no fim gélido das tardes. Tudo isto quando o futebol lançava solidariedades e socializações a preceito, passava os testemunhos educativos, do esforço, da cooperação e da amizade. Quando o prémio de jogo era apenas um galão e uma sandes mista. Mas, entretanto estudava, lia Kafka e Gorky, convivia e descobria mundos, outros. Durante algum tempo ainda vi futebol, até que as marcas, os prémios, os ordenados chorudos, lá entraram. Quando o futebol se transforma numa arte manietada por construtores e políticos desconhecidos, deixei de o olhar.&lt;br /&gt;Diz o sociólogo Augusto Santos Silva, no «Público» de 24 de Abril que “o futebol não tem lepra [e que] o seu potencial simbólico e económico não pode ser esquecido”; mas, de facto, estas afirmações dão uma no cravo e outra na ferradura. É evidente que o sentido de escape psicológico do futebol, tem explicado muitas das afirmações em sua defesa, mas não podemos deixar de ver, e não podemos esquecer, que a sua gestão é pautada pela busca permanente do seu trampolim, na ascensão social de gente ambiciosa. Gente que vem, como disse antes, “do anonimato para a associação, desta para o clube de futebol da terra e deste para o cargo político”. E foi este consenso, doentio, em torno de um desiderato nacional, – que apenas interessava ao poder (instituído, como se pressupõe) – que tem permitido, como afirma José Manuel Fernandes, em Editorial do «Público» de 21 de Abril, que “ser dirigente desportivo era uma espécie de salvo-conduto, já que as polícias, a justiça e as investigações ficavam à porta dos clubes”.&lt;br /&gt;Ora é isso mesmo que agora se desmorona. E o estado não sabe o que fazer. Em primeiro lugar o governo anda à toa, a meses da expansão milenar que representa o Euro 2004, mostrando um mundo caótico, corrupto, de compadrios e favores medievais. Por isso A. S. Silva apela a que se tire a limpo as ligações promíscuas entre política e futebol. E a jornalista Ana Sá Lopes, também no jornal «Público» de 24 de Abril, refere que “a suspeita permanente, não sendo investigada, torna-se ‘a verdade’”. O mesmo tinha eu dito. E quando estes acontecimentos se precipitaram, tendo sido arrolados 16 arguidos, verifiquei que tinha razão em ter escrito o que escrevi. A propósito, um amigo meu, da comunidade dos blogues, foi lesto e metafórico a concluir que se podia chamar ao texto “a crónica de uma detenção anunciada”, lembrando a célebre novela de Garcia Marquez. Eu respondi-lhe, dando o seu a seu dono, que já a actual Procuradora Adjunta, Maria José Morgado tinha expressado essa motivação de investigar as relações entre a política e o futebol. Na altura, dessa entrevista à «Pública» de Setembro de 2002, muitos ficaram escandalizados com este descaramento, ou esta coragem, como queiram. Lembram-se, com certeza de Valentim Loureiro a esbracejar, pedindo provas. Aí têm, pois, as acusações, por enquanto, enquanto a procissão vai no adro. E enquanto a procissão vai no adro e as demissões de cargos se sucedem, resta saber que responsabilidades pessoais e políticas, os visados extraem disto. Da minha parte, se não o fizerem, fazem a prova provada de que ninguém aqui presta qualquer serviço público, mas apenas se servem dos cargos para exorbitar os poderes para os quais são eleitos pelos cidadãos. E são estes, somos nós, que de forma livre, mas consciente, deveremos agir, para que a cidadania seja participativa e a democracia dessa forme se reforce.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size:78%;"&gt;*&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-size:78%;"&gt;Nota: A crónica referida neste texto e intitulada “A Política, o Futebol e a Violência”, pode ser lida neste jornal, no número de 15 de Março de 2004&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-size:78%;"&gt;*&lt;/span&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;[publicado em &lt;strong&gt;&lt;em&gt;A Voz de Loulé&lt;/em&gt;&lt;/strong&gt; de 1 de Maio de 2004]&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/10766389-112870148597364613?l=helderfraimundo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/10766389/posts/default/112870148597364613'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/10766389/posts/default/112870148597364613'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://helderfraimundo.blogspot.com/2005/10/democracia-o-futebol-e-o-apito-dourado.html' title='A DEMOCRACIA, O FUTEBOL E O “APITO DOURADO”'/><author><name>HFR</name><uri>http://www.blogger.com/profile/10958773275348751832</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-10766389.post-112592966328075029</id><published>2005-09-05T15:06:00.000+01:00</published><updated>2005-09-05T15:14:23.290+01:00</updated><title type='text'>GOLFES E CASAS ILEGAIS NA RIA FORMOSA:UMA CRISE DE CIVILIZAÇÃO NO ALGARVE</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;Não vos tinha dito que a propalada crise do turismo no Algarve é uma panaceia para um muro de lamentações e pedinchices dos principais interessados: os empresários do turismo e os autarcas responsáveis pela crescente betonização do litoral? Claro que, agora, a conivência de governantes faz parte deste cartel.&lt;br /&gt;Desabafo a propósito de mais um campo de golfe que se anuncia, desta vez para os terrenos cobiçados e classificados do Ludo, ali entre a Praia de Faro e a Quinta do Lago. Ali mesmo a dois passos da casa da vice-presidente da Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional do Algarve, o que é apenas coincidência. Uma dupla coincidência. Primeiro porque Valentina Calixto foi durante muito tempo a responsável pela gestão do Ambiente no Algarve e segundo porque a área em causa é classificada por várias normas e directivas. Até está integrada num Parque Natural, veja-se só. Mas como o ICN (Instituto de Conservação da Natureza) não é mais do que um verbo de encher, ou melhor, um verbo vazio de orçamento, de técnicos, de fiscalização ou de outro qualquer sinal de vida, o campo de golfe tem muitas probabilidades de se estender. Sinal de que a seca, os incêndios, a constante salinização das águas, a defesa da fauna selvagem, os estudos científicos sobre a flora, são mesmo para pôr de salga nas marinhas do Ludo. Esqueçam a galinha sultana - que recuperou ali da sua mais que provável extinção nestas paragens -, a garça cinzenta ou a cegonha negra e todas as aves constantes da Directiva de Ramsar. Queixem-se, mais uma vez, da associação Almargem que anda sempre a chatear os autarcas, que por sua vez a acusam despudoradamente de fundamentalista, mas não digam que o turismo está em crise e o Algarve em colapso!&lt;br /&gt;Há dias Vital Moreira, no «Público», mostrava o Algarve da incúria da fiscalização, dos esquecimentos dos governantes, dos compromissos dos autarcas. Nada que os algarvios não conheçam. Como tive oportunidade de dizer, logo após o anúncio das medidas ambientais ligadas à aprovação do POOC (Plano de Ordenamento da Orla Costeira) do perímetro Vilamoura/Vila Real de Santo António, o derrube das casas ilegais no perímetro dunar das ilhas barreira, na Ria Formosa, seria para esquecer alguns meses depois. Isto, porque muitos dos interessados nos “direitos adquiridos” das casas ilegais são ou foram responsáveis de organismos da administração a vários níveis. Aliás, para corroborar esta minha ideia, o actual governador civil, questionado pelo «Jornal de Notícias», veio logo a terreiro afirmar que não se oporia se a sua casa tivesse que ir abaixo. Mas tratou de acrescentar que os seus antecedentes foram sempre cumprindo obrigações legais relativas à implantação da casa. Muitos seguir-lhe-iam o exemplo, claro. Quem é que não segue qualquer governador civil?&lt;br /&gt;Como era de esperar, os fogos aqueceram os matos e por consequência, arrefeceram as casas ilegais da Ria Formosa. O governo esqueceu o Plano e nenhumas medidas se conhecem sobre o derrube das casas ilegais. Por isso o melhor é continuar a construí-las. Para as ver basta percorrer as margens da Ria na Praia de Faro e verificar que todos os dias nascem ou se reconstroem habitações. Na maré vaza, olho-as em aglomerado de madeira, mas quando regresso na maré cheia já é a alvenaria que suporta as águas e os “direitos adquiridos”. Mais rápidas e prolíficas que os cogumelos que lhes deram o mote.&lt;br /&gt;Mas nós é que estamos errados. Nós, que não temos o descaramento de pegar em meia dúzia de tábuas velhas e uma caixa de pregos para armar uma cabana de madeira sobre a duna da Barrinha, só para guardarmos a nossa caninha de pesca. Nós, que parecemos uns parolos, por que queremos o Ludo para passearmos com os nossos filhos, de binóculos em punho, a olhar as cegonhas e os pernalongas junto dos ninhos. Nós, que escrevemos estas coisas em vez de estarmos a preparar as nossas bandeirinhas rosa-laranja para os comícios da &lt;em&gt;rentrée &lt;/em&gt;no Pontal ou na Pontinha. Nós, sim, somos uns incivilizados e por isso só nos resta mudar de civilização.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;*&lt;br /&gt;[publicado no jornal &lt;em&gt;&lt;a href="http://www.barlavento.online.pt/index.php/noticia?id=1429"&gt;barlavento&lt;/a&gt;&lt;/em&gt; de 1 de setembro de 2005]&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/10766389-112592966328075029?l=helderfraimundo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/10766389/posts/default/112592966328075029'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/10766389/posts/default/112592966328075029'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://helderfraimundo.blogspot.com/2005/09/golfes-e-casas-ilegais-na-ria.html' title='GOLFES E CASAS ILEGAIS NA RIA FORMOSA:UMA CRISE DE CIVILIZAÇÃO NO ALGARVE'/><author><name>HFR</name><uri>http://www.blogger.com/profile/10958773275348751832</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-10766389.post-112256176333579751</id><published>2005-07-28T23:36:00.000+01:00</published><updated>2005-07-28T15:42:43.340+01:00</updated><title type='text'>Rua João de Deus, em Alte</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;Uma investigação sobre o Grupo Folclórico de Alte, leva-me a procurar fontes de referência a práticas musicais e coreográficas, na mesma aldeia, antes da fundação do Grupo em 1938. Uma das fontes  mais importantes é o jornal «O Aldeão», dirigido por João de Deus e editado, entre 1912 e 1913, na aldeia de Alte. Ao pesquisar os arquivos da Junta de Freguesia local verifiquei, mais uma vez, que o jornal «O Aldeão» não é conhecido. Na Junta apenas existe o «Folha de Alte», periódico dirigido por Graça Mira (antigo secretário de João de Deus em «O Aldeão»), entre os anos 1922 e 1934.&lt;br /&gt;Como sem conhecimento não há memória, tempo, talvez, para o Arquivo Histórico da Câmara de Loulé disponibilizar, aos altenses, cópias dos 28 números do seu primeiro jornal. Em debate sobre o tema, a Divisão de Cultura promete colocar no futuro Pólo Museológico de Alte, um conjunto de microfilmes do jornal. Melhor ainda.&lt;br /&gt;Mais tarde, falando com a Dona Lourdes Madeira, directora do actual jornal altense «Ecos da Serra», respondo à sua pergunta sobre se conhecia «O Aldeão» e sobre se João de Deus teria estudos. Lembro que sim, que João de Deus foi seminarista em Faro, que era culto e escrevia bem, que criou à volta dele uma plêiade de jovens republicanos, escrevinhadores no jornal, entre os quais Graça Mira, mais tarde fundador da Folha. Recordo-lhe que, várias vezes, «O Aldeão» noticiou os célebres bailes do Centro Republicano, que duravam até alta madrugada e eram abrilhantados pelo gramofone de José Francisco da Encarnação Madeira, pai da minha interlocutora, da D. Lourdes exactamente. Perguntei-lhe por que razão João de Deus não era reconhecido em Alte, não tinha o seu nome numa rua da aldeia, por exemplo, e a senhora disse-me que ele era muito crítico, falava mal de todos. Compreendo que a ausência de consensualidade não ajudou João de Deus a obter, na sua terra, a devida recompensa por ter ajudado a fundar um Centro Escolar e Republicano que foi uma verdadeira escola política e cultural da aldeia.&lt;br /&gt;Mais tarde, quando retorno ao arquivo da Junta de Freguesia, encontro o livro de inscrições de sócios do referido Centro Republicano. Entusiasmo-me, mas resolvo deixar para outro dia a pesquisa dos nomes dos sócios. A paixão nem sempre é boa conselheira. Mas outra novidade ainda me esperava. Quando volto a falar com D. Lourdes sobre Graça Mira ela diz-me que ele se suicidara, em Alte, no dia 1 de Maio de 1939, “escolhendo” um dia em que a aldeia estava cheia de visitantes. Dia fatídico este.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;&lt;/span&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;[&lt;strong&gt;publicado no jornal &lt;a href="http://www.barlavento.online.pt/index.php/noticia?id=786"&gt;barlavento&lt;/a&gt; de 28 Julho 05&lt;/strong&gt;]&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/10766389-112256176333579751?l=helderfraimundo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/10766389/posts/default/112256176333579751'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/10766389/posts/default/112256176333579751'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://helderfraimundo.blogspot.com/2005/07/rua-joo-de-deus-em-alte.html' title='Rua João de Deus, em Alte'/><author><name>HFR</name><uri>http://www.blogger.com/profile/10958773275348751832</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-10766389.post-112035926416562504</id><published>2005-07-02T03:50:00.000+01:00</published><updated>2005-07-03T03:54:24.173+01:00</updated><title type='text'>Por uma política multicultural da nacionalidade</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;Começo por uma afirmação aparentemente peremptória: não houve qualquer “arrastão” na praia de Carcavelos. Este fenómeno, ampliado e manipulado até à exaustão, merece uma análise séria e rigorosa e isso é o que pretendo fazer.&lt;br /&gt;O conceito de “arrastão” decorre do fenómeno localizado no Brasil – sobretudo nas praias do Rio de Janeiro – e, como muitas importações ad-hoc, foi erradamente utilizado nos factos ocorridos em Carcavelos e em Quarteira, no Algarve. O que se passou nestes dois locais, foram meros incidentes praticados por jovens de forma espontânea, desorganizada e sazonal. Espontânea porque motivo do contexto local; desorganizada porque acto de prática adolescente, enquanto mecanismo de afirmação e de status juvenil; e sazonal porque marcada pelo momento liberal de final de aulas. A divulgação dos factos criaram o primeiro disparate: não foram 500, nem 100 jovens que se envolveram nos actos. Os próprios relatórios de polícia, divulgados pelo «Diário de Notícias» desmentem  as notícias da imprensa e das televisões, apressados em dar o directo e provavelmente em vender jornais, numa época de folga da bola e de descanso do Parlamento. Hoje, continua a pensar-se que um conjunto de pequenos furtos sucedeu-se em catadupa e que a maior dos jovens - que habitualmente frequentam aquela que é a segunda maior praia da linha do Estoril – foram eles próprios arrastados pelos acontecimentos. Quase todas as declarações de banhistas, comerciantes e policiais são, por isso, lacónicas e desvirtuadas de provas concludentes sobre eventuais práticas criminosas.&lt;br /&gt;Perante as notícias e a frio, vários responsáveis políticos deram o mote da desgraça, do securitarismo e do medo. Capucho (presidente da Câmara de Cascais) apressou-se a reivindicar policiamento – a velha lógica da paranóia securitária de um polícia para cada cidadão – denotando marcas de xenofobia e racismo nas suas declarações. Macário Correia, responsável autárquico com poderes regionais no Algarve, veio preocupar-se com a imagem negativa dos acontecimentos para o turismo. Primeiro o nosso negócio, só depois a solução dos problemas sociais e culturais. Uma verdadeira desumanidade. Uma manipulação dos factos para aduzir uma legitimação política da discriminação dos deserdados, dos trabalhadores, dos periféricos, dos migrantes.&lt;br /&gt;Agora o papel dos media. Responsáveis pela manipulação dos factos até à exaustão, não se deram ao trabalho de confirmar os dados e estimularam o medo, a xenofobia e a discriminação. Não contentes com isso, enxamearam os canais de filmes e notícias assombrosas e assustadoras, ampliando os fenómenos reais e distorcendo as estatísticas dos factos da criminalidade. Hoje, continuam a insistir no erro manipulador de recusar os próprios dados da polícia e dos estudiosos do fenómeno. Ainda ontem [no dia anterior ao que escrevo] se via Conceição Lino, no debate da SicNotícias, literalmente a apanhar papéis, depois de um começo impreparado e sobranceiro na discussão dos problemas sociológicos da delinquência juvenil. Não sei quem lhe encomendou o sermão, mas este papel descaradamente manipulador e ignorante dos media televisivos começa seriamente a preocupar. Felizmente, os convidados (da área das ciências sociais e do direito) souberam desmistificar essa função reverberadora e subliminar da comunicaçãosocial mostrando, até com dados estatísticos, a baixa da criminalidade, sobretudo a juvenil e ainda que essa forma delinquencial é norma de afirmação de identidade perante os grupos de pertença.&lt;br /&gt;Finalmente o problema. Perante os factos, ou de acordo com o fenómeno que ritualiza os mesmos, só temos dois caminhos. O de considerar relevantes apenas as consequências e tornarmo-nos num país permanentemente amedrontado, legitimando a repressão e fechando-nos numa redoma de mente policiada. Ou encararmos de vez as causas do problema,  separando aquilo que é ritual e sublimador na violência juvenil – e que pode ou não configurar molduras  penais -, daquilo que é resultado da desestruturação da identidade social e comunitária, cada vez mais patente nos bairros degradados e periféricos das grandes cidades. Locais onde, antes de mais, se obriga à prática e legitimação da dependência, da discriminação social, da periferia cultural e da xenofobia. Quem não se sente identificado e integrado não defende valores e não tem comportamentos de vizinhança. Porque a nossa sociedade tem criado guetos de minorias étnicas e culturais, localizados nas periferias territoriais et pour cause nas periferias do poder, obrigando-os a respeitar deveres e a esquecer os seus direitos, de nacionalidade, de pertença, de comunidade, de cultura. Talvez se pudesse começar por alterar a legislação sobre a nacionalidade, uma boa forma de provar que a nossa preocupação é com as causas e não só com as consequências. Uma prova, ainda, de que a marginalização não é uma proposta de política cultural, assumida pelo poder, para se manter imaculado e ariano. Uma vergonha histórica, se assim fosse. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;&lt;/span&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-size:78%;"&gt;[minha coluna em «A Voz de Loulé» de 1 de Julho 05]&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/10766389-112035926416562504?l=helderfraimundo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/10766389/posts/default/112035926416562504'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/10766389/posts/default/112035926416562504'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://helderfraimundo.blogspot.com/2005/07/por-uma-poltica-multicultural-da.html' title='Por uma política multicultural da nacionalidade'/><author><name>HFR</name><uri>http://www.blogger.com/profile/10958773275348751832</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-10766389.post-111953720800121164</id><published>2005-06-23T23:31:00.000+01:00</published><updated>2005-06-23T15:33:28.006+01:00</updated><title type='text'>Simbologias no fogo</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;&lt;strong&gt;Um país de incêndios&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;Enquanto todo o país vive as alegrias da bola, desfilando bandeiras e batendo panelas e tachos, pequenas aldeias vivem as agruras, os temores e as lutas inglórias contra o fogo. Recentemente, enquanto o país assistia embasbacado aos golos da selecção portuguesa de futebol, alguns velhos e crianças, carregavam baldes de água, para refrescar as chamas que varriam a serra de Tavira, em Casa Queimada. Que raio de nome premonitório. Todos os anos é a mesma odisseia. Apesar de uma profusão legislativa, quase sempre incongruente, de campanhas de publicidade televisiva, de apelos ao reforço permanente de mais meios, o dilema continua. É claro, como a água que se gasta! O problema dos incêndios e dos fogos florestais, não parece estar nos meios, no reforço de homens, na prevenção e na vigilância. Na verdade este problema tem sido encarado como uma causa, mas não é. Ao contrário, ele é uma consequência. Consequência da desertificação humana, do abandono da agricultura tradicional, do fim do pastoreio. O abandono da floresta pelo homem como consequência do fim dos sistemas tradicionais de economia agro-pastoril. Há muito tempo, Brito de Carvalho, antigo secretário de estado da agricultura e antigo professor da Universidade do Algarve, tinha afirmado que a floresta sem o homem não é nada, não sobrevive. Concordamos com ele! As serras em vez de trigo e centeio têm mato (esteva, giesta, rosmaninho), magnífico combustível para arder. Os pastos secam, porque não há ovelhas e cabras que progressivamente as estiolem e comam. As ribeiras enchem-se de restos de desbaste, resíduos e lixo, à espera das enxurradas e dos fogos. Não há caminhos, aceiros e azinhagas de uso permanente, os que se abrem são puramente artificiais.&lt;br /&gt;Não propugnamos o regresso ao neolítico, mas pensamos que a macrocefalia das cidades, tem roubado a presença do homem no campo, nos barrocais e nas serras, que com melhores condições poderiam cultivar a terra, pastorear rebanhos em regime de silvicultura, dedicar-se à produção agro-alimentar. Tudo na companhia de outros recursos culturais, educativos, sociais, etc. Mas as comunidades camponesas estão, assim,condenadas ao abandono total e ao desaparecimento, no quadro de desenvolvimento actual. É a razão inversa da progressão da PAC – Política Agrícola Comum! À medida que esta se instala, o campo desaparece. Nele restarão apenas matos para o fogo consumir!&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;&lt;strong&gt;Surrealizar, por aí...&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;Segunda-feira, já noite dentro, continuo a leitura do caderno principal do «Expresso». Últimas páginas, dou por mim a ler:&lt;br /&gt;“ Mobilizámos os militares (...); articulámos com a Polícia Judiciária (...); aumentámos o efectivo da guarda florestal (...); aumentámos o número de equipas de sapadores florestais (...); Lançámos um ambicioso conjunto de obras de silvicultura preventiva (...); aprovámos e fizemos publicar o Novo Sistema Nacional de Prevenção e Protecção das Florestas contra Incêndios. Perante este quadro de acção – que nem sequer é exaustivo – dizer (como alguns insistem) que nada está a ser feito ou afirmar que faltam medidas adequadas de prevenção para preparar o Verão de 2004 é, no mínimo, ridículo. Mas não é de algo risível que estamos a falar. Estaremos neste caso a falar de uma campanha de desestabilização e de descrédito impensado ou premeditado que apenas permite uma certeza: parece que algumas pessoas ficarão tristes e desapontadas se este ano os fogos florestais não tiverem, de novo, os contornos de calamidade”.&lt;br /&gt;Sinto o calor abrasador do vento norte, que faz chegar as poeiras e os fumos quentes da serra do Caldeirão, deixo o jornal, oiço as sirenes dos bombeiros ao longe, junto de Silves, de Monchique, de Alcoutim, de Castro Marim, das Gambelas, de toda a serra de Loulé. Todo o Algarve a arder! Volto ao artigo, olho o título “Um ano de políticas contra os fogos florestais”, da autoria de um tal de João M.A. Soares, Ex-secretário de Estado das Florestas e percebo tudo, com um arrepio na espinha.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;[Coluna de 15 agosto 2004]&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt; &lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/10766389-111953720800121164?l=helderfraimundo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/10766389/posts/default/111953720800121164'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/10766389/posts/default/111953720800121164'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://helderfraimundo.blogspot.com/2005/06/simbologias-no-fogo.html' title='Simbologias no fogo'/><author><name>HFR</name><uri>http://www.blogger.com/profile/10958773275348751832</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-10766389.post-111758515478659549</id><published>2005-06-01T01:16:00.000+01:00</published><updated>2005-06-01T01:19:14.790+01:00</updated><title type='text'>O sítio do capacete amarelo</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;A propósito das obras do anfiteatro na Fonte Grande, em Alte, integradas no Plano de Reabilitação Urbana, Daniel Vieira, destacado artista da terra, conta a história de uma conversa entre José Cavaco Vieira - seu pai - e Cândido Guerreiro, poeta altense. Este último terá perguntado a Vieira quem era o “animal” que estava a fazer uma obra na Fonte, que o poeta detestaria. José Vieira, inteligente, nada respondeu mas parou a obra, dado que era ele o seu responsável, enquanto presidente da Junta de Freguesia.&lt;br /&gt;Penso que todos perceberão o simbolismo das palavras do Daniel Vieira, ao contar a história, verdadeira, a propósito de umas obras que o seu pai (José Vieira) estaria a fazer na Fonte Grande. Ao trazer esta história, para a actualidade, o que o artista plástico quer dizer é que, simplesmente, dever-se-ia parar para ouvir as opiniões das pessoas que habitam em Alte e que têm defendido a sua terra não impedindo o seu desenvolvimento, mas fazendo-o de forma a respeitar a natureza e sobretudo o lugar sagrado, o santuário, que é a Fonte Grande. E não me digam que as pessoas não querem saber, ou não querem participar. A história de Alte mostra o contrário: se abrirmos todos os problemas à discussão as pessoas aparecem e dão ideias. O problema, meus amigos, é que a participação é uma marca decisiva que divide uns de outros. Que separa a democracia representativa da democracia participativa. Há quem o queira e há quem o evite a todo o custo. O poder mantém-se e perdura assim: escondendo-se da arraia-miúda e decidindo em gabinetes.&lt;br /&gt;Há alguns dias atrás, quando visitei a Fonte Grande com o Daniel, vi a escultura do poeta Camões, que o Vieira construiu, profanada com um capacete amarelo das obras, como se simbolizasse a morte da poesia e da arte pelo betão. Na altura, ambos  pensámos que se o José Vieira fosse vivo, hoje, só teria duas opções: ou impedia esta obra ou morreria de desgosto. E qualquer pessoa que o tenha conhecido sabe que eu não estou a exagerar.&lt;br /&gt;Ontem, estive a visionar a entrevista que José Vieira deu, em 1995, ao programa da RTP "Zona +", na qual falava da escultura de Camões na Fonte Grande a propósito de um comentário que lhe fizera o poeta Miguel Torga, o qual considerara esta, a mais interessante forma escultórica de homenagem ao poeta dos «Lusíadas». Por isso, julgo que Vieira desejaria que a escultura fosse imediatamente retirada para lugar seguro, até conclusão da obra e depois reposta onde o povo a quisesse. O povo de Alte agradecerá.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;&lt;strong&gt;[coluna de 1Junho05]&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt; &lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/10766389-111758515478659549?l=helderfraimundo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/10766389/posts/default/111758515478659549'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/10766389/posts/default/111758515478659549'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://helderfraimundo.blogspot.com/2005/05/o-stio-do-capacete-amarelo.html' title='O sítio do capacete amarelo'/><author><name>HFR</name><uri>http://www.blogger.com/profile/10958773275348751832</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-10766389.post-111603189988559558</id><published>2005-05-14T01:47:00.000+01:00</published><updated>2005-05-14T01:51:39.893+01:00</updated><title type='text'>Os ópios do povo</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;&lt;strong&gt;[1] A pobreza altense:&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;Se eu fosse de Alte, ficaria preocupado. A minha terra estaria em terras serranas, teria fracos recursos e viveria de uma agricultura de subsistência.&lt;br /&gt;Para me contentar, teria apenas uma igreja como a referência histórica mais antiga e uma rocha dos Soidos que em tempos serviu para alguma coisa: encaminhar os navegantes...&lt;br /&gt;Bem, também teria a Fonte Grande, as chaminés rendilhadas, o 1º de Maio e já me daria por satisfeito. Como a mentira também ajuda a sobreviver, encher-me-ia de orgulho saloio, por saber que a minha aldeia já foi considerada a mais típica de Portugal. Não sei o que é típica, mas não faz mal.&lt;br /&gt;Devem julgar que estou  a brincar, mas não. Se não gostasse de Alte, não escreveria assim. Mas são estas as palavras que me escorrem no computador depois de ter acedido ao link para a freguesia de Alte, a partir do site da Câmara Municipal de Loulé – &lt;/span&gt;&lt;a href="http://www.cm-loule.pt/"&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;www.cm-loule.pt&lt;/span&gt;&lt;/a&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;&lt;br /&gt;Quando li, nem queria acreditar em tanta miséria franciscana. Aliás, o site, até de forma sobranceira, proíbe qualquer alteração aos textos, como se os escritos tivessem algum valor científico. Melhor seria apagá-los de imediato e inserir novos textos de forma séria, para não publicitar os erros.&lt;br /&gt;Depois de um ano em que os altenses comemoraram, de forma participativa, o centenário de José Vieira, com um conjunto de iniciativas que faz jus ao trabalho daquele patriarca, o texto do site sobre Alte é uma ofensa! Depois de todas as iniciativas em prol do desenvolvimento local, levado a cabo por autarquias, associações, privados e pessoas singulares, este texto acaba por envergonhar, porque pobre, insípido, ignorante.&lt;br /&gt;Para o corrigir basta ler a obra científica mais insuspeita e clarificadora editada sobre a aldeia: “Alte, na Roda do Tempo”, de Isabel Raposo. Quem não lê, não deve escrever sobre o que não sabe!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;[2] A Escola do Serradinho&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;No dia 19 de Maio, a Escola do Ensino Básico [EB1, nº 1 de Loulé], conhecida como a Escola do Serradinho, foi baptizada. Passou a ter um nome, o nome da Padroeira de Loulé, Mãe Soberana. Não tem nada de mais atribuir nome a uma escola. O que tem de mais é confundir alhos com bugalhos, quero dizer, confundir um equipamento laico – uma escola – com um símbolo do foro religioso. Ademais o nome é discriminatório, já que a comunidade escolar, que nela se movimenta, assume várias escolhas religiosas: uma maioria será católica, outros de confissões religiosas diversas, outros ainda agnósticos.&lt;br /&gt;Como sabemos a nossa Constituição é mais democrática que esta decisão; a nossa Lei fundamental consagra não só a liberdade religiosa, como também a separação entre estado e igreja. Aliás esta é uma das grandes conquistas da Revolução Francesa e um dos pilares estruturais da democracia. Ou será que já esqueceram isto?&lt;br /&gt;Por outro lado, a atribuição de nomes a escolas, ruas, praças, ou outros equipamentos, está sujeita a critérios normativos, que devem ser pesados por quem sabe do assunto. [Por favor leiam António Valdemar, no «Diário de Notícias» e perceberão o que afirmo]. No caso da Escola do Serradinho, quem foi ouvido? Como pai de um aluno, que irá estar 4 anos na escola, teria gostado de dar opinião e não ser convidado a apadrinhar um facto consumado. Por isso, para mim – e tenho a certeza que para os louletanos – esta escola continuará a ser conhecida popularmente como a Escola do Serradinho e apenas nos documentos oficiais ostentará o seu novel nome.&lt;br /&gt;Entretanto, a partir de agora, o precedente fica aberto. Talvez se possa passar a dar a romarias, igrejas e ermidas os nomes laicos dos homens e mulheres das letras desta terra e aí teremos: Ermida de D. Lídia Jorge; Igreja de S. Casimiro de Brito; Festa de D. António Aleixo.&lt;br /&gt;Parece que estou a brincar com coisas sérias, mas não estou mesmo!&lt;br /&gt;              &lt;br /&gt;&lt;strong&gt;[3] Hermano Soberano&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;Há dias, na RTP2, no arcaico programa «A alma e a gente» José Hermano Saraiva falou de Loulé e da sua Mãe Soberana. Não teve pejo em chamar ignorantes (duas vezes) aos louletanos e a todos aqueles que não reconhecem o valor simbólico do culto mariano.&lt;br /&gt;Depois, para se armar, - este homem que nada de novo trouxe à história, e à forma de a fazer – informa os ignorantes de que afinal o culto da Mãe Soberana não é de Loulé, tendo afinal origem em Faro, na capital, pois claro! Que viva a douta ignorância!&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;&lt;strong&gt;[coluna de 15 junho 04]&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/10766389-111603189988559558?l=helderfraimundo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/10766389/posts/default/111603189988559558'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/10766389/posts/default/111603189988559558'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://helderfraimundo.blogspot.com/2005/05/os-pios-do-povo.html' title='Os ópios do povo'/><author><name>HFR</name><uri>http://www.blogger.com/profile/10958773275348751832</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-10766389.post-111523780775990844</id><published>2005-05-04T23:09:00.000+01:00</published><updated>2005-05-04T21:16:47.800+01:00</updated><title type='text'>A descolonização das mentes</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;Não se escreve sobre a guerra como se escreve sobre a paz. Sobretudo se quem escreve é protagonista real da ficção que se difere no tempo. E essa decalage no tempo é uma das características do tempo da escrita de guerra. Porque o actor da guerra real não se pode colar ao personagem reflexivo e distante, a escrita da guerra é um “exercício de reflexividade” como refere Giddens. O tempo amadurece a razão e antes dela, promove a emoção. Uma emoção de escrita que é capaz de solicitar os instrumentos da memória distante, em perfeita integração com os suportes das razões actuais.&lt;br /&gt;Porque é que há pulsão de escrita sobre a guerra?&lt;br /&gt;Trata-se de uma forma de ajustar contas com o catálogo de valores do ser humano? Uma forma axiológica de contrariar os actos desviantes? Ou uma simples forma de exorcizar o mal? Provavelmente tudo isso e muito mais.&lt;br /&gt;No momento actual assiste-se, em Portugal, a uma nova profusão de testemunhos da guerra colonial, escritos por diferentes vivências, e sob diversos pontos de vista. Jorge Freitas no Cartaz do “Expresso”, de 10 de Janeiro passado, referindo-se à ausência de obras sobre esta temática, fala de uma estranha reserva. Reserva ou não, o facto é que não são de agora, os escritos sobre a guerra colonial. Relembro a propósito – apenas pelo facto de as ter lido na altura, - as cartas de Bação Leal e as novelas de Manuel Geraldo «Sangue negro, sangue branco e o suor da terra», de 1973 e de Fernando Assis Pacheco «Walt», de 1979 (mas escrito entre 1973 e 1978). Do primeiro (pp.13-4) respiguemos:&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Eu, pensando bem, nem sei porque estou aqui!- As conversas arrastavam-se, eram noites perdidas, madrugadas de insónia, em que cada um tentava enganar-se, ludibriar os outros, esquecer, até que uma nova manhã despontasse.&lt;br /&gt;E depois eram os dias, e as longas caminhadas, e as mortes, as minas e as rajadas, sangue negro, sangue branco, e o cheiro da guerra e dos corpos, da pólvora e da terra gretada.&lt;br /&gt;- Podia ter partido, feito como muitos outros. França ou Alemanha! “Pirar-me”, para mim tanto me fazia. Mas fui atrasando, esperando, e acabei por ser caçado.&lt;/em&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;Do segundo ( p.9) ouçamos:&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Esta besta barco chama-se Apocalypse, é branca e tem duas chaminés providas de sendas riscas azul-ferrete. Vejo claramente visto que já não é nova, a besta, mas para irmos aonde vamos qualquer traineira servia, qualquer caca inventada à pressão pelos altos poderes sereníssimos, desde que flutuasse.&lt;br /&gt;Atrás de mim, e de que partem vozes, o pelotão alinhado. Soma trinta e cinco gatilhos (...). Ir assim de charola é a cabronada mais miserável que se pode fazer em Abril de 1963.&lt;/em&gt;         &lt;br /&gt;Estas palavras são marcas, incontornáveis, de uma visão crítica da guerra colonial, assumidas por quem as viveu, da mesma forma.&lt;br /&gt;Outras vozes, outras visões, e desta vez uma quase inédita visão poética podemos encontrá-la no trabalho de José Neves (pseudónimo de Adolfo Pinto Contreiras), intitulado «Esquadrão 149. A guerra e os dias», dado à estampa em edição de autor e apresentado a público a 29 de Novembro de 2003, nos Gorjões, Sta. Bárbara de Nexe. O autor confessa-se longe dos mediatismos e dos lobbies da publicação, e essa veia é clara, tanto na assunção pessoal da obra – voltada para antigos companheiros da guerra, ou ainda como forma de cumprir um desiderato de memória colectiva – como ainda na escolha da sua aldeia natal, para a apresentar – portanto na periferia dos poderes económicos e culturais. Uma prova, também, de que a guerra tem essa reciprocidade assimétrica, de que falava Lévi-Strauss, entre quem a manda e quem a faz.&lt;br /&gt;Na verdade, esta obra, volumosa de 382 páginas, aproveita a poesia como mecanismo de produção narrativa, e faz jus à designação de prosa poética, porque livre de constrangimentos técnico-operativos da produção poética e assente no objectivo de efectuar um relato fidedigno da experiência de guerra. Escrita entre 1999 e 2003, 40 anos após os acontecimentos, é possível ao autor distanciar-se criticamente da guerra, percorrendo espaços de contenda militar, da solidariedade in extremis, da socialização intercultural, dos conflitos da emoção e da razão.&lt;br /&gt;Comentando a placa de identificação dos militares:&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Ó ironia triste do soldado/que vai prá guerra obrigado/a ser alvo de metralha./Antes de pôr os pés na batalha/já está medalhado/com uma sinistra medalha/prenúncio do seu consumo/abrupto, sua súbita despedida./Ó cínica, és dada em nossa vida/a título do nosso futuro póstumo&lt;/em&gt; (p.20).&lt;br /&gt;E num acesso bocageano, dando conta do erotismo inter-étnico:&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Entrámos os três na cubata/e perante a minha hesitação/ele pede à bela Conceição/que levantasse o pano-bata./Ó celestial visão, doce tontura/vê-la de costas, pano à cintura,/uma perna sobre o catre/outra apoiada no chão do pó./Ó humana escultural figura, ó/beleza de fazer inveja à arte,/de enlouquecer quem fixar-te/as belas pernas até ao buraco/no centro do soberbo mataco.//Não resisti, fiquei como Priapo,/ela inclinou-se, gozámos o acto&lt;/em&gt; (pp. 193-4).&lt;br /&gt;Numa altura em que toma conta da conjuntura actual, o domínio da discussão ideológica sobre a descolonização, vale a pena ler como se processou a escrita da história e como se vive a descolonização das mentes, sobre a guerra.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="font-size:78%;"&gt;Notas:&lt;br /&gt;(1)   Freitas, Jorge (2004) “Livros de Guerra” in Expresso – Cartaz, pp. 12-3.&lt;br /&gt;(2)   Geraldo, Manuel (1973) Sangue negro, sangue branco e o suor da terra. Lisboa: Edições Plexo.&lt;br /&gt;(3)   Pacheco, Fernando Assis (1979) Walt ou o frio e o quente. Lisboa: Livraria Bertrand.&lt;br /&gt;(4)   Neves, José (2003) Esquadrão 149. A guerra e os dias. Gorjões: Edição de autor.&lt;br /&gt;Este livro pode ser solicitado a Adolfo Contreiras: 289 992 546 ou 966 298 473.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;p&gt;&lt;span style="font-size:78%;"&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;[coluna de 15 Fev. 04]&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/p&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt; &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/10766389-111523780775990844?l=helderfraimundo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/10766389/posts/default/111523780775990844'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/10766389/posts/default/111523780775990844'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://helderfraimundo.blogspot.com/2005/05/descolonizao-das-mentes.html' title='A descolonização das mentes'/><author><name>HFR</name><uri>http://www.blogger.com/profile/10958773275348751832</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-10766389.post-111499333790612136</id><published>2005-05-02T09:17:00.000+01:00</published><updated>2005-05-02T01:22:17.910+01:00</updated><title type='text'>Manifesto Contrasensus</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;Esta coluna completa, hoje, dois anos. A 1 de Maio de 2003 publicava um texto sobre José Cavaco Vieira, escrito de forma compulsiva aquando do conhecimento do seu fenecimento. A partir daí este pequeno espaço, em «A Voz de Loulé», passou a ter um nome: “Contrasenso”. Uma forma criativa de grafar a palavra contra-senso, muito equilibrada e estável para o meu gosto. Condições que esta coluna pretendia perturbar, na sua missão de questionar, de criticar, de interrogar. Durante estes dois anos muitos formatos passaram por aqui. Textos de pesquisa sobre literatura, poesia e educação; textos de crítica social, política ou cultural; pequenos posts sobre futebol, política, livros ou poetas. Aos leitores nunca pretendi ser indiferente. Provavelmente agradei a poucos e desagradei a muitos. Mas é essa a função dos colunistas. De textos vulgares, espécies de encómios políticos ou encomendas literárias - que nada adiantam a quem os lê – estão os jornais cheios. Esses nem os leio de tão vazios e politicamente correctos que são. Abrir as cabeças para o que está para além das palavras, perceber as mensagens subliminares da política, da cultura e do social é o desvelamento que o colunismo social deve fazer. Por isso nunca me alinhei pelo recorte ideológico de qualquer partido, ou pela patrulha cultural de qualquer cartilha. Mas também nunca me escondi por trás de pseudónimos ou em cartas anónimas. Sempre dei a cara no que escrevi aqui, ou no jornal «barlavento» para o qual sou habitualmente convidado, ou mesmo para o «Público», onde às vezes publico.&lt;br /&gt;Algumas das minhas últimas colunas têm obtido ecos de resposta de alguns visados. A nenhuma irei responder, a não ser que se ultrapasse a dignidade do debate. As palavras que se escrevem ficarão, sempre, com a marca de quem as emite. As polémicas serão a colheita dos leitores a quem cabe pensar e reflectir. Esta é também uma forma de “medo de existir”, na acepção de José Gil: o receio da crítica, o medo da polémica, o esconso do debate. O medo da partilha e do conflito social e cultural manifesta-se no desagrado com que se recebe a opinião alheia, veiculada por jornais ou por outras formas de media. Talvez devessem conhecer melhor o peso da opinião de alguma imprensa nacional ou internacional. E não ficar nesta modorra provinciana do jornalismo do burgo, no qual, quase sempre a crónica, a opinião, a coluna é comprada ou encomendada a assessores ou gabinetes. Onde a liberdade não existe. A verdadeira liberdade de pensamento e de opinião. O meio é pequeno e provinciano? Talvez! Mas mais ainda, é tão púdico que não aceita palavras como “merda”, em entrevistas ou manifestos. Bem, talvez devessem ler Camilo e Eça, Cesariny e Pacheco. Ou o poeta beatnick - um dos maiores da sua geração - Allen Ginsberg e um dos seus mais conhecidos poemas: “Merda”.&lt;br /&gt;Como diz Mia Couto, na sua crónica no «Courrier Internacional» de 15 de Abril, “os verdadeiros inimigos (...) moram na sua cabeça, são fantasmas que nunca serão aplacados. Derrubados uns, nascerão, de imediato, outros”. Muitos terão fantasmas perenes. Pois é. É para isso que os colunistas servem: afastar os fantasmas. Enquanto eles perdurarem, nunca cumpriremos a palavra. A mais bela de todas: a liberdade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;A partir de hoje iniciarei um formato sui generis nesta coluna: o convite a gente que pensa e escreve para, comigo, partilhar este espaço que se quer público e pluralista. A minha participação passará a ser mensal, no dia 1 de cada mês. Os convidados estarão sempre no jornal dos dias 15. No próximo número teremos aqui o meu primeiro convidado: Luís Guerreiro.&lt;/em&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;em&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/em&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;&lt;strong&gt;[coluna de 1 maio 05]&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/10766389-111499333790612136?l=helderfraimundo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/10766389/posts/default/111499333790612136'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/10766389/posts/default/111499333790612136'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://helderfraimundo.blogspot.com/2005/05/manifesto-contrasensus.html' title='Manifesto Contrasensus'/><author><name>HFR</name><uri>http://www.blogger.com/profile/10958773275348751832</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-10766389.post-111473282687032689</id><published>2005-04-29T00:53:00.000+01:00</published><updated>2005-04-29T01:00:26.870+01:00</updated><title type='text'>O QUE SE ESCONDE ATRÁS DO HINO DO ALGARVE?</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;Parece que vamos ter um hino no Algarve. Macário Correia, presidente da Câmara de Tavira e da Grande Área Metropolitana do Algarve, achou que os hinos estão na moda, nos congressos e nas campanhas. Vai daí, não quer ficar atrás da história, abre os cordões à bolsa e resolve lançar um concurso de 2500 euros para a criação de um hino que tenha a palavra Algarve no refrão. O argumento são os valores regionalistas e a imagem de marca cultural do Algarve. Mas apreciemos a coisa. Para justificar a descoberta o autarca lança umas ideias peregrinas sobre o Algarve. A ele parece-lhe que a história do território já está fechada. Depois dos califados muçulmanos passamos a província e depois a distrito. Tempo de ter um hino do distrito. Engraçado que os árabes, que passeavam a sua criatividade musical e artística entre Silves e Córdoba, nunca se tenham lembrado disso. Preferiam a sua veia intercultural, cantando as belezas do mediterrâneo, que afaga o sul da península e todo o Magrebe. Nem mesmo os nossos poetas líricos -- que tanto cantaram o Algarve -- , João Lúcio, Cândido Guerreiro, Emiliano ou Bernardo de Passos tiveram tão subtil ideia. Os seus poemas falavam das terras miscigenadas de lusos e árabes, judiarias e mourarias, olhando sempre o sul, essa terra caiada de branco e azul marinho que nunca se confinou verdadeiramente aos limites do Algarve. Mas Macário tem mais argumentos: o político (ou será o engenheiro?) considera que o Algarve constitui “uma unidade histórico-cultural”. Em tempo de diversidade biológica e cultural este argumento é tão redutor como dizer que Faro é a capital nacional da cultura. Mas desde quando é que os traços que delimitam administrativamente o distrito determinam a sua unidade? Não há qualquer identificação social, económica ou cultural entre as gentes do litoral, do barrocal e da serra. Qualquer estudante sabe isso. E sabe também que mesmo a memória cultural consagrou a expressão “Vou lá abaixo ao Algarve”, para designar a ida dos habitantes da serra algarvia ao chamado baixo Algarve. Para elas esse é o verdadeiro Algarve, o das cidades que sempre decidiram e impuseram o seu poderio sobre os serrenhos. As identidades constroem-se pelas partilhas sociais e culturais.&lt;/div&gt;&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/10766389-111473282687032689?l=helderfraimundo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/10766389/posts/default/111473282687032689'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/10766389/posts/default/111473282687032689'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://helderfraimundo.blogspot.com/2005/04/o-que-se-esconde-atrs-do-hino-do.html' title='O QUE SE ESCONDE ATRÁS DO HINO DO ALGARVE?'/><author><name>HFR</name><uri>http://www.blogger.com/profile/10958773275348751832</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-10766389.post-111453623869279156</id><published>2005-04-27T02:18:00.000+01:00</published><updated>2005-04-26T18:23:58.703+01:00</updated><title type='text'>José Carlos Fernandes a «A Voz de Loulé»</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;SEM A MÚSICA CLÁSSICA E O JAZZ, VIVERIA NUM MUNDO COM MENOS UMA DIMENSÃO&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Esta entrevista já estava pensada há muito. José Carlos Fernandes é daqueles autores de quem não dispensamos leituras: pela verve da sua refinada crítica social; por uma temática ilustrativa universalista; pela cultura musical e literária que jorra das suas micro-histórias. No ano passado deu-nos a honra de colaborar no suplemento cultural   [a cultura] que mantivemos neste jornal, legando-nos alguns desenhos cujos traços eram mensagens vivas do seu pensamento social enquanto desenhador. A ele dediquei uma das minhas colunas. O José Batista - que comigo partilha esta entrevista - conhece-o também há muito, e com ele passou muitas horas à volta das histórias da banda desenhada (BD).&lt;br /&gt;Por tudo isto preparámos a entrevista com um dos autores mais importantes da BD portuguesa de sempre, numa altura em que José Carlos Fernandes acaba de lançar, no passado dia 23 de Abril, na Biblioteca Municipal de Loulé, o seu mais recente livro de banda desenhada «A Última Obra-Prima de Aaron Slobodj», editado pela Devir. Esta obra sui generis e o estranho nome do autor da obra-prima são o pretexto para falarmos com José Carlos Fernandes. A entrevista começa, exactamente, por aí.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;strong&gt;«A Voz de Loulé» (VL):  Quem é Aaron Slobodj?&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;Aaron Slobodj foi um dos maiores artistas plásticos do século XX. Mas como se empenhou em produzir obras efémeras e voláteis, não granjeou grande reconhecimento, pelo menos junto do grande público. Além disso, foi uma figura rodeada por uma aura enigmática, a que não serão estranhas algumas imposturas e mistificações em que se envolveu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;VL:  As personagens que crias são o resultado das tuas leituras, mais do que das tuas vivências?&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;Uma mistura de ambas as coisas, com predominância para as leituras.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;VL:  Lemos as tuas histórias como literatura impregnada de música? Concordas?&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;Não estou muito certo. Gostaria que assim fosse, que a música conseguisse estar presente na BD, apesar de serem expressões artísticas muito diferentes. A BD é a minha forma de expressão, mas a música é para mim um foco de interesse tão forte como a BD. Fico satisfeito que alguns leitores sintam a sua presença nos meus livros.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;VL:  Dizes que lês mais para obter prazer do que para te inspirares na criação. Com a música que ouves, presumimos que se passa o mesmo?&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;Sem dúvida. Na verdade a maior parte da minha discoteca é constituída por música clássica e esta pouco ou nada me inspira na criação de histórias. Os contributos mais directos para a minha BD vieram, até agora, das margens do pop-rock contemporâneo: Laurie Anderson, Tom Waits. Mas de qualquer modo, quando ouço música não ando à procura de ideias, acontece é que tropeço nelas sem querer. Por exemplo, em "O detector de mensagens satânicas", no 1º volume de "A Pior Banda do Mundo", há uma frase que saiu do refrão dos Modest Mouse, uma obscura banda pop americana.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;VL:  Borges é recorrente nas tuas histórias disfarçado de “Leopoldo Nazca”? Tens muito autores preferidos na literatura, que te entram desenho adentro?&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;No caso de Borges, são dois gémeos, Leopoldo e Isidoro Nazca – é uma brincadeira com o conto de Borges "O outro". Há também um certo Simeon Lichtenstein que deve algo a Kafka. Há muitas influências literárias na minha BD, mas raramente assumem o corpo e o rosto de uma personagem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;VL: No campo da banda desenhada propriamente dita, que autores preferes?&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;Dave McKean/Neil Gaiman, Ben Katchor, Chris Ware, George Pratt, Jon J. Muth, Alberto Breccia, Hugo Pratt, Miguelanxo Prado, Loustal/Paringaux, François Bourgeon, François Boucq, François Schuiten/Benoît Peeters, Hermann, Steffano Ricci, Bill Watterson, Winsor McCay, Will Eisner, Seth, Tardi, Bilal. Entre os portugueses, Miguel Rocha, Filipe Abranches, João Fazenda.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;VL: Parece haver um fosso na criação de banda desenhada (BD) portuguesa, entre o período de autores e ilustradores dos tempos do “Mosquito” e outras revistas e o período actual. Como te sentes em relação à velha escola de BD em Portugal?&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;Tenho relações de amizade com alguns deles, nomeadamente com José Garcês e, sobretudo, com o nosso conterrâneo José Baptista – ao qual devo, aliás, preciosos conselhos de desenho. Mas, como criadores, pertencemos a mundos separados. Eles trabalharam numa altura em que esta era entendida (pelos editores, pelos leitores, pela sociedade) numa perspectiva muito fechada, de estrito entretenimento juvenil. Fizeram aquilo que se esperava deles, nesse contexto. Entretanto, nos últimos 20-30 anos, as fronteiras da BD dilataram-se incrivelmente, em termos de temática, grafismos, formas narrativas e é inevitável que tenha surgido esse fosso, que é alargado por quase não existirem representantes da geração intermédia entre quem anda agora nos 30-40 anos e os da geração com 60-70.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;VL: É habitual referir-se a tua entrada tardia na BD (em 1989, com 25 anos). No entanto és considerado  o mais prolífico autor de BD (quase 2000 páginas publicadas) em Portugal. Qual é o segredo?&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;Não creio que haja um segredo. Tenho muitas histórias para contar, sou persistente e imponho a mim mesmo uma organização prussiana. Manter as coisas organizadas dá trabalho a curto prazo, mas poupa imenso trabalho a médio e longo prazo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;VL: Pelas nossas contas, já acumulas três prémios no Festival da Amadora, três prémios Rafael Bordalo Pinheiro, dois primeiros prémios em concursos de BD, um prémio de humor e um terceiro lugar de edição internacional de BD em Espanha. Qual é o significado de tudo isto?&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;Sem querer parecer snob ou falsamente modesto, penso que os prémios nacionais de BD devem ser colocados em perspectiva: há anos em que saem 5 ou 6 livros de autores portugueses. Como publico muito e a maior parte dos meus colegas tem um ritmo bissexto, acontece que, por vezes, metade dos livros a concurso são meus. Os prémios e as críticas a nível internacional já têm outro significado – fiquei particularmente agradado quando o 1º volume de "A Pior Banda do Mundo" ficou em 3º lugar no top dos melhores álbuns de BD de 2002 a nível internacional de "La Guia del Comic", ou quando o 3º volume foi eleito como um dos 5 melhores álbuns de BD dos últimos 5 anos, a nível mundial, pela revista espanhola "Nemo".&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;VL: Publicas, semanalmente, ilustração a cor no «Diário de Notícias». É uma vertente que te interessa?&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;Muito. Já não falando na questão financeira, pois a ilustração para imprensa é mais bem paga do que a edição de livros de BD, se atendermos ao tempo investido em cada uma. É um desafio constante, ser confrontado com textos sobre os mais diversos assuntos e ter que conceber uma ilustração que transmita a essência desse texto, sem ser redundante. E com muito pouco tempo para pensar, pois recebo o texto na véspera ou no próprio dia em que tenho de entregar a ilustração. Há textos que me sugerem de imediato imagens (às vezes envio mais do que uma proposta), mas há outros que são muito abstractos e que me fazem passar horas a dar tratos à cachimónia. Agora comecei também a colaborar na revista mensal "Atlântico".&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;VL: Um dos teus gostos e prazeres preferenciais é a música. Para além de melómano preocupa-te a divulgação da música? Por exemplo, realizando audições de divulgação como fizeste na Biblioteca de Loulé?&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;É uma pena que as pessoas vivam alheias à existência de mundos tão ricos e fascinantes como os da música clássica e do jazz. É como viver num mundo com menos uma dimensão. Por ser complexa e por pertencer a um universo que pouco tem a ver com a esfera de convenções, representações e preocupações da sociedade actual, a música "erudita" está confinada a um limbo. Mas se se fizer um investimento de tempo e dedicação, oferece-nos recompensas sem preço. A música dá-nos de volta aquilo que nela investirmos – se não lhe prestarmos realmente atenção nunca passará de papel de parede sonoro; se a escutarmos atentamente pode mudar-nos a vida ou, pelo menos, a forma de a encararmos. No domínio da música clássica e do jazz sempre fui auto-didacta, o meu motor é a minha curiosidade. Mas a descoberta de um novo compositor, de uma nova obra, de uma nova intepretação, só faz para mim sentido se tiver alguém com quem a partilhar – daí o meu interesse na divulgação. Infelizmente, o público das sessões na Biblioteca foi muito escasso, embora dedicado e interessado. De qualquer modo gostaria de repetir a experiência, pois o feedback foi positivo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;VL: Uma das representações sobre o teu perfil é que vives isolado no meio rural, mas que conheces como ninguém os meandros do mundo urbano e cosmopolita. O que dizes a isto?&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;Gosto de viver no meio rural porque gosto de tranquilidade e porque as cidades se estão a tornar em lugares desagradáveis para se viver. Para não ir mais longe, Loulé já exibe os inconvenientes da "modernidade suburbana" sem deixar de ser profundamente provinciana e tacanha. Feitas as contas, não perdi nada e ganhei muito ao trocar Loulé pela serra. Por outro lado, sou um pouco simplório no que diz respeito ao "relacionamento social" e não tenho jeito nem apetência para viver num meio cosmopolita. Conheço muito mal os "meandros do mundo urbano e cosmopolita", mas mantenho-me a par, através da Internet e dos jornais e revistas, do que se vai fazendo na área da literatura, BD, ilustração, design, música clássica e jazz.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;VL: Para finalizar, gostariamos de te perguntar como vês o panorama da criação e da leitura de BD em Portugal?&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;Estão ambas em expansão, a criação e a leitura. A BD está a ganhar leitores dos estratos mais cultos, que tendo dos "livros aos quadradinhos" uma ideia estereotipada, não sabiam que a BD pode abordar temas mais complexos e profundos do que histórias de piratas para rapazes ou super-heróis apertados em fatos de lycra ao sopapo uns com os outros. É frequente, quer em Portugal quer em Espanha, falar com leitores que me dizem que não são leitores habituais de BD.&lt;br /&gt;Por outro lado, há em Portugal criadores muito interessantes, mas que parecem não ser movidos por nenhum impulso interno e só trabalham quando lhes acenam com remunerações atraentes – e isso, como se sabe, é quase impossível no nosso exíguo panorama editorial, onde um livro de sucesso de um autor de BD português vende 2000 exemplares. Face a estas limitações, a internacionalização é imprescindível à sobrevivência.&lt;br /&gt;Mas os workshops que tenho realizado em escolas do concelho deixam-me preocupado quanto ao futuro da literatura e da BD em Portugal (ou talvez devesse dizer "o futuro de Portugal"), pois encontro turmas inteiras que nunca leram um livro, para além daqueles a que a escola os "condena" – nem sequer lêem BD, que dantes era vista como a sub-literatura de que os jovens deviam ser afastados a todo o custo. E no entanto, nunca os livros foram tão acessíveis como hoje.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;VL: Podemos saber qual a tua próxima obra?&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;Estou a organizar ideias para realizar os volumes 7, 8 e 9 de "La Peor Banda del Mundo" (o nº6 está pronto desde 2003), que terão por título "O Teatro Vegetal Zucchini", "A Sede Provisória do Governo Mundial" e "O Atlas Ilustrado da Ilusão Humana".&lt;br /&gt;Além disso tenho estado a trabalhar em encomendas provenientes de Espanha. Estou a terminar uma BD sobre Emilio Salgari, que vai integrar um álbum colectivo a editar pela próxima Semana Negra de Gijón. Escrevi um guião para uma BD envolvendo Cervantes, Don Quixote e Sevilha, que será desenhado por Juan Manuel Fontenla e será publicado, em formato gigante, numa série intitulada "Osinvito: Comics de la Provincia de Sevilla", que é da iniciativa da Região de Turismo de Sevilha. Nessa mesma série, será apresentado, "Los toros de Tartessos", com guião meu e desenhos de Miguel Rocha.&lt;br /&gt;Em colaboração com Miguel Rocha, Roberto Gomes (que foi um dos alunos do workshop de BD que dei na Biblioteca de Loulé em 2003) e eventualmente outros desenhadores, estamos a preparar uma série de histórias curtas em vários volumes (escrevi 115 guiões, agora estou à espera que vão sendo desenhados). Esta série tem o título provisório de "Blackbox Stories"; ainda não há data de saída para o primeiro volume.&lt;br /&gt;Lá para o fim do ano sairá (em Portugal e Espanha) o 5º volume de "A Pior Banda do Mundo", "O depósito de refugos postais". É possível que pela mesma altura saia, com o "Correio da Manhã", na colecção "Clássicos da BD", um volume de 200 páginas que faz uma secção transversal da minha BD e inclui histórias inéditas ou esgotadas há muito.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Entrevista de Helder F. Raimundo e José Batista (Jobat).&lt;/em&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;&lt;/span&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;&lt;strong&gt;[a publicar em «A Voz de Loulé» de 1 maio]&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/10766389-111453623869279156?l=helderfraimundo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/10766389/posts/default/111453623869279156'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/10766389/posts/default/111453623869279156'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://helderfraimundo.blogspot.com/2005/04/jos-carlos-fernandes-a-voz-de-loul.html' title='José Carlos Fernandes a «A Voz de Loulé»'/><author><name>HFR</name><uri>http://www.blogger.com/profile/10958773275348751832</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-10766389.post-111399337457772276</id><published>2005-04-20T19:33:00.000+01:00</published><updated>2005-04-20T11:36:14.580+01:00</updated><title type='text'>Vieira: um perfil de ética humanista</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;A propósito das comemorações do centenário do nascimento de José Cavaco Vieira, ilustre cidadão altense, ocorreu-me pensar no também ilustre poeta que abriu caminho àqueles que por obras valorosas se foram da lei da morte libertando. Talvez porque Vieira tenha percorrido todo o século XX, vivendo diversos contextos sociais e políticos, sempre, mas sempre, com um valor intrínseco e elevado: fazer o bem!&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;A sua vida pautou-se por uma multifacetada diversidade histórica, equilibrando diversas dimensões humanas: em primeiro lugar uma dimensão humanista; em segundo lugar uma dimensão comunitária; em terceiro lugar uma dimensão artística eclética; e finalmente, em quarto lugar uma dimensão ecológica e histórica. Iremos ver, de seguida, como contribuiu para este perfil de complexidade.&lt;br /&gt;Durante o Estado Novo soube, de forma inteligente, acompanhar as suas obrigações políticas e ideológicas, com uma luta ténue, mas progressiva, em defesa das necessidades do povo da sua aldeia, que sempre amou. Quando no final dos anos 30, o governo de então lançou o programa da recuperação dos valores etnográficos nacionais, como forma de tornear os verdadeiros problemas sociais do país, ele viu muito mais longe. Foi ainda mais inteligente, e encarou a cultura tradicional, a música, a dança, a literatura oral, como um trampolim para a defesa da verdadeira identidade cultural local. E mais ainda, como uma forma educativa de participação social e empenhamento colectivo do povo e dos jovens da sua terra.&lt;br /&gt;Mas, em tudo, Vieira não se limitou a ser um intelectual distante, um sábio que da sua varanda debita ocas sapiências. Ele impregnou, tudo o que fazia, de exemplo educado e sabedor: cantou serenatas às raparigas, encarnou as personagens do teatro popular de Alte, dedilhou violas e violinos, rodopiou como ninguém nas tábuas de muitos palcos do país, escreveu a melhor prosa sobre os campos e os problemas do interior louletano… Tudo fez com um sentido educativo e deu os melhores contributos de cidadania, para as marcas que, hoje, Alte ostenta.&lt;br /&gt;Até nas coisas mais simples da vida, ele foi sabedor. Respeitava a natureza, as árvores do seu quintal e as coloridas plantas da sua aldeia. Todos os dias passeava junto à ribeira para ver se ela se mantinha livre e vívica como ele gostaria. Cozia a sua fruta e tocava sempre o seu violino antes de dormir, lembrando a sua esposa.&lt;br /&gt;Alguém lhe chamou o patriarca de Alte. Ele foi patriarca e matriarca, símbolo vivo e emblema, como lhe chamaram diversos amigos e concidadãos. Ele foi alma e coração de Alte. Todos o ouviam com prazer e escutavam as suas palavras sabedoras e profundas sobre a vida.&lt;br /&gt;Mesmo depois de deixar de exercer as suas tarefas profissionais e lúdicas, Vieira continuou a ser o principal obreiro das vidas da sua aldeia.&lt;br /&gt;E é por tudo isto que, este ano, comemoramos o centenário do seu nascimento, tornando perenes, através de diversas iniciativas públicas, as várias dimensões da sua vida.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;&lt;/span&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;[&lt;strong&gt;coluna publicada em «A Voz de Loulé» de 1Maio.03&lt;/strong&gt;]&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt; &lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/10766389-111399337457772276?l=helderfraimundo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/10766389/posts/default/111399337457772276'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/10766389/posts/default/111399337457772276'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://helderfraimundo.blogspot.com/2005/04/vieira-um-perfil-de-tica-humanista.html' title='Vieira: um perfil de ética humanista'/><author><name>HFR</name><uri>http://www.blogger.com/profile/10958773275348751832</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-10766389.post-111399303502020216</id><published>2005-04-20T19:25:00.000+01:00</published><updated>2005-04-20T11:30:35.023+01:00</updated><title type='text'>Conhecimentos nada obsoletos</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;José Carlos Fernandes (JCF) é de Loulé. Nasceu e vive por cá. Mas o que interessa, aqui, não é o facto de ser louletano. Não é só por ser louletano que é o que é. Isso deve-o a outro facto. Exactamente por ser um dos melhores autores de banda desenhada portugueses. E coloco a nacionalidade ali, no fim da frase, para torná-lo universal, pois se dissesse autores portugueses de banda desenhada estava a reduzi-lo a um cantinho que produz já mais BD do que a que é lida em Portugal. Estaria a reduzi-lo a uma escrita nacionalista, ou regionalista, coisa que a sua BD não é nem quer. Basta ler um livro qualquer de JCF para vislumbrar isso: uma visão do mundo, fora dos limites de Vilamoura ou da serra do Caldeirão, onde perpassam Jorge Luís Borges ou Mozart, Laurie Anderson ou Coltrane, o jazz e a filosofia, a monocultura da televisão, ou a veia sanguinolenta dos homens (e das mulheres). Mas são desenhos antitéticos, em que também perpassa a paz, uma flor na mão de um puto que procura algo, um aventureiro que por acaso é marinheiro que por acaso navega em Veneza, uma banda musical que prefere tocar as superfícies do mundo em vez de outras menos arrojadas pautas musicais.&lt;br /&gt;JCF é pouco conhecido em Loulé. Também que interessa isso? É mais conhecido em Lisboa! JCF é pouco lido no Algarve. Também que importa isso? É muito lido em Barcelona e no Brasil. Se as raízes nos aguentam os pés, de pouco nos servem para quando precisamos de vaguear a alma por esse mundo, um desafio imenso, mesmo que seja um mundo de desenhos. Mas JCF não é, redutoramente, apenas um autor de banda desenhada. Ou melhor, para além de um excelente desenhador, esconde no meio dos desenhos os balões que nos trazem a música, a literatura, a filosofia. E também isso permite que ele seja um dos autores mais premiados em Portugal. E que recentemente tenha ganho mais um prémio, que não vi relatado em lado nenhum. Por estas terras do Algarve, entenda-se! No último Festival Internacional de Banda Desenhada da Amadora voltou a vencer o prémio de “Melhor argumento para álbum português”, com a sua obra «A Grande Enciclopédia do Conhecimento Obsoleto» da série, já premiada, «A Pior Banda do Mundo». Uma obra de futuro que, tenho a certeza, nunca honrará o seu título. Algo que espero, todos esperamos, de José Carlos Fernandes. Parabéns amigo!&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;[&lt;strong&gt;coluna publicada em «A Voz de Loulé» de 1Dez.04&lt;/strong&gt;]&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/10766389-111399303502020216?l=helderfraimundo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/10766389/posts/default/111399303502020216'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/10766389/posts/default/111399303502020216'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://helderfraimundo.blogspot.com/2005/04/conhecimentos-nada-obsoletos.html' title='Conhecimentos nada obsoletos'/><author><name>HFR</name><uri>http://www.blogger.com/profile/10958773275348751832</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-10766389.post-111356868161463467</id><published>2005-04-15T21:35:00.000+01:00</published><updated>2005-04-15T13:38:01.616+01:00</updated><title type='text'>Teixeira Gomes e a Capital da Cultura</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;Há dias conversava com um amigo sobre as suas recentes leituras. Dizia-me ele – que organiza as suas leituras melhor do que as suas aulas – que nos últimos dias andou a ler os poetas e escritores algarvios, ou que escreveram sobre o Algarve, dos princípios do século passado: João de Deus, Raul Brandão, Emiliano da Costa e Teixeira Gomes. A propósito deste último autor conversámos sobre o seu excelente conto “Gente Singular”, uma história mágica e verdadeiramente esotérica, passada no centro histórico da cidade de Faro. Uma história cheia de humor, inteligentemente anti-clerical, e de linguagem e conceitos modernos para a época. Nesta sequência, lembrei-me de quão pouca gente conhece este belíssimo autor, de origem portimonense, negociante de frutos secos e presidente da república entre 1921 e 1923. E de como seria importante a Missão Faro, Capital Nacional da Cultura, em 2005, promover um congresso sobre Manuel Teixeira Gomes, ao invés de o fazer sobre António Judeu da Silva “O Judeu”. A mania de fugir das figuras algarvias e procurar uma dimensão pseudo-nacional é uma prova de vera saloice, isso sim!&lt;br /&gt;Entretanto, em conversa com o meu amigo Luís Guerreiro, fico a saber que a ministra da Cultura começa a colocar dúvidas ao formato das “Capitais da Cultura”. Ainda bem. Mais do que um programa para libertar energias criadoras nos agentes culturais regionais, ou mesmo lançar as bases de novas estruturas de produção cultural, as Missões servem, acima de tudo, para a promoção das políticas culturais de pequenos  poderes autárquicos, quase sempre assentes na ausência de conhecimento real das qualidades culturais de cada região. Aliás o exemplo da Missão Faro, Capital Naconal da Cultura, 2005 é um excelente paradigma do que acabo de dizer. Sobre isso já tive oportunidade de escrever e de ser lido anteriormente. Espero, por isso, que a actual ministra tenha a coragem de mexer neste projecto.&lt;br /&gt;Mas a minha maior surpresa ainda estava reservada no último número do «Algarve Académico», o jornal da Universidade do Algarve. Neste, o presidente da Missão “Faro, Capital Nacional da Cultura 2005” afirma que o projecto «procura integrar o Algarve nas redes de produção e difusão cultural de Portugal e do mundo». Presume-se que a ideia é o resultado do impacto do levante que se tem levantado de sueste até às escarpas de Sagres. Como se partíssemos, de novo num sonho de caravelas henriquinas, a conquistar os palcos e os escaparates de Madrid, Paris e  Londres, ao invés da costa de África e dos cabos tormentosos. Melhor seria que fosse. Mas não é. Porque o projecto não passa de um conjunto de eventos efémeros – mais uns que outros – que não se enraizam na cultura regional, nem mobilizam os agentes culturais do Algarve. Um projecto que ambiciona “novos públicos” – um conceito tecnocrático em moda, que neste caso trata os algarvios como gente que assiste – e esquece os verdadeiros actores culturais da região: todos aqueles que durante todo o ano trabalham para produzir acção cultural com as populações locais e regionais. No fim de contas, a Missão desta capital cultural, como aliás as anteriores, será uma espécie de foguetório cultural que arderá depressa, deixando apenas um rasto de lembranças nos despojos da festa.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;&lt;/span&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;[coluna de «A Voz de Loulé» de 15 de Abril 05]&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/10766389-111356868161463467?l=helderfraimundo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/10766389/posts/default/111356868161463467'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/10766389/posts/default/111356868161463467'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://helderfraimundo.blogspot.com/2005/04/teixeira-gomes-e-capital-da-cultura.html' title='Teixeira Gomes e a Capital da Cultura'/><author><name>HFR</name><uri>http://www.blogger.com/profile/10958773275348751832</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-10766389.post-111330824128016063</id><published>2005-04-12T21:16:00.000+01:00</published><updated>2005-04-12T13:17:21.293+01:00</updated><title type='text'>Entrevista a Daniel Vieira sobre o Plano de Revitalização de Alte</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;“ESTOU DESILUDIDO COM O PLANO DE REVITALIZAÇÃO DE ALTE”: Daniel Vieira em entrevista a «A Voz de Loulé»&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;strong&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;&lt;em&gt;Na aldeia de Alte, no concelho de Loulé, decorre o Plano de Revitalização de Alte, promovido pela Câmara Municipal de Loulé. Depois do “Concurso da aldeia mais portuguesa de Portugal”, pode vir a ser o plano de alteração estrutural mais importante da aldeia, desde então. Para perceber o que está a acontecer, «A Voz de Loulé» foi conversar com Daniel Vieira, lídimo habitante da aldeia, professor e artista plástico, um homem permanentemente preocupado com a imagem arquitectural da sua terra. E sobretudo com a face cultural exógena que ela transmite a quem a visita.&lt;/em&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;&lt;em&gt;&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;strong&gt;«A Voz de Loulé»: A propósito do Plano de Revitalização de Alte, os jornais falam “numa revolução na aldeia de Alte”? O que pensas desta expressão?&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;Eu penso que seria uma revolução se o Plano fosse executado como tínhamos pensado. Quando apareceu a possibilidade de utilizar os dinheiros que o engenheiro João Cravinho referiu que estariam à disposição reunimos, no meu atelier, eu, a dra. Irene Figueiredo e o presidente da Junta da altura, Rui de Sousa, e fizémos um programa durante várias noites.  Pensámos que isto iria mudar. Pensámos em comprar várias casas para fazer actividades culturais. Uma das casas, que tinha pertencido ao republicano Isidoro Rodrigues Pontes, onde decorreu a cultura do princípio do século (música, teatro, tertúlias) poderia servir para museu, um museu do pós-república, com imagens iconográficas da evolução de Alte até aos nossos dias. Também poderia haver um museu da música tradicional. Alte tem sido sempre terra musical e de teatro. Desde os princípios do século passado que Alte teve teatro, música, filarmónica. Como diz o meu amigo Natalino, o teatro em Alte tem sido sempre sincopado, quer dizer, tem tido altos e baixos, dado que recebeu influências dispersas de estudantes da terra, que vinham de Coimbra (com referências do teatro musicado) e de Lisboa (do teatro de revista). A música sempre foi uma constante. Tivemos uma filarmónica e na mesma casa de Isidoro Pontes se ensaiaram grupos de música com elementos femininos. O meu pai, quando veio de Lisboa, nos anos 30, criou o Grupo de Amadores de Música Altense.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;«A Voz de Loulé»: E pretendiam adquirir outras casas?&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;Sim. Outra das casas era a casa do morgado, a qual serviria, na parte antiga, para falar do passado de Alte até à queda da monarquia: arqueologia, história. E como o senhor conde de Alte e Marim, tinha oferecido a sua biblioteca e alguns objectos de uso pessoal, poder-se-ia construir uma biblioteca integrando o espólio do poeta Cândido Guerreiro.&lt;br /&gt;Outro objectivo seria recuperar casas degradadas para alugar a pessoas que quisessem vir para cá, porque esta terra tem falta de gente. Isso é que seria uma revolução.&lt;br /&gt;Eu sinto-me quase defraudado. Não posso falar mal do que estão a fazer mas não é bem o que tínhamos pensado. Este plano andou a servir de propaganda política, da Câmara e da Junta, da altura, durante muito tempo. Eu e a Irene [refere-se à dra. Irene Figueiredo] até fizémos um escrito, um dossier, com fotos e tudo, para entregar à Câmara Municipal de Loulé, e a Junta de Freguesia de Alte ficou com uma cópia. Mas a Câmara perdeu o dossier que foi entregue directamente ao senhor presidente da altura. O que é certo é que a Junta também perdeu, o que acho muito estranho. O que veio de lá, dos técnicos da Câmara, não teve muito a ver com o que tínhamos proposto. &lt;br /&gt;Revolução cultural é feita a partir das pessoas. Revolução urbanística é o que se está a passar e não tem nada a ver connosco. Mas as pessoas da terra não dizem nada, põem-me a mim nos cornos do touro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;«A Voz de Loulé»:  Como tem sido habitual, o Plano foi debatido e assumido pela população local.  Ou não?&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;Sim, o Plano foi discutido. As associações de Alte discutiram o plano. A Câmara Municipal de Loulé veio cá para discutir, mostravam à gente o que queriam fazer. Mas não era nada do projecto inicial. A Câmara constituiu cá um gabinete, mas queríamos a Isabel Raposo [arquitecta, autora de estudos sobre Alte e do livro «Alte, na Roda do Tempo»] mas não sei porque não foi convidada pela Câmara. Veio para cá o arquitecto Luís Guerreiro. Eu levei-o aos locais dos projectos. Na altura confiei, mas acabei por me desiludir, ao verificar as obras que projectou. Reconheço o valor arquitectónico da sua obra, mas não a considero apropriada e integrada na minha aldeia.&lt;br /&gt;Mas eu tenho a certeza absoluta que não foi o projecto que se está a concretizar que se aprovou. Por exemplo, sobre a casa do morgado, onde se está a instalar a biblioteca- museu condes de Alte, não era nada daquilo que pensávamos. O arquitecto tentou integrá-la no contexto da aldeia mas não conseguiu. Não a devia ter alterado tanto, dado que era uma casa centenária. Um dia encontrei o padre Marim e vi que ele estava triste e compreendi a tristeza do homem e disse-lhe: senhor prior não está sózinho. Estava descontente com o que tinham feito com a casa do seus antepassados. A integração da casa não está bem, olha-se e a casa parece um “ferrero rocher” (aquelas caixas de plástico para chocolates), porque tem vidros a todo o comprimento a fingirem de platibanda e um telhado de aço, que pode ser das técnicas mais modernas mas não está bem, porque a casa ficou muito transformada. A comissão local deveria reunir e falar sobre aquela construção. A chaminé da casa foi capada. Parece que se quis preservar a chaminé mas o que se fez foi pôr-lhe um preservativo de vidro em cima. Era melhor deixá-la como estava ou então que fosse retirada para ficar como monumento. Outro aspecto é o do pátio que foi transformado numa varanda, pintada com tinta vermelha, em vez de ser ladrilhado, como é hábito no local. Repare-se, nós vamos ao Museu de Arte Antiga, em Lisboa, por exemplo, e podemos passear por pátios com árvores e recantos para ler e este museu não tem nada disso. Achei piada como se gasta o dinheiro do país: tiraram terras, voltaram a pôr terras e só gastaram dinheiro. Podiam ter feito uma cave que era mais útil, para depósito de materiais, mas o arquitecto disse-me que a cave ficava muito cara. Ora, o dinheiro daqueles execráveis vidros e do movimento de terras daria, concerteza, para fazer a cave.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;«A Voz de Loulé»:  Mas a aldeia tem que se transformar, não concordas?&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;Numa aldeia cultural como Alte, com um passado cultural e tradicional, não quer dizer que queremos o saudosismo ou viver na idade média, mas o chão da biblioteca porque é que é pintado de vermelho, ou de branco pintado com risca vermelha? O chão podia ter solos antigos, para mostrar às pessoas vários tipos de tijoleira, como fizémos na Junta de Freguesia. Aquela casa tanto pode ser em Almancil, como na China. Em Almancil ficava bem, porque é uma terra do litoral e de construções de traça moderna. Se Alte é uma terra tradicional, o que é que o turista vem cá fazer? É enganado. Eu não sou adepto dos palheiros, mas porque é que não se fez um telhado? Eu não concordo que se tivesse tirado o telhado. No outro dia, no Minho, vi uma casa bestialmente integrada com os telhados interessantes, com clarabóias. Esta malta nova, agora, copia tudo dos livros, não sabendo integrar as obras nos sítios devidos. Será isso que chamam a arquitectura minimalista? Querem deixar uma marca mas era bom pensar que marcas se devem deixar. Siza Vieira, ao recuperar o Chiado, adaptou o seu projecto ao local. Os arquitectos fazem obras modernas mas integradas. Eu nunca irei pôr os pés naquela biblioteca para ler, porque a casa é “fria”, parece um hospital.&lt;br /&gt;Mas o meu povo de Alte é muito esquisito. Não gosta das obras que estão a ser feitas, critica nos cafés e não nos locais próprios.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;«A Voz de Loulé»: Mas o Plano de Revitalização é feito de muitos outros projectos? &lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;A Casa da Criança é do mesmo estilo, mas como está escondida não se vê tanto, não choca muito. Apesar disso, tem uma parede alta que parece uma prisão, e por causa desse muro não deixa ver a escola antiga. Alte não quer prisões!&lt;br /&gt;Sobre o arranjo da ribeira, como nunca se fez nada na queda do Vigário, acho bem feito o que vão fazer: um café! Talvez se salve o cheiro, pois o Vigário em vez de ser uma paisagem bucólica é um esgoto de merda por causa da estação de tratamento.&lt;br /&gt;A Escola Profissional ficará melhor situada, porque na actual os alunos quase não têm espaço para estar. O parque de jogos está bem colocado. O projecto do pavilhão multiusos ainda bem que caiu, pois ia estragar toda a vista de Alte. Esta gente ainda não percebeu que os turistas querem ver coisas diferentes. Se chegam cá e vêem o mesmo que em qualquer outro lado, nunca mais voltam, porque se sentem defraudados e enganados.&lt;br /&gt;Quando estava em Lisboa trabalhei com um arquitecto - Walfred Sangaro de La Cavalaria -,  um dos autores do livro «Arquitectura Popular em Portugal», que me perguntava qual era a minha terra. Quando lhe disse que era de Alte, ele disse-me que conhecia a minha aldeia como a palma das suas mãos, pois tinha trabalhado por cá. E então deu-me um conselho: “A arquitectura vai mudar muito! Por isso, defende a tua terra com unhas e dentes. Na verdade eu sou arquitecto, mas foi o povo, que  construiu a tua aldeia, o seu verdadeiro arquitecto e por isso defende-a, aconselha a que as pessoas arranjem bons técnicos e arquitectos para a defender”. Nunca mais me esqueci disto. Pode-se modernizar, mas fazendo um bom casamento entre o antigo e o moderno.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;«A Voz de Loulé»:  Então e o teu velho sonho de um anfiteatro “à grega” na Fonte Grande?&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;O anfiteatro, se vai ser da mesma linha das outras coisas, também acho que não se devia gastar dinheiro ali. Eu sempre vi um anfiteatro simples, à “grega”. Podia-se passar a cultura mediterrânica, podia-se ter feito tudo aqui. Mas estou a ver a mesma linha de arquitectura. Agora, até queriam que os assentos fossem de pedra polida. Ora, eu sento-me lá há 60 anos e nunca me queixei do cú. Aquilo que era um sítio rústico, romântico... mas parece que o arquitecto tem razão, as coisas foram aprovadas por nós todos. Mas mediante o que se vê na Casa da Criança e na Biblioteca, ninguém sabe o que é que dali vai sair. Acho que as pessoas não ligam nada. Acho estranho que a comissão não faça nada, apesar de no outro dia não ter aprovado as pedras polidas. Se calhar vão estragar o monte. Eu e o Joaquim Mealha [ex-técnico de desenvolvimento da Câmara Municipal de Loulé] achámos que realmente o melhor sítio seria um bocado mais abaixo, a sul, em frente à ponte de pedra. Mas todos aprovaram aquele local, por causa do palco. Mas se vão fazer outro no chão, não destruiam a  montanha. Infelizmente, já deitaram muitas árvores abaixo.&lt;br /&gt;Eu hoje já estou arrependido, de quando apresentava os festivais de folclore e referia a beleza que poderia ter um anfiteatro na Fonte Grande, porque tenho receio do que ali poderá surgir. E lembro a palavra de um altense que disse, com desgosto, que o que há de mais bonito em Alte está a ser destruido.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;«A Voz de Loulé»: Até que ponto é que o Plano muda a face tradicional da aldeia de Alte?&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;Este tipo de projectos são agressivos em relação ao resto da aldeia. O  arquitecto Luís Guerreiro diz que há outros elementos agressivos e que ninguém falou. Na verdade, como disse atrás, um bom casamento é entre arquitecturas antigas e modernas. Mas esse casamento dá trabalho. O que está a acontecer em Alte abre um precedente e agora já ninguém pode proibir qualquer merda que se queira fazer na aldeia.&lt;br /&gt;O problema da má arquitectura já existe há muito tempo. Tanto eu como a Isabel Raposo tínhamos a ideia de fazer deste plano uma escola de arquitectura, integrada com a realidade de Alte. Como é apanágio de Marvão ou de Monsaraz, ou de Óbidos. Para que é que a Isabel escreveu um «Manual de construção»? Fez um livro que não serviu para nada! A Câmara agora não terá moral para proibir qualquer outro projecto deste tipo. A Junta e a Câmara não têm o direito de proibir qualquer mamarracho que se faça aqui.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;«A Voz de Loulé»: O que mais te preocupa nesta mudança estrutural na aldeia? Porque é disso que se trata, ou não?&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;Eu sou a favor das mudanças, o Camões dizia que todo o tempo é composto de mudanças, mas eu vejo que as mudanças que se estão a passar aqui podem estragar a imagem e a alma da minha aldeia. São capazes de afugentar os turistas. Mas eu pergunto: o que é que o turista vem ver aqui? Se eles se sentem aldrabados e enganados, porque  não vêm ver nada do que lhes divulgam nos folhetos, nunca mais cá voltam. De contrário até seriam capazes de alugar uma casa para cá ficar. A haver mudança, seria uma mudança das pessoas, ver mais além do que alcança a nossa vista, como dizia o poeta Aleixo. Mudar as mentalidades deste povo, essa seria a verdadeira mudança.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;(Entrevista de Helder Raimundo)&lt;br /&gt;&lt;/em&gt; &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/10766389-111330824128016063?l=helderfraimundo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/10766389/posts/default/111330824128016063'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/10766389/posts/default/111330824128016063'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://helderfraimundo.blogspot.com/2005/04/entrevista-daniel-vieira-sobre-o-plano.html' title='Entrevista a Daniel Vieira sobre o Plano de Revitalização de Alte'/><author><name>HFR</name><uri>http://www.blogger.com/profile/10958773275348751832</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-10766389.post-111357074166980447</id><published>2005-04-11T02:07:00.000+01:00</published><updated>2005-04-15T14:12:21.673+01:00</updated><title type='text'>As árvores da Sacadura Cabral</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;Ainda há uns meses lá estavam, as árvores da Rua Sacadura Cabral. Eram como duas linhas de verde, acompanhando quem subia a rua, deixando passar as nesgas de sol sobre a calçada. Nunca soube que árvores eram. Talvez agora que elas já não estão lá, me interesse o seu nome, saber os anos que tinham, a dimensão da sua copa, a altura do seu tronco. Sei que uma delas tem pelo menos um metro de diâmetro na raíz. Sim, porque a raíz, por onde cresceu e que alimentava de seiva os ramos e as folhas, ainda permanece, depois de decepada, como a base de uma estátua a quem cortaram a cabeça e depois o tronco. Penso em quem teria plantado estas árvores. Quem teriam sido os homens ou mulheres que num dia qualquer de Março, talvez debaixo de chuva, se debruçaram na terra e colocaram - com o afecto paternal destes momentos - uma semente ou uma pequena planta, no seio da terra-mãe? Quem se teria preocupado em cuidar destas dezasseis árvores, alinhadas lado a lado e frente a frente, como um exército que protege os moradores, do vento, do sol e serve de poiso às aves que cantavam todas as tardes quando o sol se punha sobre as areias de Quarteira? Nunca saberemos! Tal como nunca saberemos porque desapareceram elas, cortadas uma a uma junto ao solo, perto do chão que há muito tinham abandonado, pois eram altivas, sobranceiras, olhando do alto, a calçada do chão, os transeuntes que passavam, as crianças que corriam no passeio ou os gatos que petiscavam cabeças de sardinha à sua sombra. Talvez os nossos olhos não pudessem ver os edifícios da rua, as casas térreas ou as nobres moradas, porque batiam sempre no verde das folhas? Hoje, ao colocarmos o nosso olhar, a perspectiva não tem obstáculos, vimos tudo no perímetro da rua, porque as árvores já lá não estão, mostrando-se mais vaidosas que as casas. Como se nos falassem que não são apenas bonsais de decoração em jardins de hipermercados, oliveiras colocadas em jarras, podadinhas e arranjadinhas como as plantas na mesa de uma sala de jantar qualquer. As árvores da Rua Sacadura Cabral eram livres, cresciam direitas ao céu, e diziam que a sua função era outra: proteger de sombra a calma do sol sobre os ombros de quem as plantou, dar abrigo e comida às aves que em troca cantavam para elas, todas as tardes, encher os pulmões de quem dorme nas casas ao seu redor. Por isso se colocaram ali e dali não despegaram, anos e anos, à chuva e ao sol, como elas só, sabem resistir. Apenas a mão do homem, o mesmo que lhes deu vida, pôde dar-lhes este  fim tão imerecido.&lt;br /&gt;Mas esta é uma moda que se pega, um contágio que se dissemina. Em Silves, junto das muralhas velhas do castelo, também as espécies invasoras, como os ailantos foram arrancadas e, com elas, todas as outras, espécies de valor botânico e cultural como a pimenteira. Em Loulé, talvez tenha sido o edifício que vai albergar o novo Arquivo Histórico que se sobrepôs à presença das árvores. Talvez. Talvez se pense que o nosso olhar bebe melhor a limpidez vazia da paisagem, a casa no deserto sombrio. Mas não. A cal da parede esmorece ao sol; ninguém se abrigará da chuva na rua frente às casas; os ruídos dos carros nunca serão quebrados pelo chilreio dos pardais; ninguém verá mais, gatos e cães dormitando na rua. A Rua Sacadura Cabral ficará limpa, mas vazia de paisagem. Como um pulmão jovem, mas doente, porque lhe falta o oxigénio da vida. A vida nas cidades modernas - como diz o arquitecto Ribeiro Teles - não tem futuro se continuar a respirar o ar do alcatrão, do betão e da pedra. As cidades viverão se souberem manter os pequenos pulmões dos jardins, dos pequenos bosques e pomares, das árvores plantadas no seu seio. Como eram as árvores da Rua Sacadura Cabral, em Loulé.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;&lt;/span&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;[coluna de «A Voz de Loulé» de 1 março 05]&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt; &lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/10766389-111357074166980447?l=helderfraimundo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/10766389/posts/default/111357074166980447'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/10766389/posts/default/111357074166980447'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://helderfraimundo.blogspot.com/2005/04/as-rvores-da-sacadura-cabral.html' title='As árvores da Sacadura Cabral'/><author><name>HFR</name><uri>http://www.blogger.com/profile/10958773275348751832</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-10766389.post-111274449971461294</id><published>2005-04-05T20:37:00.000+01:00</published><updated>2005-04-06T00:45:38.603+01:00</updated><title type='text'>O regresso da política aos campos</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;Ao ler o “Expresso” de 20 de Dezembro e o “Diário de Notícias” de 22 do mesmo mês, atentei na notícia da inauguração de uma biblioteca em Celorico de Basto, no distrito de Braga, a qual adoptou a designação Biblioteca Professor Doutor Marcelo Rebelo de Sousa. Esta notícia trouxe-me à memória outras iniciativas, que têm povoado o interior do país - esquecido das políticas centralizadoras de desenvolvimento – de nomes sonantes da política, das artes e das letras.&lt;br /&gt;Por um lado, mostra que a nossa ancestralidade comum – dos que vivem nas cidades e dos que vivem nos campos - tem origem nos territórios agrários, dos tempos das economias agro-pastoris, antes do abandono da agricultura, do fenómeno da desertificação populacional e ecológica, do envelhecimento dos campos e da macrocefalia política, económica e demográfica. Por outro lado, mostra que a forma que a nomenclatura política encontra para colmatar e resolver estes males, são o regresso das marcas do poder central, ao campo: nomes, dádivas, o regresso de diversos responsáveis políticos às vilas e cidades do interior. A este propósito podemos verificar que, hoje, as principais autarquias do país são presididas por antigos governantes e deputados. Será a preocupação com o desenvolvimento das terras periféricas? Ou ainda um fenómeno incipiente de descentralização ou desconcentração dos poderes centrais? Ou então uma forma sui generis de promover a regionalização? A mim, faz-me sempre lembrar aquela excelente forma como alguém caracterizou um artista do interior rural: em Lisboa é um exótico aceite, pela intelectualidade, como uma figura folclórica e ruralista, prenhe de saber popular e graça brejeira; na sua terra é sempre um lisboeta, sabedor, venerado, um doutor.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;No fim de contas este complexo fenómeno encerra uma simples verdade: o poder central, ao mesmo tempo que solidifica cada vez mais os seus poderes longe dos cidadãos, estende as suas raízes de cultura política de forma a reproduzir os seus valores e poderes nas periferias, assim cada vez mais afastadas do poder.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;&lt;/strong&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;[publicado em «A Voz de Loulé» de 1Jan.2004]&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;/strong&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/10766389-111274449971461294?l=helderfraimundo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/10766389/posts/default/111274449971461294'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/10766389/posts/default/111274449971461294'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://helderfraimundo.blogspot.com/2005/04/o-regresso-da-poltica-aos-campos.html' title='O regresso da política aos campos'/><author><name>HFR</name><uri>http://www.blogger.com/profile/10958773275348751832</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-10766389.post-111870650558075469</id><published>2005-03-31T01:41:00.000+01:00</published><updated>2005-06-14T00:48:25.623+01:00</updated><title type='text'>Eugénio de Andrade: uma solaridade perfeita</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;A «Fólio Edições», acabou de editar uma obra de homenagem ao poeta Eugénio de Andrade. E o livro tem exactamente este título «A Jeito de Homenagem a Eugénio de Andrade». Um livro sobre este autor é sempre um contentamento contente, ao contrário do que dizia o outro poeta, Camões. Quando não é um livro sobre Eugénio é um livro de Eugénio. E isso só valoriza a nossa cultura e quem o lê. Já o dissemos aqui. Eugénio de Andrade é um dos nossos poetas vivos mais importantes. É de todos o que mais gosto, apesar da frase ser tão óbvia quanto blasfema, quando temos Ramos Rosa, Casimiro de Brito, Herberto Hélder. Mas ninguém como Eugénio trata o âmago da palavra simples, dá à rosa a sua verdadeira tonalidade, revela a ternura malévola do gato, com toda a delicatessen, de aristocrata da palavra. É talvez por isso que Mário Cláudio escreve – a páginas 23 do livro – num bilhete: “Não lhe trago rosas Eugénio, só palavras.». Palavras e rosas, rosas e palavras, um mundo feio tornado belo por Eugénio. Mas o livro está cheio de palavras de outros poetas e escritores, do Brasil, de Portugal, do Uruguai, da Argentina, de Espanha. São quase 500 páginas de luz do sul, penumbra das neves transmontanas e rosas de inverno, envoltas numa capa dura que revela o poema inédito e matricial  “Improviso”:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Uma rosa depois da neve.&lt;br /&gt;Não sei que fazer&lt;br /&gt;de uma rosa no inverno.&lt;br /&gt;Se não for para arder&lt;br /&gt;ser rosa no inverno de que serve?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eugénio de Andrade fez, há dois meses, 82 anos e quando nasceu chamou-se José Fontinhas, nome que nunca o acompanhou na vida literária. Só em “Narciso”, pequeno volume de poemas estimulado por António Botto, usa o seu verdadeiro nome, que abandona em «Adolescente» o seu primeiro livro de poemas, editado em 1942. Depois daí foi-nos enchendo de palavras simples e belas em poemas curtos, onde quem manda é a natureza: As Mãos e os Frutos (1948), Os Amantes sem Dinheiro (1950), As Palavras Interditas (1951), Até Amanhã (1956), Coração do Dia (1958), Mar de Setembro (1961), Ostinato Rigore (1964), Antologia Breve (1972), Véspera de Água (1973), Limiar dos Pássaros (1976), Memória de Outro Rio (1978), Rosto Precário (1979), Matéria Solar (1980), Branco no Branco (1984), Aquela Nuvem e Outras (1986), Vertentes do Olhar (1987), O Outro Nome da Terra (1988), etc. Com este último livro ganha, em 1989, o Grande Prémio de Poesia da Associação Portuguesa de Escritores. Nesse mesmo ano, recebeu o prémio Jean Malrieu para o melhor livro de poesia estrangeira publicado em França com a obra Blanc sur Blanc.&lt;br /&gt;Apesar de desenvolver actividade profissional como um simples funcionário público – como gosta de referir – Eugénio de Andrade desenvolveu outras actividades complementares da poesia, tendo sido tradutor – de García Lorca por exemplo – e ainda editor. Em 1991, um grupo de amigos cria a Fundação Eugénio de Andrade, talvez a sua obra mais sistemática.&lt;br /&gt;Do poeta diz, Maria Alzira Seixo, que a sua poesia é “muito sensual e literária, plástica e musical”, atributos visíveis em qualquer um dos seus poemas. Como neste:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os navios existem, e existe o teu rosto&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;encostado ao rosto dos navios.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;Sem nenhum destino flutuam nas cidades,&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;partem no vento, regressam nos rios.&lt;br /&gt;As palavras que te envio são interditas&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;até, meu amor, pelo halo das searas;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;se alguma regressasse, nem já reconhecia&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;o teu nome nas suas curvas claras.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;&lt;br /&gt;Serafim Ferreira fala, por outro lado “na clara solaridade vocabular que em todos os seus poemas se patenteia com exuberância”. Pois é. Os poemas de Eugénio adivinham o sol por detrás das nuvens de hoje, enchem-nos os olhos e a alma de luz, uma luz tão certeira e fixa como o seu desejo sobre o mundo.&lt;br /&gt;Também eu tenho o meu eleito. O poema que me serviu de alimento intelectual, relacional e de transgressão total. Do livro «O Peso da Sombra»:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Inventarei o dia  onde contigo&lt;br /&gt;e o outono corra pelas ruas.&lt;br /&gt;A luz que pisamos é tão perfeita&lt;br /&gt;que não pode morrer, como não morre&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;o brilho do olhar que te viu despir.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;&lt;strong&gt;[publicado em «A Voz de Loulé» de 15Março.05]&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;&lt;br /&gt; &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/10766389-111870650558075469?l=helderfraimundo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/10766389/posts/default/111870650558075469'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/10766389/posts/default/111870650558075469'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://helderfraimundo.blogspot.com/2005/03/eugnio-de-andrade-uma-solaridade.html' title='Eugénio de Andrade: uma solaridade perfeita'/><author><name>HFR</name><uri>http://www.blogger.com/profile/10958773275348751832</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-10766389.post-111083259629404930</id><published>2005-03-15T04:25:00.000Z</published><updated>2005-03-14T20:36:36.300Z</updated><title type='text'>Casimiro de Brito, um poeta abandonado</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;               &lt;span style="font-size:85%;"&gt; Há muitos dias que ando com este poeta na cabeça. Não porque o tivesse encontrado agora, mas sobretudo pela ausência de referências, a si e à sua obra, na cidade de Loulé, que o viu nascer.&lt;br /&gt;                Conheci a poesia de Casimiro de Brito,  em Portimão, pouco antes do 25 de Abril de 74, ao ouvir as declamações clandestinas de outro grande poeta de Portimão, companheiro de Casimiro, Candeias Nunes. Na época falava-se da plêiade poética algarvia, dos anos 50-60, onde pontificavam ainda, para além dos dois referidos, Gastão Cruz e Nuno Júdice, sob a influência do seu mentor poético António Ramos Rosa. Estes poetas organizavam-se em movimentos informais poético-artísticos, dando a conhecer as suas ideias e obras poéticas, através de cadernos editados e vendidos pelos próprios, dos quais os mais importantes foram talvez os Cadernos do Meio-Dia, de Faro.&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;               &lt;span style="font-size:85%;"&gt; Em Loulé, Casimiro de Brito, então com apenas 18 anos, já participava nestas tertúlias e criações poéticas e dá corpo ao chamado Movimento Prisma, fundando uma página literária no jornal local «A Voz de Loulé», nesse período sob a direcção de Jaime Guerreiro Rua. O primeiro número da página cultural de nome “Prisma de Cristal” surge n’ «A Voz de Loulé», nº 94, de 16 de Outubro de 1956. Em torno desta página, o poeta agregou à sua volta, e publicou conteúdos culturais de muitos jovens, mais tarde consagrados nomes das letras e artes, como Ramos Rosa, Eduardo Olímpio, Afonso Cautela e Maria Rosa Colaço, entre outros.&lt;br /&gt;O “Prisma de Cristal” edita 26 números, durante cerca de 28 meses, terminando a sua vida cultural nas páginas do jornal local, nº 175, de 15 de Fevereiro de 1959. Durante a sua edição Casimiro de Brito saíu de Loulé para estudar em Faro, seguindo mais tarde para Lisboa.&lt;br /&gt;Foi nas páginas do “Prisma de Cristal” que Casimiro de Brito publicou os seus primeiros poemas de juventude, tendo escrito ainda sobre arte, cultura, poesia, cinema, filosofia. Foi nessas páginas que dissertou sobre os movimentos poéticos, que lançou o seu Movimento Prisma, que apontou o seu gume crítico ao conservadorismo cultural. Foi aqui que formou e treinou o seu espírito progressista, a sua veia crítica, a sua busca de liberdade.&lt;br /&gt;«A Voz de Loulé» dá também conta, em primeira página de Janeiro de 1958, em artigo de João Leal escrito de Faro – também colaborador de “Prisma” – da publicação do primeiro livro do poeta Casimiro de Brito “Poemas da Solidão Imperfeita”, em edição de autor.&lt;br /&gt;Lembro de ter comprado nos finais dos anos 70, dois livros do poeta: “Negação da Morte”, editado em 1974 pela Plátano, um livro de poesia em seis cantos, em defesa da liberdade; e “Um Certo País ao Sul”, editado pela Seara Nova, em 1975, libelo contra a injustiça e a guerra, composto por crónicas escritas entre 1961 e 1974. Nestes anos de crise, volto a devorá-los escutando as queixas do poeta.&lt;br /&gt;Casimiro de Brito é um poeta compulsivo e a sua produção poética e narrativa é permanente, sem ceder a facilidades produtivas ou editoriais. Mais recentemente, em 2001, a Campo das Letras deu à estampa “Na Barca do Coração” e no ano passado, a Quasi Edições publicou “Labyrinthus”, depois de outros três livros do poeta, um dos quais em parceria com Ramos Rosa. Há anos que Casimiro anda escrevendo os fragmentos de “O Livro das Quedas”, segundo ele o seu último livro, mas entretanto trabalha ainda outro inédito “Animal Volátil”. Entretanto a editora Roma dá-nos na colecção “Faces de Vénus” uma obra do poeta em co-autoria com Annabela Rita, “Labirinto Sensível”.&lt;br /&gt;Casimito de Brito, poeta nascido em Loulé, ombreia –arrisco a afirmá-lo – com o grupo dos mais importantes poetas contemporâneos vivos, alfobre onde se encontram, entre outros, Eugénio de Andrade, Hérberto Hélder, Ramos Rosa.&lt;br /&gt;Só um poeta de arrojo poderia ter escrito em 1956, com 18 anos:&lt;br /&gt;Tenho-a no meu colo/ a mulher que vai além/ na rua.../ Tenho-a no meu colo/ apertada em meus braços/ bela e nua...&lt;br /&gt;E em 1999, aos 61 anos:&lt;br /&gt;Sentado no mar que se senta/ a teus pés/ Acaricias um cão na praia deserta. A memória/ insinua-se em palavras que não sabes/ decifrar; areia tecida/ num alfabeto rigoroso. Respiras/ o mar que flutua/ na tela do olhar, nos barcos que brilham/ na mesa das águas. A luz/ em cascata. A teia da morte/ sacralizada/ em cada acto.&lt;br /&gt;Procurei as palavras de Casimiro, na cidade que o viu nascer. Só as encontrei nas velhas páginas de «A Voz de Loulé», amarelecidas de quase 50 anos, no Arquivo Histórico de Loulé. Na livraria da terra, nada de Casimiro para comprar; há muito tempo atrás “Na Barca do Coração”, agora nada. Na biblioteca municipal – que não tem o seu nome, e que bem ficaria desenhado a curvas suaves, com o arabesco mediterrânico dos seus erres e esses, mas pontuado com a verticalidade dos seus is – também o vazio, nem um livro para lembrar aos louletanos que Casimiro está vivo e escreve da melhor poesia que se faz em Portugal.&lt;br /&gt;Em Faro, Ramos Rosa é nome de Biblioteca, os seus livros espalham-se pela cidade, o seu nome evoca-se momento a momento nas novas escritas e movimentos da cidade. Em Loulé, o seu amigo e companheiro Casimiro de Brito é abandonado.&lt;br /&gt;Derramem-se os seus livros sobre as calçadas, declamem-se as suas palavras, para não o ouvir cantar, magoado:&lt;br /&gt;(...) e eu um louletano com milhões de sonhos/ tão longe e tão perto na escala do tempo/ Loulé minha terra natal/ tão longe e tão perto de mim/ como és grande e pequena Loulé assim.&lt;br /&gt;Aqui, outra vez «A Voz de Loulé», desta vez a cultura, está aí. Também para lembrar, conhecer, ler e admirar o poeta louletano Casimiro de Brito.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;&lt;/span&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;&lt;strong&gt;[publicado em «A Voz de Loulé» de 1Abril2004]&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/10766389-111083259629404930?l=helderfraimundo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/10766389/posts/default/111083259629404930'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/10766389/posts/default/111083259629404930'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://helderfraimundo.blogspot.com/2005/03/casimiro-de-brito-um-poeta-abandonado.html' title='Casimiro de Brito, um poeta abandonado'/><author><name>HFR</name><uri>http://www.blogger.com/profile/10958773275348751832</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-10766389.post-110926635413778954</id><published>2005-02-24T17:22:00.000Z</published><updated>2005-02-24T17:32:34.143Z</updated><title type='text'>A política, o futebol e a violência</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;No ano de 2004, o futebol dominará a política nacional. Em contrapartida e como moeda de troca social, a política tem dominado o futebol. Há muitas épocas - para usar a terminologia do futebol - em que o dirigismo no futebol é tirocínio obrigatório para quem quer ascender a cargos políticos de referência. Em qualquer currículo que se preste a provas eleitorais, lá vai a referência à gestão da direcção do clube da aldeola, ou à prática desta ou daquela actividade amadora. Em tempos, era raro o presidente de Câmara que não tivesse lugar cativo na presidência de uma qualquer assembleia geral de um qualquer clube. Do anonimato para a associação, desta para o clube de futebol da terra e deste para o cargo político, este era o caminho certo para o poder. Ora, precisamente, este caminho constrói-se a partir de uma rede de favores e benevolências minúsculas e invisíveis que estruturam a fidelidade de apaniguados, empregados, funcionários e autoridades. Só assim é possível, a quem detém o poder, mobilizar em sua defesa todos aqueles que dependem dessa rede diáfana da solidariedade corrupta, mesmo quando os violentos pontapés, - não na bola de futebol, mas na democracia -, são tão evidentes como os que se têm visto por estes dias nos media. Este fenómeno tem sido alvo de certeiras opiniões, em crónicas que aconselho, e das quais refiro a propósito, a de Miguel Portas no «Diário de Notícias» de 4 de Março e a de Augusto Santos Silva no «Público» de 6 do mesmo mês.Numa época de modernidade em que se repescam os valores da tolerância e da solidariedade, a imagem da violência, nos pés de autarcas, são o leit-motiv para a transferência da violência para os campos de futebol, para as ruas, para as cidades, para as escolas.&lt;/span&gt; &lt;span style="font-size:85%;"&gt;O futebol, em vez de escola de virtudes, é o campo de guerra, - já não do escape social do stress quotidiano – onde se joga a violentação dos direitos dos cidadãos, da juventude, das mulheres; enfim, dos mais fracos. Em vez de um paradigma da estética e da ética do desporto, o futebol é hoje o palco desportivo dos jogos económicos do poder, das apostas financeiras da alta política. Um penalty, não é a cobrança de uma falta desportiva, mas a perda de possibilidade de mais uma ascensão social, de mais um degrau na escalada do poder, por onde sobem os autarcas de pacotilha.Também os novos estádios são, assim, os símbolos grandiosos de uma nova ética: a ética do futebol como o grande desiderato civilizacional, o palco efectivo da ascensão dos valores do poder autocrático. É por isso que já não interessa o que se passa lá em baixo, nas quatro linhas, onde se joga o jogo para consumir pela arraia-miúda, nos jornais desportivos de toda a semana. Agora, o que é decisivo são os desígnios das bancadas Vip e dos bastidores do futebol, que no fim de contas, também são os bastidores da política dita representativa.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;&lt;/span&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;&lt;strong&gt;[publicado n' «A Voz de Loulé» de 15Maio2004]&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/10766389-110926635413778954?l=helderfraimundo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/10766389/posts/default/110926635413778954'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/10766389/posts/default/110926635413778954'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://helderfraimundo.blogspot.com/2005/02/poltica-o-futebol-e-violncia.html' title='A política, o futebol e a violência'/><author><name>HFR</name><uri>http://www.blogger.com/profile/10958773275348751832</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-10766389.post-110860138821353058</id><published>2005-02-16T08:41:00.000Z</published><updated>2005-02-17T00:49:48.226Z</updated><title type='text'>A Liberdade no Masculino</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;Éramos todos muito jovens, entre os 15 e os 20 anos, para além dos mais velhos, operários e ainda professores, presentes connosco na reunião.&lt;br /&gt;Mesmo jovens sentíamos os apelos do empenhamento cívico e da participação plena, num Portugal que se queria totalmente democrático, que respeitasse os direitos dos espoliados. Éramos estudantes envolvidos nas lutas diárias, na escola, nas fábricas, nos barcos de pesca. Quase todos de nós vivíamos em bairros operários, ou de pescadores, filhos de operários das conservas, de pequenos agricultores, de pescadores.&lt;br /&gt;Nos últimos dias tínhamos comparecido na escola muito pouco tempo, pois as noites eram longas, passadas ao frio e ao vento à porta das fábricas de conservas da cidade, junto das operárias conserveiras, que depois de um dia muito árduo de trabalho resgatavam, ainda, forças para evitar que as caixas de conservas saíssem da fábrica. Era a contrapartida do seu trabalho e dos salários que não recebiam havia algum tempo. Naquela noite concentrámo-nos junto de uma das fábricas, onde o problema se arrastava mais duro, pela arrogância dos patrões da empresa que, paradoxo do tempo, se chamava “Liberdade”. Nessa noite, entre cantos de intervenção e muitas conversas sobre os momentos de luta, compusemos uma canção de utopia, mas de verdade.&lt;br /&gt;Lembrávamo-nos de tudo isto, no momento em que na reunião clandestina se aguardava a chegada de um novo camarada. Os mais velhos, experientes e responsáveis, guardavam segredo de protecção da sua identidade. Apenas sabíamos que teria saído do partido onde militara muito tempo. Queria assim honrar a sua coerência de luta, participando entre aqueles que julgava merecerem a sua confiança. Quando entrou na reunião, o silêncio que o recebeu foi de respeito e admiração: pela sua idade; pelos seus cabelos grisalhos; pelas suas mãos calosas do trabalho de conserveiro; pelo seu gosto pela solidariedade; e pelo sentido de comunhão com os outros. O seu nome não o sabíamos.&lt;br /&gt;A nossa vida política, ainda clandestina, impunha o uso de pseudónimos, os nomes de defesa perante a prepotência do poder. Todos nós escolhemos nomes sonantes, presumidamente fáceis de memorizar, mas difíceis de relacionar. Quando chegou a vez do nosso novo camarada, a sua voz, grave e tonitruante, cheia de confiança e ilusão, não hesitou e disse: o meu nome será Liberdade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(Este texto é dedicado à memória de José Marques, operário conserveiro, falecido recentemente, em Portimão).&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;&lt;/span&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;&lt;strong&gt;[publicado n' «A Voz de Loulé» de 1.Fevereiro.2004]&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/10766389-110860138821353058?l=helderfraimundo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/10766389/posts/default/110860138821353058'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/10766389/posts/default/110860138821353058'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://helderfraimundo.blogspot.com/2005/02/liberdade-no-masculino.html' title='A Liberdade no Masculino'/><author><name>HFR</name><uri>http://www.blogger.com/profile/10958773275348751832</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-10766389.post-110812280789969103</id><published>2005-02-11T19:47:00.000Z</published><updated>2005-02-11T11:53:27.903Z</updated><title type='text'>O Entrudo e o Carnaval</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;O Carnaval de Loulé costuma ser separado entre o carnaval dito “civilizado” e o outro que não o seria. São pouco conhecidos os epítetos sob os quais seriam designadas as práticas dos carnavais anteriores a 1906 - data em que a comissão de festejos, decide fazer do carnaval um recurso financeiro para a Misericórdia local – mas Freitas (1991: 166, 176) dá-nos muitas respostas. Expressões como “a brutalidade do velho carnaval”; “a machadada de morte no velho «Momo»”; “se jogava agressiva e grosseiramente ao indecoroso Entrudo”, são exemplos da transformação do Entrudo no chamado Carnaval civilizado. Esse mecanismo de transformação, assumiu desde sempre a ideologia da normalidade, da hierarquia, da disciplina, da contenção, como princípios da monarquia e, mais tarde, do Estado Novo. A própria expressão de carnaval, é de origem erudita e importada dos festejos urbanos de países centrais da Europa.&lt;br /&gt;Aqui a civilidade matou o Entrudo, enquanto expressão da manifestação cíclica do mundo agrário, denotativo do ciclo da germinação – das sementeiras, e das correspondentes coesões sociais, indispensáveis à sobrevivência agrícola e comunitária.&lt;br /&gt;            Na verdade, os festejos do Entrudo (ou Entroido, na raia nortenha, como referem Dias ou Oliveira, mas também Entrudo no Algarve, no registo de Marreiros), são práticas de introdução a uma nova fase da vida agrária, em que os elementos de contenção e jejum, não só do ponto de vista da religiosidade cristã, são fundamentais à progressão da floração dos campos, e da vida. É o fim do Inverno e nesta altura o povo extravasa os limites do seu normativo, como a semente rasga o seu invólucro em busca do florescimento. Por isso tudo é permitido, na libertação dos papéis sociais: da sexualidade, da profissão, das hierarquias sociais, do controlo social, da morte. A primordial função social do Entrudo ou Carnaval, como muito bem assinala Espírito Santo (1999: 115) é “a de catalisar os rancores e os desejos reprimidos, trazendo-os à superfície durante estes dias; válvula de segurança para o sistema que o grupo impôs a si próprio, estas cerimónias são a garantia da sobrevivência do grupo”.&lt;br /&gt;Daí que as simulações efectuadas nas práticas tradicionais do Entrudo, que temos registado em recolhas por todo o Algarve, mostrem esse psicodrama: os jovens vestem-se com as roupas do género contrário, contrariando assim a sexualidade explícita; grupos de rapazes e raparigas atacam-se entre si, com papelinhos e farinha – símbolo de fartura de sementeira de pão que germina na terra – procurando estabelecer rituais de namoro e contratualização para futuros casamentos; jovens mascaram-se de fantasmas, de velhos e de caveiras, abjurando a morte, desejando que a ela se substitua uma nova vida, como a que está atrás da máscara; cègadas, com homens vestidos de fardas de autoridade, criticam a torto e a direito, as mazelas da terra, pequenas delinquências e anomias, divulgando muitas vezes o que é óbvio, mas dirimindo assim na praça pública, as discriminações e as injustiças.&lt;br /&gt;            Ora, é a esta prática social, a esta função excomungatória, necessária ao renascimento social e cultural, que o Carnaval civilizado põe fim. Neste, o povo não participa, assiste; não se integra, desfila; não se amotina, ou se enraivece, submete-se; não é actor, mas público. O rei Momo, que se destruía como um rei antigo, para dar lugar ao novo, é agora o rei da festa, que de cima do seu trono impõe as suas regras: o horário da brincadeira, o território fechado da peleja, a separação das classes.&lt;br /&gt;Hoje, este carnaval não é uma prática popular de tradição rural, mas um cartaz turístico do efémero, como aliás foi pensado nos anos 60, como resultado, ainda, das tentativas de hegemonização e controlo da cultura popular rural, como manifesta Augusto Santos Silva.&lt;br /&gt;E assim, o carnaval civilizado vai conseguindo aquilo que a igreja, desde a Idade Média, nunca conseguiu: opôr-se aos “costumes dos gentios” e fazer de uma festividade cíclica agrária, de esconjuramento popular, uma manifestação religiosa de abertura da Quaresma.&lt;br /&gt;É claro que estas mudanças não são pacíficas e talvez seja por isso que, opondo-se a uma crescente aculturação estrangeira do Carnaval - processo consequente da turistificação carnavalesca  -,   muitos optem por chamar a si a detenção da expressão de uma maior portugalidade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Notas:&lt;br /&gt;Freitas, Pedro de (1991) &lt;em&gt;Quadros de Loulé Antigo&lt;/em&gt;. Loulé: Câmara Municipal de Loulé.&lt;br /&gt;Espírito Santo, Moisés (1999) &lt;em&gt;Comunidade Rural ao Norte do Tejo, seguido de Vinte anos depois&lt;/em&gt;. Lisboa: Universidade Nova de Lisboa.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;p&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;&lt;strong&gt;[publicado n' «A Voz de Loulé» de 1.Março.2004]&lt;/strong&gt;&lt;/p&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt; &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/10766389-110812280789969103?l=helderfraimundo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/10766389/posts/default/110812280789969103'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/10766389/posts/default/110812280789969103'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://helderfraimundo.blogspot.com/2005/02/o-entrudo-e-o-carnaval.html' title='O Entrudo e o Carnaval'/><author><name>HFR</name><uri>http://www.blogger.com/profile/10958773275348751832</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry></feed>
